Na manhã seguinte, Noctávia parecia comum demais para comportar as inquietações que haviam atravessado a noite de Gabriel.
A luz do dia entravam pelas janelas do apartamento com uma clareza, como se zombasse da intensidade dos pensamentos que ainda giravam em sua mente. Ele estava acostumado a confiar na lógica.
É médico, treinado para identificar sintomas, rastrear causas, encontrar padrões invisíveis dentro do caos biológico.
E, ainda assim, ali estava ele, analisando memórias de um quase acidente como se fossem evidências clínicas.
Helena o puxara antes mesmo de o carro surgir plenamente em seu campo de visão. Ele repetiu a cena mentalmente enquanto preparava café.
A sequência dos fatos parecia distorcida, como se houvesse um lapso imperceptível no tempo. Ele lembrava do farol surgindo na curva, mas lembrava também de já estar sendo puxado antes de associar perigo àquela luz. Isso não era impossível, dizia a parte racional. Reflexos existem. Pessoas são rápidas.
Mas havia uma precisão quase matemática no gesto dela, algo que não combinava com improviso.
Gabriel tentou afastar o pensamento, mas a mente insistia em retornar ao mesmo ponto: ela ouvira o carro. Mas como? Ele morava em Noctávia há anos. Sabia distinguir sons comuns da cidade. E o carro só fora audível quando já estava próximo demais.
Ele abriu o computador.
Não por suspeita.
Mas por curiosidade.
Digitou o nome completo dela: Helena Duarte.
O cursor piscou na tela como um batimento cardíaco nervoso.
Resultados apareceram, poucos. Muito poucos.
Um perfil discreto em redes sociais, criado há pouco tempo. Sem fotos antigas. Sem marcações. Sem histórico significativo. Uma presença quase… recente demais.
Ele clicou.
As imagens eram impecáveis, mas não havia registros anteriores a dois anos.
Nenhuma fotografia de adolescência.
Nenhuma menção a familiares. Nenhum comentário antigo de amigos de infância.
Era como se Helena tivesse surgido no mundo digital já adulta, já formada, já sem passado.
Gabriel inclinou-se na cadeira.
Isso, sim, era estranho.
Mesmo as pessoas mais reservadas deixam rastros.
Ele fechou o navegador abruptamente.
Estava ultrapassando um limite.
Ou talvez estivesse apenas começando a enxergar o que antes não quis ver.
No hospital, tentou se concentrar no trabalho, mas cada paciente parecia distante, como se a mente dele estivesse ocupando dois planos simultaneamente.
A racionalidade médica e a inquietação emocional. Entre um atendimento e outro, lembrava-se da pele fria dela. Não fria como mãos nervosas em dia de inverno. Fria como algo que não produz calor.
Naquela noite, Helena enviou uma mensagem simples:
“Posso te ver?”
Ele hesitou por alguns segundos antes de responder.
“Claro.”
Marcaram no mesmo café discreto da Rua das Magnólias. Um lugar pequeno, com iluminação âmbar e mesas de madeira escura. Helena já estava lá quando ele chegou.
Ela sempre estava.
Vestia preto naquela noite. O contraste com a pele era quase dramático. Os olhos encontraram os dele com aquela intensidade habitual, mas havia algo diferente. Uma vigilância silenciosa.
— Você parece distante — ela observou.
Gabriel sentou-se lentamente.
— Só cansado.
Ela o analisou como se estivesse medindo as palavras que ele não dizia.
— Você não é bom mentindo.
Ele sustentou o olhar.
— E você?
A pergunta saiu antes que pudesse ser filtrada.
Helena não desviou os olhos.
— Eu não minto quando não é necessário.
Não era uma resposta simples.
Mas também não era direta.
Ele respirou fundo.
— Helena… de onde você veio?
Ela sorriu de leve.
— De muito longe.
— Isso não responde nada.
— Talvez algumas respostas mudem o que você sente.
O coração dele acelerou.
— Mudar como?
Ela inclinou-se levemente sobre a mesa, aproximando-se o suficiente para que ele percebesse a ausência total de batimento vindo dela. Ou talvez fosse impressão. Talvez o ambiente estivesse silencioso demais.
— Se você descobrisse que eu não sou exatamente quem imagina… ainda ficaria?
A pergunta não soava como ameaça.
Soava como aviso.
Gabriel sentiu um misto de receio e fascínio.
— Isso é um teste?
— É uma possibilidade.
O silêncio entre eles era denso, mas não hostil.
