A névoa daquela noite parecia mais espessa do que o habitual, como se Noctávia soubesse que algo estava prestes a mudar. Gabriel caminhava sem destino definido, os pensamentos ainda queimando por causa da discussão. Cada palavra dita entre ele e Helena ecoava como uma sentença não concluída. A dor era recente, mas mais forte do que isso era a sensação de que algo dentro dele estava despertando, algo que não dependia mais dela.
Ele parou sob a marquise de um prédio antigo quando percebeu que não estava sozinho.
Não foi um som.
Foi uma presença.
Um deslocamento sutil no ar.
— Você anda sozinho demais para alguém que acabou de ser advertido — disse uma voz masculina, suave e controlada.
Gabriel virou-se imediatamente.
O homem à sua frente parecia ter pouco mais de trinta anos. Elegante. Calmo. Olhos claros demais para aquela luz fraca.
Mas o que denunciava sua natureza não era aparência.
Era a ausência de respiração visível no frio.
— Eu conheço você? — Gabriel perguntou, mantendo o tom firme.
O homem sorriu discretamente.
— Não oficialmente.
Ele deu um passo à frente.
— Meu nome é Lucien.
O nome soava antigo. Não comum. Não local.
Gabriel não precisou perguntar o que ele era.
— Veio me m***r?
Lucien inclinou levemente a cabeça.
— Se essa fosse minha intenção, você não teria tempo para perguntar.
Silêncio.
— Então o que quer?
Lucien observou-o com atenção quase científica.
— Você está mudando.
Gabriel sentiu o corpo enrijecer.
— Não sei do que está falando.
— Sabe, sim.
Lucien aproximou-se mais um passo.
— Seu cheiro não é comum. Sua pulsação é instável. Sua energia… diferente.
Gabriel tentou manter a postura.
— Vá direto ao ponto.
O sorriso de Lucien tornou-se mais sutil.
— Estou aqui porque alguns acreditam que você é uma ameaça.
— E você?
— Eu acredito que você é… interessante.
A palavra foi dita com cuidado.
Gabriel sentiu o desconforto crescer.
— Não quero fazer parte do mundo de vocês.
— Já faz.
Lucien deu a volta lentamente ao redor dele, analisando.
— Você acha que pode se afastar dela e tudo voltará ao normal?
Gabriel não respondeu.
— Não voltará.
Lucien parou diante dele novamente.
— A proximidade com Helena despertou algo em você. Algo raro. Algo que não vemos há séculos.
— Eu não pedi por isso.
— Mudanças raramente pedem permissão.
O silêncio tornou-se mais pesado.
— O que você quer? — Gabriel insistiu.
Lucien inclinou-se ligeiramente, como se compartilhasse um segredo.
— Quero oferecer uma alternativa.
Gabriel sentiu o coração acelerar.
— Alternativa a quê?
— A ser eliminado.
A franqueza foi brutal.
— Se o conselho decidir que você representa risco, não haverá debate.
— E você pode impedir?
— Posso influenciar.
Gabriel percebeu o jogo.
— Em troca de quê?
Lucien sorriu.
— De informações
— Sobre Helena?
— Sobre você.
Gabriel manteve o olhar firme.
— Seja mais claro.
— Quero entender o que você está se tornando.
O vento soprou mais forte.
Lucien continuou:
— Existem lendas antigas. Humanos que desenvolveram percepções ampliadas sem transformação completa. Alguns tornaram-se aliados. Outros… ameaças.
— E você quer descobrir qual eu sou.
— Exatamente.
Gabriel pensou.
Parte dele queria negar, afastar-se, fingir que ainda havia escolha.
Mas a verdade era que já estava no centro de algo maior.
— E se eu recusar?
Lucien deu de ombros.
— Outros não serão tão pacientes quanto eu.
Silêncio.
A proposta não era gentil.
Era estratégica.
