New York
Axel
Assim que termino de ler o bilhete escrito por Heather, que deixa claro o fim do nosso casamento, o chão se abre, me engolindo; essa é a sensação que estou sentindo agora. Continuo tentando entender o que aconteceu e, após ter socado a parede, saio do apartamento ainda atordoado, com a mão ensanguentada. Guardo a aliança da minha esposa no meu bolso, na intenção de encontrá-la na casa dos seus pais. Ela nunca deveria ter tirado a aliança do dedo. Respiro fundo e entro no elevador com o terno aberto. Vejo o meu reflexo no espelho do elevador: estou com a gravata desfeita, os cabelos bagunçados, os olhos embaçados com as lágrimas que insistem em descer. Não tenho a intenção de ficar longe da minha esposa; ela se tornou o meu porto seguro, e eu não sei se conseguirei ficar longe dela.
Com os pensamentos tão bagunçados quanto estou agora, chego à garagem e, a passos largos, caminho até a minha Maserati Crossword azul. Preciso encontrar Heather quanto antes…
Acelero saindo da garagem, sem prestar muita atenção no trânsito, e acelerando cada vez mais. Em minutos, paro em frente à mansão Campbell. Assim que o porteiro me reconhece, abre o portão, mas sinto que há algo errado; não gosto dessa sensação.
Sou recebido por meu sogro, que me olha profundamente, mas sinto raiva em seu olhar. Saio do carro sob o olhar raivoso do meu sogro e, assim que entro na mansão, sou recebido por alguns gritos da minha sogra, que me deixam ainda mais atordoado. Ela se aproxima cada vez mais, com muita raiva, e sinto o estalar de um tapa que deixa meu rosto ardendo e, com certeza, ficará a marca dos dedos por algum tempo. Já não é a mesma senhora fina que conheci um dia, mas sim uma leoa defendendo a cria.
— Minha filha nunca deveria ter se casado com você. Você não a merecia! O que você fez com a minha doce menina, seu moleque irresponsável? Você não é homem…
Enquanto fala, vejo as lágrimas caírem de seus olhos, e o meu sogro se aproxima, confortando-a e lhe diz algo que eu não consigo compreender. Mas, após mais alguns minutos, ela me olha por longos instantes, um olhar de desprezo. Esse olhar me lembra de Heather me olhando no início do nosso casamento, quando eu a humilhei das piores formas. Logo em seguida, ela sai, me deixando a sós com o meu sogro.
— Não vou me desculpar por minha esposa, se é isso que você tem em mente, Axel Miller… — fala, me encarando com raiva, e o seu tom de voz deixa isso muito claro.
O que você veio fazer aqui? Achou mesmo que, depois de tudo, seria bem recebido na minha casa? Depois de tudo o que fez com a minha menina, ao ponto de fazê-la ir embora?
Sei muito bem todas as humilhações que você a fez passar, Axel, mas ela tentou fazer esse casamento forçado dar certo e o que você fez em troca?
Escuto meu sogro falar palavra por palavra, com muita raiva na voz, mas não o interrompo. Eu mereço cada advertência dele; até mesmo aceitaria se ele me esmurrasse, afinal, sei que errei. Eu falhei como marido para a filha dele; eu fui um covarde, um crápula desde o início. Mais uma coisa que ele disse não passou despercebida: minha Heather se foi…
Após mais algumas palavras irritadas, finalmente ele para de falar e me olha, esperando que eu diga algo, mas continuo com o olhar baixo e o rosto queimando, sem emitir uma única palavra. Apenas o som da nossa respiração é ouvido na sala.
Os minutos passam e, finalmente, quebro o silêncio…
— Senhor Anthony, eu vim aqui à procura da Heather, mas já sei que ela não está aqui. Onde ela foi? Preciso explicar o que aconteceu a ela, eu… — Tento me explicar, mas sou interrompido mais uma vez por meu sogro.
— Axel, guarde suas explicações para você mesmo. Eu não me interesso, e não sei onde a minha filha está agora, mas com certeza bem longe de você e das suas humilhações. É melhor que ela continue assim; você não a merece. Agora, se me der licença, tenho muito trabalho para fazer. Afinal, eu ainda preciso me concentrar no trabalho. Por conta desse acordo de casamento, farei o que for preciso para livrar a minha filha das suas humilhações, Axel, e espero que a Heather nunca mais tenha que olhar nos seus olhos… — Fala rancoroso, e eu apenas engulo em seco; afinal, de certa forma, ele tem razão…
Após mais alguns minutos de silêncio e sabendo que não conseguirei mais nenhuma informação do meu sogro, levanto e saio. Caminho a passos lentos em direção ao meu carro e, assim que entro e me vejo sob a proteção dos vidros escuros, começo a socar o volante. Não sei por onde começar a procurar a minha mulher, mas não desistirei dela, não mesmo. Eu estava tentando ser um homem melhor, um marido melhor, mas essa armação ferrou com tudo. Caroline e Charles vão me pagar muito caro pelo que fizeram. Meu pai disse que resolveria do jeito dele, mas eu não deixarei passar batido. Quero que Heather esteja ao meu lado para que tenha o prazer, o gostinho de ver quem ferrou com o nosso casamento pagar por isso, ou não me chamo Axel Miller, o CEO frio pelo qual sou conhecido, temido em Nova York.
Depois que consigo me acalmar um pouco mais, ligo o carro; o ronco do motor alivia um pouco os meus pensamentos. Então, saio dirigindo e vejo que até os seguranças da mansão m*l olham para o meu rosto. Eles devem estar me achando um tremendo filha da p**a, e não posso dizer nada; afinal, tenho a minha parcela de culpa.
Dirijo sem rumo pelas ruas entupidas de carros, paro em frente ao bar que sempre frequentei com o Paul e pego o telefone. Encaro por alguns segundos o seu nome e desisto de ligar para ele. Volto a ligar o carro e, em poucos minutos, estou no meu apartamento, pronto para curtir a minha fossa.
Assim que entro no apartamento, sigo direto para o bar, coloco uma dose de whisky sem gelo e tomo em um único gole. Em seguida, coloco outro e, com a garrafa na mão, volto para o sofá e me jogo nele. Estou mentalmente esgotado, preciso colocar minhas ideias em ordem e encontrar a minha mulher; para isso, preciso descobrir por onde começar a procurá-la.
Entre uma dose e outra, algumas ideias começam a surgir. O primeiro passo é fazer meu assistente buscar passagens aéreas em nome de Heather, já que, com certeza, ela foi para longe. Outro ponto, se precisar, é chamar um detetive para buscar informações dela em qualquer lugar do mundo. Eu preciso de Heather comigo; não aceito essa separação. Ela precisa me escutar. Depois de mais algumas doses, pego o telefone e ligo para o seu número. Várias chamadas e nenhuma atendida. Depois de mais algum tempo, o telefone foi desligado. Respiro fundo, frustrado com o desfecho da minha história com a minha mulher. Agora, preciso descansar um pouco, porque amanhã, com certeza, começarei a minha busca constante por ela. Só ficarei tranquilo quando ela estiver novamente em meus braços, quando eu estiver sentindo mais uma vez a sua pele macia, o seu calor ao meu lado, a sua doce voz…
Aos poucos, esvazio o restante da garrafa e me deito no sofá, ainda com a garrafa na mão. Meus olhos começam a fechar e meus pensamentos continuam na mulher que aprendi a amar e a desejar. m*l percebo quando, finalmente, meus olhos pesam e me rendo ao cansaço, adormecendo.