Ela deixou a porta aberta enquanto fazia suas anotações e organizava a agenda, relendo os dezoito relatórios com tanta atenção que nem percebeu que a porta continuava aberta, até que, em algum momento, levantou os olhos… e os viu.
Os gêmeos estavam parados, observando.
Sentiu um calafrio atravessar o peito, porque, embora estivessem algemados um ao outro, nem parecia — estavam com as mãos presas como se estivessem de mãos dadas.
Primeiro ficou sem reação, depois se levantou rápido para fechar a porta, mas, no instante em que segurou a maçaneta, os olhos deles se encontraram com os dela… e pareceu uma eternidade, dois pares de olhos atentos, escuros, sombrios, prendendo-a ali.
Ela devia correr, devia fechar a porta, devia sair dali, mas não conseguiu.
Ficou parada, presa naquele olhar, como se tivesse sido puxada para dentro dele.
Só fechou a porta quando um guarda apareceu e os irmãos voltaram a caminhar.
Encostou a mão no peito, tremendo, tentando respirar.
Descobriu qual era a sensação de olhar para o fundo do mar.
Todo mundo dizia que o fundo do mar era cheio de segredos e mistérios, que existiam coisas ali que ninguém conhecia e que quem chegava lá uma única vez… nunca mais era o mesmo, isso, se sobrevivesse.E ela entendeu exatamente o que aquilo queria dizer.
Precisou de pelo menos meia hora para se recuperar, porque eles eram ainda mais bonitos de perto, mas não era uma beleza fina, delicada — era uma beleza bruta, pesada, masculina, de homens feitos para lutar… e talvez fossem mesmo, porque tinham entrado ali adolescentes e virado homens atrás das grades, provavelmente lutando para se manter vivos.
E agora ela teria que lutar também, para conseguir trabalhar com eles, para fazer pelo menos um relatório parcialmente fiel, porque, ao olhar nos olhos deles, não tinha certeza de que podiam viver em sociedade.
Pisar no pé de um homem como aqueles… era quase um decreto de morte.
Ela voltou ao seu lugar, tremendo, colocou a mão no peito e sentiu o coração acelerado, como se tivesse corrido uma maratona, e tudo isso só porque tinha olhado nos olhos dos irmãos Mavros.
Se levantou, pegou todos os seus pertences para ir embora, mas, no momento em que chegou na porta, antes mesmo de abrir, percebeu que não podia fugir, não podia simplesmente sair dali, porque tinha uma ordem da máfia inglesa para cumprir, e teria problemas muito maiores se não obedecesse.
Voltou a se sentar.
Não podia nem ligar para a mãe e conversar, não tinha contado o que realmente estava acontecendo, só disse que tinha aceitado um trabalho dentro de um presídio, nada além disso.
Bebeu água, ficou alguns minutos na frente do ventilador, tentando acalmar o corpo que ainda reagia ao medo, e voltou ao trabalho.
E, para piorar, o doutor Pass tinha inserido fotos das cenas de alguns crimes, e ela não teve coragem de olhar muitas delas, porque envolviam crianças, mas foi ver a cena do crime dos irmãos Mavros…eram sobre adultos e se arrependeu no mesmo instante.
Era tanto sangue, tanta confusão, que era impossível distinguir os corpos, eles tinham retalhado tudo o que podiam, como se tivessem colocado para fora toda a raiva que carregavam dentro deles.
Ela fechou a pasta com força, tentando afastar aquela imagem da cabeça, terminou o que precisava, organizou tudo e olhou no relógio, percebendo que já tinham passado vinte minutos da hora de ir embora.
Respirou aliviada por finalmente poder sair dali.
Caminhou para fora, pegou a caixa com o celular e as chaves, e o guarda sorriu para ela, como se fosse dizer alguma coisa, mas um carro preto estacionou naquele momento, o vidro desceu, era um soldado inglês, e o guarda desistiu do que ia dizer.
E, pela primeira vez, Alexia agradeceu por ver um deles.