Retornei para casa já um pouco tarde, os olhos estavam inchados de tanto chorar. Estava em uma confusão de sentimentos dentro de mim. Vinícius sempre está vivo dentro de mim; na verdade, nunca me acostumei com sua partida. Sempre fiz questão de mantê-lo presente, mesmo estando morto.
Quanto a Kaio, sinto dentro de mim que gosto dele. Se não fosse assim, não sentiria nada quando ele se aproxima de mim. Mas não consigo me desprender do meu passado. Como eu já disse, mantenho Vinícius vivo em tudo. Para mim, estar com Kaio é como trair a memória dele. É bizarro, eu sei, mas nunca passei por isso.
Amei intensamente, com todas as minhas forças. Os anos que passamos juntos foram os melhores de toda a minha vida. Foi inexplicável, foi intenso. Apostei minha vida nesse relacionamento e, de repente, aconteceu isso, tão rápido, em um piscar de olhos.
Recordo-me dele com aquela alegria, aquela perfeição. A maneira como me tratava, sempre com cuidado, como se eu fosse um vidro prestes a se quebrar. Todos os dias, ao acordar pela manhã, deixava claro o quanto me amava, o quanto me admirava como mulher e esposa. E para piorar, estava esperando um filho! Um filho que também perdi, perdido na dor que eu estava sentindo.
Tudo isso era doloroso, uma terrível tristeza na minha vida. Sei que a vida é complicada, pelo menos a minha está sendo.
Estou na minha sala ampla e iluminada, aguardando Kate sair de sua bolha de romance. Enquanto ela me contava o que rolou, sua felicidade era evidente, seu sorriso era contagiante. Eu estava feliz por ela, do meu jeito, mas estava.
— Que bom que você está feliz, Kate. É tão bom quando a gente está apaixonada. Fazemos planos para uma vida inteira e nem sequer chegamos perto disso. — Digo, olhando para um ponto fixo.
— Ei, amiga, não fica assim. Eu estou aqui e prometo que não vou falar mais sobre isso agora. Sei da sua dor e o que você está passando. — Sinto seus braços me aconchegarem em um abraço quente. — Eu te amo. — Acrescenta.
— Obrigada, amiga. Também amo você. — Digo.
— Bom, vou voltar para o meu lugar. Hoje a empresa está uma bagunça por causa do desfile. — Diz, saindo dali.
Retorno ao meu trabalho, tinha que ir correndo para o desfile, senão meu chefe iria arrancar minha cabeça. Pego tudo o que iria precisar e saio da minha sala. Entro no elevador e desço até a área da apresentação. A primeira cara que vejo é a de Kaio e a loira junto com ele, segurando em seu braço. Seus olhos encontram os meus, ele me encara e eu apenas abaixo a cabeça sem dar a mínima para ele, que estava muito bem acompanhado.
O desfile começa, vejo Kate vindo até mim e ficando ao meu lado. Uma hora já havia se passado e eu me segurando para não ir ao banheiro. Estava apertada, mas não podia afastar meu pé dali, já que o senhor Damon estava me observando com uma carranca notória, parecia que havia chupado um limão azedo.
— Esse velho me odeia. — Cutuco Kate, que ri do meu comentário.
— É, já percebi. Você deve ter feito alguma coisa para ele em vidas passadas. — Diz baixo.
— Não vem com essa, Kate. Não acredito em reencarnação, e mesmo assim, se fosse verdade, eu sei que sou super fofa. Não machucaria ninguém, sou inofensiva. — Comento, enquanto ela ri. E lá estava o velhote fechando mais a cara. Kate me olha e não diz mais nada, parece que ele ouvia o que estávamos falando.
Olho disfarçadamente para Kaio, ele estava ali o tempo todo, sério, enquanto a loira abusada ria de algo.
— Essa falsificada não era para estar desfilando? — Cutuco Kate, que olha para ela.