Ele estudou cada traço do rosto dela. Perfeito demais. Imutável demais. Como se o tempo não tivesse permissão para tocá-la.
— Você tem medo de que eu descubra algo? — ele perguntou, finalmente.
Ela inclinou a cabeça.
— Tenho medo de que você não esteja preparado.
A frase ficou suspensa entre os dois.
Gabriel sentiu o impulso de rir, de desarmar a tensão, mas algo o impediu. Havia sinceridade ali. Uma sinceridade perigosa.
Ele mudou de assunto.
Mas a semente já estava enraizada.
Mais tarde, ao saírem do café, algo reforçou ainda mais a inquietação dele.
Passaram por uma vitrine grande de vidro.
Gabriel viu seu próprio reflexo claramente.
Viu a rua.
Viu a luz.
Mas, por um segundo, apenas um segundo, teve a impressão de que o reflexo de Helena estava ligeiramente desfocado. Como se a imagem dela não estivesse completamente alinhada com o mundo ao redor.
Ele piscou.
E estava normal.
— O que foi? — ela perguntou.
— Nada… achei que tinha visto algo estranho.
Ela ficou imóvel por uma fração de segundo.
— Às vezes vemos o que estamos prontos para ver.
A resposta não tranquilizou.
Pelo contrário.
Quando se despediram, ela tocou novamente o rosto dele. E dessa vez ele prestou atenção consciente à temperatura da pele dela.
Fria.
Constante.
Sem variação.
Ele segurou a mão dela por impulso.
A sensação era a mesma.
Helena observou-o atentamente.
— Você está tentando confirmar algo — ela disse, quase num sussurro.
Ele soltou a mão devagar.
— Talvez eu esteja tentando entender.
Ela aproximou o rosto do dele, tão perto que a respiração — ou a ausência dela — tornou-se perceptível.
— Cuidado com o que você decide entender, Gabriel.
Ela se afastou.
E, pela primeira vez desde que a conhecera, ele não sentiu apenas encantamento ao vê-la partir.
Sentiu urgência.
Naquela noite, ele não fechou as cortinas.
Ficou sentado na sala escura, revivendo cada detalhe das últimas semanas.
Os encontros sempre à noite.
A ausência de passado.
A velocidade impossível.
O corpo frio.
O reflexo estranho.
O sangue.
A pergunta que ela fizera: “Se você descobrisse que eu não sou exatamente quem imagina…”
Gabriel não era supersticioso.
Mas também não era cego.
Ele levantou-se.
Pegou o casaco.
E saiu.
A Biblioteca Antiga ainda estava fechada, mas ele sabia que o acervo digital poderia ser acessado do terminal externo. Caminhou pelas ruas quase vazias, sentindo a cidade de maneira diferente agora. Como se Noctávia tivesse camadas invisíveis que começavam a se revelar.
Não buscava fantasias.
Buscava padrões.
Histórias antigas da cidade.
Relatos.
Lendas urbanas.
A palavra surgiu involuntariamente em sua mente:
Vampiros.
Ele quase riu da própria audácia.
Era absurdo.
Mas, mesmo assim, digitou.
Resultados históricos apareceram. Lendas do século XIX. Relatos de desaparecimentos inexplicáveis. Uma figura descrita repetidamente ao longo de décadas — uma mulher de pele pálida e olhos intensos, vista sempre à noite.
O coração dele começou a bater mais forte.
Era coincidência.
Tinha que ser.
Mas, ao rolar a tela, uma imagem antiga digitalizada apareceu.
Uma fotografia de 1898.
Uma multidão diante da antiga estação ferroviária de Noctávia.
Entre as pessoas…
Uma mulher.
Sem sorrir.
Com o mesmo olhar.
O mesmo rosto.
Helena.
Gabriel sentiu o mundo inclinar levemente sob seus pés.
Isso era impossível.
Ele ampliou a imagem.
O rosto estava ali.
Inalterado.
Intocado pelo tempo.
O ar pareceu rarefeito.
A mente tentou negar.
Montagem.
Ilusão.
Semelhança.
Mas o reconhecimento foi imediato demais para ser ignorado.
E, naquele instante, a curiosidade transformou-se em algo mais profundo.
Medo.
Não medo dela.
Mas do que ela era.
E, pela primeira vez, Gabriel não estava apenas observando.
Ele estava oficialmente investigando.
E não fazia ideia de que, naquele mesmo momento, Helena já sabia.
Porque havia alguém seguindo Gabriel pelas sombras da biblioteca.
E não era humano.