A noite em Noctávia já não era silenciosa.
Era um campo de tensão invisível, uma cidade que respirava medo sem saber por quê. Humanos seguiam suas rotinas, carros cruzavam avenidas iluminadas, vitrines brilhavam, mas algo no ar estava errado — pesado, denso, quase elétrico.
Gabriel Monteiro sentia.
Sentia cada vibração.
Sentia Helena.
A ligação entre eles não era mais apenas amor. Era um vínculo brutal, quase primordial. Desde que fora capturado e sobrevivera ao confinamento do Conselho, algo dentro dele havia se partido… e algo muito maior havia despertado.
Ele não era vampiro.
Também não era humano.
Era algo antigo.
Algo que o próprio Conselho temia.
A Prisão de Helena
Helena estava acorrentada com correntes forjadas com prata n***a e sangue ancestral. Não eram correntes comuns — eram encantadas para enfraquecer vampiros de linhagem pura.
Mesmo assim, ela permanecia ereta.
Digna.
Os membros restantes do Conselho observavam-na de longe, como se ela fosse tanto prisioneira quanto arma.
— Ele está vindo — murmurou um deles.
— Que venha — respondeu outro. — Se atravessar nossos portões, teremos justificativa para eliminá-lo.
Mas nenhum deles parecia verdadeiramente confiante.
Porque todos tinham sentido o que aconteceu na noite anterior.
A explosão de energia.
A morte de um dos conselheiros.
O chão do salão ancestral havia rachado como se uma força celestial tivesse golpeado o mundo.
Gabriel não lutava como vampiro.
Ele lutava como se a própria escuridão o obedecesse.
O Retorno do Predador
Gabriel caminhava sozinho pelas ruas desertas da zona antiga da cidade. O hospital público onde trabalhava permanecia fechado por uma investigação oficial — consequência indireta dos conflitos sobrenaturais que ninguém sabia explicar.
Ele não vestia mais roupas comuns.
Usava preto.
Simples.
Minimalista.
Os olhos, antes castanhos, agora carregavam um brilho dourado profundo quando a raiva crescia.
Adrian surgiu diante dele como uma sombra materializada.
— Você não pode invadir o Conselho sozinho.
Gabriel não parou de andar.
— Eu não estou sozinho.
Adrian sentiu.
A energia ao redor de Gabriel vibrava, como se forças invisíveis orbitassem seu corpo.
— Eles vão matá-la se você atacar diretamente.
Gabriel finalmente parou.
Virou-se lentamente.
— Se tocarem nela novamente… eu destruo todos.
Não havia exagero na voz.
Era uma promessa.
A Invasão
O covil do Conselho ficava sob as ruínas de um antigo teatro abandonado — uma construção da era colonial esquecida pelos humanos.
Gabriel atravessou as portas como se não existissem.
O primeiro vampiro que tentou impedi-lo não teve tempo de reagir.
Gabriel apenas ergueu a mão.
E o vampiro foi lançado contra a parede com força suficiente para esmagar pedra.
O segundo tentou atacá-lo pelas costas.
Gabriel girou, os olhos dourados brilhando intensamente — e o agressor simplesmente congelou no ar, como se uma força invisível o segurasse… antes de ser arremessado ao chão com brutalidade.
O Conselho inteiro sentiu a presença dele.
Os corredores ecoavam passos rápidos.
Gritos.
Ordens.
Mas Gabriel não corria.
Ele avançava.
Como se já soubesse exatamente onde Helena estava.
O Confronto
As portas da câmara principal se abriram violentamente.
Helena ergueu o rosto no instante em que ele entrou.
O ar mudou.
O vínculo entre eles vibrou como um fio elétrico.
— Gabriel… — ela sussurrou.
Os membros do Conselho se posicionaram.
— Você ultrapassou todos os limites — disse o conselheiro mais antigo. — Não é vampiro. Não é humano. Você é uma anomalia.
Gabriel sorriu levemente.
— Eu sou o que vocês criaram quando tentaram me destruir.
Três vampiros avançaram simultaneamente.
Diferente das outras vezes, Gabriel não apenas reagiu fisicamente.
Ele liberou.
Uma onda invisível se espalhou pela sala.
As tochas se apagaram.
As paredes tremeram.
Os vampiros foram lançados ao chão, contorcendo-se como se o próprio sangue dentro deles estivesse em revolta.
Helena observava, chocada.
Não era força bruta.
Era domínio.
Gabriel caminhou até ela.
As correntes começaram a vibrar.
Rachaduras surgiram no metal.
E então…
Explodiram.
A Fúria Desencadeada
Mas o Conselho não estava indefeso.
O conselheiro sobrevivente ergueu uma lâmina antiga — forjada para m***r entidades híbridas.
Ele atacou.
A lâmina atravessou o abdômen de Gabriel.
Helena gritou.
O mundo pareceu parar.
Por um segundo, Gabriel olhou para a própria ferida.
Sangue escuro escorreu.
O conselheiro sorriu.
— Nem você é imortal.
Mas então…
A ferida começou a se fechar.
Não lentamente.
Instantaneamente.
A lâmina derreteu dentro do corpo dele como se tivesse sido absorvida.
Os olhos dourados tornaram-se quase brancos.
— Eu não sou como vocês.
E dessa vez, quando ele liberou poder, não foi uma onda.
Foi devastação.
O conselheiro foi erguido do chão por pura energia invisível.
Os ossos começaram a quebrar sob pressão.
Helena sentiu o medo.
Não do Conselho.
De Gabriel.
— Gabriel… pare… — ela implorou.
Ele hesitou.
Por um segundo.
Mas a raiva era maior.
O corpo do conselheiro foi esmagado contra a parede com força suficiente para despedaçar pedra e carne.
Silêncio.
Restavam apenas dois membros do Conselho.
Ambos ajoelhados.
A Escolha
Helena segurou o rosto de Gabriel.
— Se continuar assim… você se tornará exatamente o que eles temem.
Ele respirava com dificuldade.
A energia ainda vibrava ao redor dele.
— Eles machucaram você.
— E você já os venceu.
O silêncio se instalou.
Ele poderia m***r todos ali.
Encerrar o clã.
Eliminar qualquer ameaça futura.
Mas então…
Ele olhou para Helena.
E o brilho nos olhos dele suavizou.
A energia começou a se retrair.
Como uma maré que recua.
— Eu não quero governar nada — ele disse, com a voz ainda carregada de poder. — Só quero você viva.
Os membros restantes do Conselho não ousaram se mover.
A guerra ainda não havia acabado.
Mas naquela noite…
O poder mudou de lado.
A Nova Ameaça
Quando saíram das ruínas, Noctávia parecia diferente.
O vento soprava forte.
Adrian os aguardava.
— O que você fez lá dentro… espalhou-se. Outros clãs sentiram.
Gabriel sabia.
Ele também sentira.
Sua existência agora era conhecida além daquela cidade.
Helena segurou sua mão.
— Isso não acabou, não é?
Gabriel olhou para o horizonte.
— Não.
Mas agora não era apenas vingança.
Era algo maior.
Ele não lutaria apenas contra o Conselho.
Lutaria contra qualquer vampiro que acreditasse que podia controlar o destino deles.
E, no fundo, uma verdade começava a se formar:
Gabriel não era apenas mais poderoso que os vampiros.
Ele era algo que existia antes deles.
E se ele perdesse o controle novamente…
Nem Helena seria capaz de detê-lo.