— O que exatamente você quer que eu faça? — Gabriel perguntou finalmente.
— Nada imediato.
Lucien aproximou-se o suficiente para que Gabriel sentisse o frio da presença.
— Apenas continue vivendo. Continue sentindo. Continue mudando.
— E você observa?
— Sim.
Gabriel estreitou os olhos.
— Helena sabe disso?
— Não.
— Então isso é contra ela.
Lucien riu baixo.
— Isso é além dela.
A frase ficou suspensa no ar.
Gabriel sentiu algo estranho naquele momento.
Não medo.
Não raiva.
Mas uma compreensão súbita.
Ele estava sendo visto como algo potencialmente novo.
E, pela primeira vez, não se sentiu completamente impotente.
— Se eu aceitar — disse ele — você garante que ninguém vai tocá-la por minha causa?
Lucien inclinou a cabeça.
— Posso garantir que ninguém a responsabilizará por você.
Era o máximo que ele ofereceria.
Gabriel respirou fundo.
— Eu não sou parte do seu clã.
— Ainda não.
— Nem serei.
Lucien sorriu novamente.
— Isso veremos.
Ele recuou um passo.
— Pense. Você quer permanecer humano indefeso… ou entender o que está se tornando?
Gabriel sustentou o olhar.
— Eu nunca serei como vocês.
Lucien virou-se lentamente.
— Talvez não.
E desapareceu na névoa com velocidade impossível.
Gabriel ficou sozinho.
Mas agora, diferente de antes, não estava apenas assustado.
Estava consciente.
E talvez… curioso.
****
Horas depois, Helena sentiu algo mudar novamente.
Não era dor.
Era decisão.
Ela sabia que alguém se aproximara dele.
Sentia a interferência.
Mas não sabia quem.
Quando finalmente apareceu diante do prédio de Gabriel, hesitou antes de subir.
A discussão ainda ardia.
Mas o instinto falou mais alto.
Ela entrou.
A porta do apartamento estava destrancada.
Gabriel estava sentado no sofá, olhando para as próprias mãos como se analisasse algo invisível.
Ele levantou o olhar quando ela entrou.
Não houve surpresa.
— Você veio — ele disse apenas.
— Eu senti algo.
Ele assentiu.
— Ele veio.
Os olhos dela escureceram.
— Quem?
— Lucien.
O nome fez o ar esfriar ainda mais.
— O que ele queria?
Gabriel levantou-se lentamente.
— Oferecer p******o.
— Em troca de quê?
— Observação.
Helena aproximou-se rapidamente.
— Você não pode confiar nele.
— Eu sei.
— E então?
Ele a encarou com uma calma que a assustou.
— Eu aceitei.
O silêncio foi absoluto.
— O quê?
— Não formalmente. Mas não o afastei.
A decepção cruzou o rosto dela.
— Gabriel…
— Eu não tenho opções ilimitadas, Helena.
— Ele vai usar você.
— Talvez.
Ele se aproximou.
— Mas pelo menos não estarei apenas esperando ser eliminado.
Ela ficou imóvel.
— Você está entrando em território que não entende.
— Eu já estou nele.
A firmeza dele era nova.
Diferente.
Helena percebeu algo ali.
Não submissão.
Mas autonomia.
E isso a assustava mais do que qualquer ameaça externa.
— Você está mudando — ela sussurrou.
Ele a olhou profundamente.
— Talvez eu sempre tenha sido mais do que você pensava.
A frase não era acusação.
Era afirmação.
O fio invisível entre eles tensionou novamente.
Mas agora não era apenas amor que os unia.
Era perigo compartilhado.
E escolha.
E naquela noite, pela primeira vez desde que se conheceram, Helena percebeu que talvez não fosse ela quem estivesse conduzindo o destino dos dois.
Talvez Gabriel estivesse começando a escrever o próprio caminho.
E isso…
Poderia ser ainda mais imprevisível do que qualquer eternidade.