Capitulo 19_O Primeiro Sinal

1428 Words
Gabriel acordou antes do amanhecer. Não foi o despertador. Não foi o barulho da rua. Foi algo interno. Um incômodo leve, quase como se seu corpo tivesse decidido que o descanso não era mais prioridade. Ele abriu os olhos devagar. O apartamento ainda estava mergulhado em penumbra. Helena não estava deitada ao lado dele. Por um segundo, o coração acelerou, não por medo, mas por ausência. Ele sentiu o vazio na cama antes mesmo de olhar. O que já era parte dele a alguns dias, sentir o que não devia, mas ele percebeu algo estranho. O mundo estava… mais nítido. Ele conseguia ouvir a água ainda escorrendo pelo encanamento do prédio. O som distante de um carro duas ruas abaixo. O bater ritmado de asas , pássaros? Não. Morcegos retornando a algum esconderijo. Podia ouvir os sons que um humano normal não conseguiria, sua audição estava aguçada mais tão aguçada que podia ser considerada uma mutação Ele sentou-se devagar. A cabeça não doía. Não havia febre. Mas havia uma clareza desconcertante. Como se uma lente tivesse sido ajustada dentro dele e precisava de tempo para se adaptar. O cheiro da chuva ainda permanecia no ar. Mas não apenas isso. Ele sentia o cheiro da madeira do chão. Do tecido do sofá. Do próprio sangue correndo sob sua pele. Ele parou. Sentia. O próprio sangue. É impressionante. É demais. Gabriel levou a mão ao peito. O coração batia, mas não no ritmo habitual. Estava… mais compassado. Mais controlado. Um arrepio percorreu sua espinha. — Helena? — chamou. Ela surgiu da cozinha quase imediatamente. Ela estava imóvel. Apenas observando-o. Não com ternura. Com atenção. — Você também sentiu — ela disse. Não era pergunta. Ele levantou-se devagar. — Eu estou diferente . Ela aproximou-se lentamente, como se estivesse avaliando um fenômeno raro. — Seus olhos — ela murmurou. Gabriel caminhou até o espelho na parede. Por um segundo, nada parecia estranho. Então ele percebeu. A pupila estava levemente dilatada demais para a pouca luz. E havia algo na íris… um brilho mais profundo. Não vermelho. Não ainda. Mas diferente. Ele engoliu em seco. — Isso é por causa de ontem? Helena não respondeu de imediato. Ela sabia que vínculos físicos entre humanos e vampiros podiam criar ressonâncias energéticas. Mas aquilo… aquilo era mais rápido do que deveria ser. — Eu não te mordi — ela disse, firme. — Eu sei. E era verdade. Mas mesmo sem sangue trocado, algo fora ativado. Ele caminhou até a janela e afastou a cortina. A primeira luz do amanhecer começava a surgir no horizonte. Helena ficou tensa. — Gabriel, não— A luz tocou a pele dele. E nada aconteceu. Mas ele sentiu. Não dor. Mas desconforto. Como se a luz fosse mais intensa do que antes. Como se invadisse mais profundamente. Ele fechou os olhos por instinto. — Está forte demais.Eu sinto tudo, sinto numa intensidade assustadora. Helena se aproximou rapidamente e puxou a cortina de volta. O quarto voltou à penumbra. Ela segurou o rosto dele entre as mãos. A expressão dela agora não era apenas atenção. Era preocupação real. — Isso não deveria acontecer tão cedo. — O quê, exatamente? Ela hesitou. — O vínculo pode estar acelerando sua adaptação. — Adaptação para o quê? O silêncio respondeu antes dela. Gabriel respirou fundo. — Eu estou me tornando como você? Helena afastou-se um passo. — Não completamente. Não sem a transformação. Mas seu corpo pode estar… se preparando. Ele processou aquilo em silêncio. Não havia pânico. Havia algo mais complexo. Uma parte dele ,a parte que sentira o mundo expandir, não estava horrorizada. Estava curiosa. Estava surpresa. E isso assustou Helena mais do que qualquer outra reação. — Você não entende o que isso significa — ela disse, a voz mais baixa. — Então me explica. Ela caminhou pelo quarto, inquieta. — O Conselho não aprovou nada ainda. O que aconteceu ontem foi… intenso demais. Ligações profundas alteram energia vital. Seu corpo pode estar respondendo ao contato prolongado com o meu. Gabriel olhou para as próprias mãos. Sentia força nelas. Não exagerada. Mas concentrada. Ele fechou o punho devagar. O som do osso estalando foi mais alto do que deveria. Ele ouviu. Helena também. Houve um silêncio