Trevor
Eu tenho feito tanta coisa ultimamente que não tenho conseguido nem pensar direito. Eu acabei de me mudar e minha mãe está vindo esse fim de semana ver o lugar onde eu estou morando. Ela ainda não se conforma com as escolhas que eu fiz para a minha vida. Valerie Reid é uma mulher exigente e ela ainda não aceitou muito bem o fato que eu larguei a medicina e preferi a psicologia. Sempre foi o sonho dela que eu fosse médico e no começo eu realmente achei que eu tinha aptidão para medicina e também tinha o sentimento de não querer magoar a minha mãe, então eu me mantive no curso, até o momento em que as aulas não me interessavam mais, e aquilo tudo parecia errado para mim, eu não conseguia me ver futuramente como um médico, eu até gostava, mas não era aquilo que eu realmente queria fazer. Eu sempre fui apaixonado por psicologia, desde pequeno eu pegava revistas sobre o assunto e lia, fascinado com a psique humana até os ossos. Certos assuntos me deixavam mais e mais curioso e eu devorava páginas e mais páginas de textos sobre o assunto, eu queria aprender mais sobre a mente humana e quando eu percebi que o meu fascínio ia muito além de apenas gostar, eu larguei o curso de medicina que eu fazia a apenas dois anos e me matriculei em psicologia e me formei com honras na minha turma. No momento em que eu tive a minha primeira aula, eu finalmente me senti preenchido, eu sabia com todo o meu coração que ali era o meu lugar.
Agora eu estou abrindo um consultório em um ótimo lugar em um prédio comercial no centro de Manhattan, eu tenho uma boa clientela e posso viver tranquilamente com o que eu ganho, além do mais, eu venho de uma família abastada e já tinha algum dinheiro investido de forma inteligente que rende uma boa quantia todos os meses.
Na realidade, eu acho que sou um homem de sorte. Eu tenho apenas 26 anos e tenho estabilidade financeira e profissional.
Carrego mais caixas para dentro da sala que já está abarrotada. Deixo a pesada caixa no chão e enxugo o suor que escorre pela testa olhando ao redor com a certeza que eu vou ouvir um discurso da minha mãe sobre como eu sou desorganizado e que eu poderia tentar não deixar tudo para fazer de uma vez só. Ela insiste que eu não deveria morar sozinho, pois sou desorganizado e tenho o péssimo hábito de deixar para fazer coisas pequenas para depois. Como lavar a louça e juntar as roupas sujas. Mas eu sei cozinhar e limpar, então eu me considero capaz o suficiente para morar sozinho. Depois que eu saí do apartamento que eu dividia com a minha ex namorada, eu passei uma temporada com a minha mãe e sinceramente, eu não gostei muito. Eu tinha esquecido quão complicado é morar com os pais depois que você conquista a independência. Sempre que eu pensava de levar alguém para casa, a minha consciência me lembrava que eu não podia, pois a minha mãe estava no mesmo teto e mesmo que nossos quartos fossem distantes um do outro, ninguém garante que a minha companheira não seria daquelas que gritam, eu não saberia como olhar minha mãe ou a mulher que estava comigo no momento se fossemos interrompidos por causa de barulho ou pela minha mãe simplesmente passando por ali.
Não, obrigado.
Fico embaraçado só de pensar.
Então eu encontrei um lugar para morar, amplo o bastante para receber minha família ou amigos. A vizinhança era muito boa e também não ficava longe do trabalho, eu uni o útil ao agradável e comprei o lugar sem pensar duas vezes, havia mais vantagens do que desvantagens.
Eu estava pegando outra caixa do lado de fora e a vizinha do lado estava saindo, parecia vestida para o trabalho e quando ela me viu eu acenei e sorri educadamente. Ela apenas acenou de volta e entrou dentro do carro e saiu dali acelerando como se estivesse correndo por sua vida. Talvez ela esteja atrasada para algo importante. Desde o momento que eu a vi, eu tive a impressão que eu a conheço de algum lugar, mas se eu a tivesse conhecido em algum lugar, com certeza me lembraria dela. A moça não é algo que eu esqueceria, na verdade, ela é muito bonita. O cabelo curto de um loiro platinado quase branco, os olhos de um azul insondável, quase gelado, mas profundo ao mesmo tempo. A boca bonita, a timidez que ela mostrou ontem quando eu bati na sua porta para pedir um pouco de açúcar. Fiquei muito intrigado com ela, e eu nem sei o seu nome, ela não me deixou perguntar, quando eu estava prestes a fazer isso ontem, ela voltou a bater a porta na minha cara. Eu não sei se ela fez aquilo por timidez ou por algum outro motivo, mas isso só me deixou mais intrigado, agora eu queria me aproximar, mas eu não via formas de fazer isso. Eu não usaria o clichê do açúcar outra vez, até porque ontem eu realmente não estava mentindo, eu precisava de açúcar e quando percebi que estava sem, eu não vi outra alternativa a não ser pedir um pouco e isso também serviria para conhecer um de meus vizinhos, então eu escolhi a casa dela apenas porque era a mais próxima da minha. Eu estava tão cansado que não queria sair apenas para comprar açúcar e eu quase pensei que voltaria pra casa de mãos vazias quando ela bateu a porta na minha cara pela primeira vez, eu saí dali pensando seriamente se ela não era louca ou coisa do tipo, a moça me assustou quando gritou e bateu a porta sem motivo algum, eu até olhei atrás de mim só para conferir que não tinha nenhum assassino com uma faca atrás de mim ou coisa do tipo.
