Existem sentimentos que devemos ignorar por completo e não permitir que ele se aposse de nós quando ele ressurge. É assim que me sinto em relação ao Lee desde o nosso encontro na Star Editorial. Todos os tipos de sentimentos tomaram conta de mim, mas o pior deles foi a raiva que sentir quando o choque inicial passou. Eu o amava e ele me abandonou para casar com uma coreana rica e dona de uma beleza exuberante, diferente de mim, uma mulher sem berço, classe, dinheiro e beleza. Os pais dele foram tão cruéis que eu literalmente, deixei de me permitir amar outra pessoa de novo. Eu me tornei o tipo de ser humano que usa os outros e depois descarta, sem piedade. Pelo menos faço isso quando se trata de homens, pois eles são a pior espécie. Contudo, Lee Soo Ho foi muito baixo ao usar o meu sonho e o livro que escrevi para ele, para lucrar. Ainda não entendo o porque ele voltou e o que quer de mim, sendo que, pelas minhas contas, ele está muito bem casado e provavelmente já é pai. Porque voltar para um país emergente e se tornar CEO de uma editora quase falida? Se ao menos eu tivesse uma resposta para essa pergunta.
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Eu não fiz brigadeiro com uma caixa de leite condensado e sim, duas. Eu tenho direito há três horas de lixo e a melhor forma de passar essas horas antes de ir para um dos meus muitos trabalhos freelances. Precisava me afogar em brigadeiro e Dorama depois de ter tido uma manhã muito difícil.
Primeiro, o escritor que eu mais admiro é um babaca arrogante, segundo, o aparecimento de Lee. Como ele pode ter a pachorra de aparecer na minha frente? Usar o meu sonho? Depois de tudo o que me fez passar! Depois de ter mandado seus pais me dispensar com uma quantia de dinheiro. Como ele pôde ser tão c***l reaparecendo assim? Como ele pôde ser tão insensível?
Enfiei uma colher cheia de massa de brigadeiro na boca e zapeei pelo streaming em busca de um Dorama. No fim, acabei escolhendo “Tudo bem não ser normal”, talvez eu consiga aprender a ser um pouco mais como a Mun-Yeong. Importando-se apenas com o seu querer, com o seu bem estar...
“ A galinha pintadinha e o g**o carijó...”
Um grupo de crianças esbarrou em mim, quase me fazendo derrubar a bandeja com salgados que havia acabado de abastecer. Não pude bem xinga-las mentalmente pois elas estão sendo o que devem ser, crianças. Ah, bons tempos, a infância para a maioria das crianças é a melhor fase da vida, depois que ela passa, só ladeira abaixo.
— Você está distante hoje — Marcos comentou, provavelmente presenciou o quase desastre com as crianças.
— É, estou — mentir não iria me deixar mais esperta.
As minhas três horas de lixo foram o suficiente para me acalmar e repensar em tudo o que aconteceu naquela manhã.
E o meu trabalho de hoje, com tantas crianças correndo e brincando felizes me fez ver que eu... Devo ser mais feliz, passei os últimos sete anos, por mais que tenha dito para todos que estava bem, eu não estava e não estou, Lee Soo Ho foi o homem da minha vida, meu primeiro amor e por mais que eu tenha tentado esquecer o que ele fez comigo, eu não pude. Mas posso deixar para trás.
Com essa convicção, ergui a cabeça e Comecei a andar pelo salão, segurando firme a bandeja com salgados, como se fosse uma rainha. Eu estava me sentindo a mulher, decidida a não permitir que o passado interferisse nos meus sonhos e...
“Ploft”
Só sentir minha cara afundar na bandeja de salgados. Eu tropecei em algo, talvez alguém, não sei, estou ocupada demais tentando segurar o choro e criar coragem para me levantar e encarar os convidados e as crianças que estão rindo de mim e da minha buzanfa voltado para eles.
— Por Deus, Clarisse, se recomponha rápido. A criança que te derrubou já até voltou a correr com os outros pestinhas. — Ângelo, meu supervisor veio ao meu socorro, na verdade, chamar minha atenção porque ainda estou com a cara nos salgadinhos.
Ainda bem que é uma festa infantil e não corro o risco de cruzar com o Lee e ele me ver nesta situação, seria humilhação demais. Muita humilhação.
— Ela está bem?
Puta que pariu, c****e! Quando o d***o não vem manda o secretário, que merda!
— Ela tem nome e está sim, não que importe. — Finalmente reagir, irritada por minha humilhação ter sido presenciada pelo homem que mais admirava mas que se provou um verdadeiro babaca.
— p**a merda, então é você? — Guto Splinder disse ao me reconhecer. — Recusou assinar com a Star por isso? — Perguntou, me olhando da cabeça aos pés com total desdém.
— Pergunte ao seu chefe o motivo da minha recusa, agora se o senhor me der licença, eu tenho que voltar ao meu trabalho que apesar de não ser perfeito, é digno e não estou aqui por mero capricho de ninguém. — Irritada, me abaixo e pego a bandeja com os salgados amassados, com a certeza que tem queijo, presente e qualquer recheio que havia nos salgados, agora na minha cara. O ódio neste momento é grande, mas infelizmente, não posso dar com essa bandeja na cara do senhor arrogante. Tudo o que posso fazer é pegar o que resta da minha dignidade, limpar a sujeira que fiz com a minha queda e voltar a trabalhar, porque enquanto Lee estiver na Star editorial, meu sonho de publicar com a editora está suspenso, então, o que me resta é tentar outras editoras e continuar escrevendo meus livros e trabalhando arduamente como freelancer e deixar, Lee So Ho no passado, de onde não deveria ter saído e dos meus pensamentos, hora homicidas, ora sentimentais, para sempre e nunca mais sequer, pensar naquele i****a.