pesado. — Faça um teste — ela disse de repente. — Que tipo de teste? Ela pegou um copo de vidro da mesa. Colocou na mão dele. — Aperte. — Eu não vou quebrar isso. — Ah vai, aperte! Ele hesitou. Então aplicou pressão. Primeiro leve. Depois mais firme. O vidro rachou. Gabriel soltou imediatamente, olhando para os próprios dedos como se não os reconhecesse. Ele não havia usado força total. Nem perto disso. Helena fechou os olhos por um segundo. — Está acelerado demais. — Você disse que não me mordeu. — E realmente não o fiz... É só que... Ela respirou fundo e torna a falar — Mas às vezes, quando dois seres se conectam profundamente… o sangue não é a única ponte. O silêncio que se seguiu foi denso. Gabriel não parecia apavorado. Ele parecia desperto. Mais do que nunca. — Eu consigo ouvir seu coração — ele disse de repente. Helena congelou. — Isso é impossível. — Não é. Ele aproximou-se dela. Os olhos focados. — Ele bate mais devagar que o meu. Muito mais devagar. Ela permaneceu imóvel. — Gabriel… — E eu consigo sentir quando você fica tensa. O tom dele não era acusatório. Era constatação. O ar entre eles mudou. Algo primal começava a emergir. Ele inclinou levemente a cabeça. — E agora… você está com medo. Ela sustentou o olhar dele. — Não de você. — Então de quê? Ela respondeu quase num sussurro: — Do que você pode se tornar antes da hora. A frase ficou suspensa no ar. Gabriel aproximou-se mais. Ele podia sentir o cheiro dela com intensidade absurda agora. Não apenas a fragrância da pele, mas também a circulação lenta, profunda, poderosa sob ela. E algo dentro dele reagiu. Não era fome. Não ainda. Mas era atração ampliada. Ele fechou os olhos por um segundo. Respirou fundo. Quando abriu novamente, havia um brilho diferente neles. — Eu sinto tudo mais forte. Helena percebeu. O Conselho estava certo sobre uma coisa: O vínculo era perigoso. Mas não porque fosse instável. E sim porque era poderoso. Gabriel deu um passo atrás de repente. Como se tivesse percebido algo. — O cheiro… — ele murmurou. — Que cheiro? Ele virou o rosto levemente. — O vizinho do terceiro andar. Ele cortou o dedo. Helena sentiu o próprio corpo enrijecer. — Como você sabe disso? Ele fechou os olhos novamente. Concentrou-se. E então abriu um sorriso, confuso. — Eu só… sei. O silêncio que se instalou foi diferente de todos os anteriores. Não era tensão romântica. Era prenúncio. Helena aproximou-se lentamente. — Gabriel, olha para mim._ disse segurando em seu queixo Ele olhou. — Você precisa manter o controle. O que está despertando é sensorial, não predatório. Entende? Ele assentiu. Mas naquele exato momento, algo atravessou o ar. Uma corrente súbita. Um cheiro metálico. Mais forte. Muito mais próximo. Helena percebeu antes que ele reagisse. Um corte recente. Sangue fresco. Na rua. Gabriel virou o rosto na direção da janela. Os músculos do maxilar se contraíram. A respiração mudou. Mais profunda. Mais lenta. Helena segurou o braço dele. — Gabriel. Ele piscou uma vez. Duas O mundo parecia estar puxando-o. Não como tentação. Mas como chamado. Ela segurou o rosto dele com firmeza. — Foca em mim. Os olhos dele demoraram um segundo a ajustar. Mas ajustaram. Ele respirou fundo. Mais uma vez. O cheiro diminuiu. O impulso recuou. E então ele piscou novamente e era Gabriel outra vez. Humano. Ainda. Ele olhou para ela. Havia algo novo ali. Não medo. Não culpa. Consciência. — Eu quase… — Eu sei. Mas eu estou aqui com você Helena manteve as mãos no rosto dele por mais um segundo. E ali, pela primeira vez desde que o conhecera, ela viu algo inevitável. A transformação não seria apenas escolha. Seria consequência. E talvez… Já tivesse começado. Tinha de manter o controle, pelo menos até às setes noites se passarem. Helena estava com medo, as habilidades que ele está desenvolvendo , está sendo muito rápido e demais. Gabriel está se tornando em uma força muito poderosa, e isso pode sim ser uma ameaça para o Clã, assim como pode ser um aliado para eles . É impressionante como a ligação deles podia criar algo tão poderoso, como o que ele estava se transformando. Poderoso Gabriel está se tornando muito poderoso.
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