Acho que vi muitos filmes de terror nos últimos tempos.
O fato é que eu quero conhecê-la.
Balanço a cabeça para dissipar os meus pensamentos errantes e foco a minha atenção em carregar para dentro o que falta ser levado. Mesmo com a insistência dos homens que estão trazendo minha mudança de que eu não preciso ajudar, eu me vejo na obrigação de fazer algo. Eu simplesmente não consigo ficar parado enquanto outras pessoas trabalham, é mais forte que eu.
Dou uma olhada no meu relógio e me lembro que a primeira consulta do dia é daqui a duas horas, tempo mais que suficiente para que tudo seja entregue. Volto ao trabalho e depois tomo um banho mais que merecido e vou trabalhar, à noite, depois de fechar o consultório, saio para beber um pouco e quando estou no bar, uma moça que se parece muito com aquela rainha de copas aparece do meu lado e pede uma bebida.
– Ei, você é aquela moça que estava fantasiada de rainha de copas no halloween? – pergunto quase interessado demais.
Se for mesmo ela, essa será uma grande sorte. Eu tenho pensado nela e se a veria novamente.
– Oh, não. Aquela era a minha irmã. – sorri e toma um gole da bebida dela.
– Que pena, eu gostaria de vê-la outra vez. – digo.
– Você a perdeu por apenas alguns minutos. – responde.
Que azar.
– Sério? – pergunto sem acreditar.
– Sim. Eu só não sei se ela ia querer te ver. Não me leve a m*l, mas ela está mortificada até os ossos depois que vomitou em cima de você. – explica.
Gargalho ao me lembrar do semblante bêbado e desesperado quando percebeu o que fez.
– Isso é passado. Mas eu gostaria de ter uma conversa com ela quando ela estiver sóbria, tenho certeza que pode ser uma experiência interessante. – sorrio.
A moça balança a cabeça sorrindo também e toma mais um gole da sua bebida e depois suspira cansada. O dedo alisando as bordas do copo do que parece ser bourbon.
– Problemas? – pergunto.
– Meu namorado é um i****a, apenas isso. – balança a mão desmerecendo o assunto.
– Olha só, eu saí de um longo relacionamento a alguns meses e eu vou te dizer uma coisa independentemente da sua situação com o namorado. Se você sente que não faz sentido continuar, então o melhor é conversar com ele e acabar agora, quanto mais tempo você adiar, mais vai machucar ou ser machucada. – aconselho.
Eu não estou tentando fazer com que ela termine com o namorado, eu nem a conheço, mas na minha experiência, eu sei que quanto mais se adia esse momento, pior é.
Quanto mais se espera, mais a gente machuca e mais vai ser machucado. Eu digo por experiência própria. Eu namorei Taylor por dois anos e nos últimos meses do nosso relacionamento, nos tratamos como estranhos hostis, ou vizinhos que não se gostavam. Eu gostava muito dela, mas não sabia mais como chegar até ela depois da parede que ela colocou entre nós. Nosso relacionamento se arrastou por meses desse jeito e eu falava para mim mesmo que isso era só uma fase e que ia passar e voltaríamos a ser como era, e eu esperava todos os dias para ver aquele sorriso outra vez, mas ele nunca veio. O que veio foi a indiferença, depois a traição e por fim, o término. Eu fiquei devastado quando descobri e foi quando eu finalmente entendi que ela apenas não sabia como me falar que não sentia mais nada por mim e que já gostava de outra pessoa. Então eu juntei os pedaços do meu coração, engoli o sentimento de devastação e agi como um adulto deixando ela ir embora, ser feliz com outra pessoa. Eu deixei o apartamento e me mudei para um lugar onde eu não corresse o risco de sequer vê-la. Ainda doía mesmo depois de meses, e eu usava o trabalho e o lazer para desviar meus pensamentos, mas é impossível esquecer, por enquanto.
– Acho que você está certo. – responde e se levanta.
Balanço a cabeça quando ela acena e vai embora.
Espero que ela tome a decisão certa pelo bem dos dois. E que não repita o mesmo erro que eu.
Boa sorte, moça.