Alexia acordou com o som do despertador. No primeiro momento, sentiu vontade de desligar, se esconder debaixo da coberta e ficar ali para sempre, mas não podia.
Foi para o banho, se vestiu e caminhou até o carro, como se estivesse sendo empurrada. Já dentro do carro, deixou algumas lágrimas caírem, mas depois respirou fundo e dirigiu até o Kingsdown Correctional onde os irmãos Mavros estavam.
Quando chegou, mais uma vez demorou alguns minutos para sair do carro, estava apavorada..apavorada.Ficou ali, parada, tentando criar coragem, desceu..
Foi parada por um policial, que conferiu seu crachá e passou um detector de metais pelo corpo dela.
— Bem-vinda, doutora… mas acho que não é de bom tom dar parabéns, né? Por estar trabalhando em um lugar assim. É r**m… ou melhor, é muito r**m. Ainda mais para uma mulher bonita como a senhora. Tome cuidado com os detentos e, principalmente, com os irmãos Mavros.
Ela engoliu seco.
— Vou. Vou sim. Obrigada pelo aviso.
— Vai atendê-los também, não vai?
— Vou.
Ela seguiu para dentro e foi conhecer a sua sala. Descobriu que, diante da sala dela, havia outra sala para os presos. Eles entravam por lá para ter suas sessões, mas havia uma grade separando os dois ambientes.
Ao menos isso.
Seria protegida por uma grade, mas ficaria sozinha com os seus pacientes..Porque, mesmo dentro do presídio, os presos tinham direito à confidencialidade entre paciente e médicos.
Ela tentava respirar normalmente, tentando controlar a própria respiração, quando bateram na porta e uma figura alta surgiu.
— Sou o doutor Pass. Fui médico geral e vou lhe apresentar os internos que precisam de avaliação psiquiátrica.
Ela se levantou e ofereceu a mão para ele. Ganhou um sorriso amistoso.
— Se finja de forte. Vai acabar tudo bem. Em alguns meses você está fora daqui.
Ela sorriu, mesmo sem acreditar muito, e agradeceu pelo apoio.
Ficaram diante de um vidro, vários homens sentados, os irmãos Mavros estavam abraçados.
— Aqueles dezoito homens são os seus pacientes. Todos eles cometeram crimes bárbaros. Alguns são a escória da sociedade. De alguns, você deve evitar olhar nos olhos sempre que puder. Não sinta compaixão deles, não ache que são injustiçados..ou que estão aqui por engano, todos eles cometeram os crimes pelos quais fora, condenados. E, se um dia encontrá-los no corredor, mesmo que estejam algemados ou com guardas, entre na primeira sala que puder. Fuja deles..
Ele foi nomeando os presos com a ajuda de um caderno de anotações. Quando chegou em Saimon e Dimonique, soltou um leve lamento.
— Eu acredito que esses dois são os piores. O crime que eles cometeram, como você sabe, é hediondo. Em outra época, ficariam o resto da vida presos, mas eram menores de idade quando o crime foi cometido. O advogado deles é bom, muito bom. E provavelmente tem mais alguém pressionando o juiz para que sejam liberados logo, caso contrário seriam mandados, na verdade, para um sanatório judicial… e morreriam por lá.
Ela sentiu a garganta se fechar, mas fez o que ele mesmo tinha orientado: se fingiu de forte.
Ele fechou o caderno.
— Hoje você lê os meus relatórios. Não sou psiquiatra, também sou médico da família e especialista em medicina de presos. Incluí minhas anotações. Você faz as suas e organiza o horário de atendimento. Sugiro que deixe os presos mais difíceis por último, porque assim vai se preparando… ou faça o contrário. Atenda primeiro os mais difíceis. Depois, quando for ficando mais fácil, você vai conseguir respirar melhor.
Ela apenas ouviu..
— Trabalha hoje sozinha na sala. Quando retornar na quarta-feira, já começa os atendimentos. Eu atendo na sala ao lado e, se precisar de ajuda, basta interfonar.
Ele estendeu a mão.
— Boa sorte.
Ela apertou.
Ele a olhou por um segundo a mais.
— E tenha cuidado com os guardas também. Alguns são bons, podem até virar amigos… mas boa parte vai te pressionar. Saídas noturnas, convites, insinuações. Vão tentar se aproximar, abrir caminho, porque você é bonita… e jovem. E, quando um começa, os outros vão querer o mesmo.
Ela se sentiu ofendida.. Não costumava sair com colegas de trabalho.
— Não estou sendo inoportuno dizendo isso. Você tem idade para ser minha filha. Estou te dando a orientação que daria para ela.
Ela não desviou o olhar.
— Não saia com nenhum deles. A última psiquiatra que esteve aqui dormiu com um… depois com quatro, cinco…mais por pressão do que por vontade própria, eles são persistentes e usam de ameaças. e até vídeos foram gravados.
Ela ficou ainda mais asssustada.
— Então, faça tudo para se preservar — ele continuou — e mantenha o “não” na ponta da língua.
Ela respirou fundo... Entendeu o conselho e de ofendida ficou grata pelo cuidado.
— Vou manter. Obrigada.