Amélia
A minha cabeça faltava explodir, eu odiava não ter uma boa noite de sono. Já estávamos na empresa e o meu pai a cada cinco minutos vinha ver se eu estava melhor, eu quase não falei nada como ele, e o mesmo acha que é por conta da gravidez da Valentina, mas não tem nada a ver com isso.
O meu celular vibra e aparece uma mensagem de um número estranho, mas só pelo jeito de escrever, eu tinha certeza de quem era.
- Já está melhor? – Escuto a voz da Luana, olho para a mesma que mascava um chiclete e olhava-me com a cara de poucos amigos.
- Estou sim. – Dou um sorrisinho, a última coisa que eu queria era fazer intriga.
- Então vamos começar a trabalhar, temos bastante coisas para fazer hoje. – Guardo o celular no bolso sem responder à mensagem. – Eu não fazia ideia que você era filha do senhor Juliano, a gente aqui sempre soube que ele tinha uma filha, mas eu acho que você nunca apareceu por aqui. – Isso era verdade, eu vinha muito aqui quando era pequena, mas todas as vezes com a minha mãe, e depois que ela morreu, uma parte de mim não se sentia bem na empresa.
- Será que seria diferente o seu comportamento comigo se soubesse? – Ando ao lado dela.
- Estou aqui para te ensinar, o seu pai pediu por isso.
- Mas você trata todos assim? – Ela para de andar e me encara.
- Eu não sou sua amiga, e nem quero ser. Então não ficarei lambendo você apenas por ser filha do meu chefe.
- Ok. – Reviro os olhos, a mulher era grossa, mas estava fazendo o serviço dela, mesmo que passando um pouco dos limites.
A manhã passou voando e eu já estava querendo ir para casa. Na mesinha que colocaram ao lado da sala do senhor Apollo, estava completamente cheia de papéis, e eu precisava organiza-los. Tenho uma impressão um pouco r**m desse senhor, mesmo não conhecendo ele ainda, posso dizer que ele não é organizado, mesmo parecendo ser muito exigente.
- Vamos almoçar, depois do almoço você termina isso. – Olho para cima e vejo meu pai.
- Não sei se vou conseguir terminar tudo isso hoje, faz quanto tempo que ele está sem uma secretaria? – Me levanto e a gente caminha para o elevador.
- Não tem uma semana que a moça que trabalhava aqui se demitiu. – Arregalo os olhos. – Negócios filha, todo dia um pepino diferente. – Mesmo eu não entendendo muita coisa, a Luana tem me ajudado muito, mesmo com toda aquela arrogância, ela sabia o que estava fazendo.
- Vamos almoçar onde? – Eu sabia que tinha uma lanchonete aqui na empresa, mas acredito que meu pai não iria comer lá.
- Tem um restaurante aqui perto.
[...]
Estava comendo enquanto meu pai falava ao telefone, ele parecia nervoso com alguma coisa, tomo um gole de suco e ele desliga e me encara.
- O que foi?
- Parece que a Valentina passou m*l. – Ele respira fundo. – Vou ter que ir para casa.
- Gravidez não é doença. – Falo baixo e ele balança a cabeça negando.
- Gostaria que agora você começasse a tratar ela melhor Amélia, ela está esperando sua irmã ou irmão. – Era impossível não revirar os olhos.
- Irei fazer por você e pela criança, mas se ela encher meu saco ou vier de graça querendo controlar a minha vida, vou pegar as minhas coisas e sair daquela casa.
- Já conversei com ela, pode ficar tranquila, cada uma ficará no seu canto.
- Quer que eu vá com você?
- Não precisa, você tem que terminar aquelas papeladas. – Concordo, ele vai pagar a conta e me deixa na empresa antes de ir para casa.
Pego meu celular e vejo que tem mais algumas mensagens do Miguel e uma ligação, franzo a testa e olho a conversa, ele perguntava onde eu estava e o que estava fazendo que não podia nem responder. Estava começando a achar que ele era um pouco abusivo, e eu não gosto disso, então não respondo nada de novo e subo para o andar que eu trabalhava.
Olho na tela do celular e marcava quase oito da noite, mas graças a Deus eu tinha terminado tudo, agora só faltava deixar na sala do meu chefe. Abro a porta e coloco tudo sobre a mesa, eu não sabia se alguém ia mandar para ele, ou se ele vinha alguma vez na empresa pegar, mas meu serviço já estava pronto, agora era só ir para casa.
Já estava na rua atrás de um uber, mas tem horas que é tão difícil de achar, então a partir de amanhã eu iria vim com o meu carro. Meu celular começa a vibrar, então pego do bolso e vejo que era o Miguel.
- Alô. – Falo ao atender, posso escutar a respiração dele atrás da linha.
- Por que não me respondeu? – Foi a única coisa que ele falou.
- Boa noite Senhor Miguel, tudo bem? Como foi seu dia? – Falo com ironia.
- Boa noite Amélia. – Olho para a rua e vejo o carro de aplicativo. – Por que não me respondeu o dia todo?
- Estava trabalhando Miguel, alguém aqui trabalha. – Entro no carro, e dou boa noite para a mulher, eu me sentia mais confortável quando era alguma mulher, ainda mais de noite.
- Não sabia que você trabalhava. – Dou uma risada.
- Viu só? Você não conhece nada sobre mim, e ainda por cima quer vim botando banca? Não te devo nenhuma satisfação querido. – Acho que a canseira me faz falar coisas.
- Eu quero te conhecer melhor.
- Você é casado, isso é loucura. – Desligo a ligação e respiro fundo.
- Fez certo. – A moça fala. – Homem casado é bucha.
- Mas ele é uma perdição sabe? – Bufo frustrada, eu só caia em furada.
- Mas é casado, e parece que ainda quer te cobrar alguma coisa. – Isso era verdade.
- Ele é marrento, tem um jeito autoritário, mas eu gosto disso. – A moça me olha pelo retrovisor. – Não faz essa cara, minha amiga também acha loucura, mas para mim o homem tem que ser assim.
- Tem que tomar cuidado com homens assim, muitas vezes ele vai usar isso por que você gosta, mas no fim só está te controlando. – Fico em silencio, algumas vezes o conselho vem de quem a gente menos espera.