— Ela é tão b***a que não quer desfilar em ocasiões pequenas, amiga. Ela é a modelo da empresa. — Kate diz.
— Não sabia. — Falo, olhando novamente para eles e, nesse momento, Kaio me olha. Ficamos em uma batalha de olhares, e nesse momento vejo seus dentes brancos a mostra em um sorriso de fazer qualquer um tremer. Desvio meu olhar e engulo em seco.
— Acho que esse gostoso está afim de você, amiga. — Kate comenta.
— Tá enganada. — Limpo a garganta.
— Menina, sou mulher, e tenho certeza que você também já deve ter percebido. — Avisa. — A todo momento ele olha para você. Se fosse comigo, eu já tinha agarrado. — Sorri.
— Assanhada. — Comento. — Amiga, vou ao toalete. Não aguento mais. — Avisei.
— Vai lá, fico aqui prestando atenção em tudo por você. — Diz, enquanto saio dali para o toalete.
Assim que chego ao corredor, saio praticamente correndo para dentro do banheiro. O pé da minha barriga já doía de tanto aguentar o xixi. Escuto a porta ser aberta, mas não digo nada, pois como o banheiro é feminino, deve ser alguma mulher que entrou.
Me ajeito e vou abrindo a porta. Minha surpresa é ver Kaio ali, encostado na pedra de mármore da pia. Seus braços estavam apoiados na mesma, ele me observava atentamente.
— O que faz aqui? Acho que errou de banheiro. — Avisei, caminhando para a pia para lavar as mãos.
— Acho que não! — Diz, me observando enquanto engulo em seco.
— Sai daqui, Kaio. Você vive me seguindo agora? Já estou com medo de você. — Avisei, passando por ele para ir até a porta, mas, para minha surpresa, estava trancada. — Droga, o que você está pensando? Seu pai vai me matar se eu não chegar logo. — Digo, enquanto vejo ele se aproximar de mim.
— Meu pai não fará nada com você, eu garanto. — Avisa, colocando a mecha do meu cabelo atrás da minha orelha.
— Por favor, deixa eu sair. Não torne tudo ainda mais difícil. — Digo, mas foi inútil. Sinto seus lábios sobre os meus, enquanto suas mãos fortes agarram minha cintura e me colocam em cima da pia. Sinto o frio da pedra de mármore da pia contra a minha b***a.
— Eu quero você, Sara, e não vou desistir. — Diz, enquanto sussurra em meu ouvido. — Lembra quando éramos apenas garotos, e você me prometeu que quando nos tornássemos adultos, nos casaríamos? Foi uma promessa de nós dois, que fizemos um para o outro. — Kaio roça seus lábios nos meus.
— Foi uma promessa boba, eu e você não tínhamos noção do que estávamos fazendo. — Falei com dificuldade devido ao beijo que me deixou sem fôlego.
— Você me quer tanto quanto eu quero você. Não seja teimosa, se dê a oportunidade de ser feliz tanto quanto você foi. — Diz, apertando meus cabelos levemente, enquanto sua boca está próxima à minha.
— Me deixa sair, Kaio. — Suplico, já com dificuldade. — Ou terei que gritar por socorro?
— Gritar por socorro não seria nada prudente da sua parte. Você só atrairia os abutres chamados de imprensa até aqui, e tirariam fotos de nós dois. Hoje mesmo viraríamos notícia do dia, e não teríamos paz por pelo menos uns cinco meses, ou talvez a vida toda. — Explicou calmamente.
— Você não existe, né? Aposto que isso era o que você mais queria que acontecesse. — Me afasto dele.
— Não é uma má ideia, eu confesso. — Kaio me agarra pela cintura, me prendendo a ele. — Não vou te forçar a nada, quero que me ame de livre e espontânea vontade. Você vai me amar, vai suplicar para me sentir dentro de você. Vai ver que sim. E quando isso acontecer, me lembre dessas palavras no momento em que eu estiver te chupando. — Diz, me deixando sair, e vou embora dali.