m*l toquei no meu almoço, simplesmente não conseguia. Lê me perturbou: “tem que comer pelo bebê”.... “tem que tomar mais água no seu estado”... “não fique nervosa assim, não faz bem para o bebê”. Era bebê para cá bebê para lá e eu já não dava mais conta.
– A essa hora o resultado já deve ter saído né.
– Sim, mas como o Guto quem vai pegar o resultado só confirmarei pela noite.
– Ai amiga, como você é bobinha, vamos ligar para aquela minha amiga que trabalha no laboratório e solicitar uma cópia por e-mail, assim você já vai preparada.
– Isso não é trapacear?
– Não mesmo minha cara isso é antecipar – disse prestando mais atenção no celular do que em mim – pronto já mandei uma mensagem para ela agora é só aguardar.
Vinte minutos mais tarde…
– Chegou o e-mail Ali – disse saindo de sua cadeira e me dando espaço para sentar – Sente e abra o resultado.
– Eu não consigo, só não consigo. Abra pra mim por favor.
– Vamos lá – ela tornou a se sentar e abriu o arquivo – ok vamos lá.... Ai meu Deus, viu eu nunca erro parabéns amiga você vai ser mamãe.
A minha reação? Fiquei estática! Sabe quando você desconfia de algo porém não quer acreditar? Era exatamente assim que eu estava.
– Amiga senta e respira vou buscar uma água pra você – ela sai do meu campo de visão e retorna segundos depois – pronto beba tudo está com açúcar.
E foi neste momento em que eu comecei a chorar e tremer. Bebi toda a água e honestamente não tinha ideia do que fazer nem mesmo depois que eu me levantasse da cadeira. Um filho não estava nos meus planos agora, um filho nunca esteve nos meus planos. Nunca fui aquela garotinha que sonhava em casar e ser dona de casa. Meu sonho, quando criança, era rodar o mundo com uma mochila nas costas.
– Pelo amor de Deus amiga você está pálida, não vai desmaiar né? Fala alguma coisa por favor.
– Eu.... nunca me imaginei mãe, não faço ideia do que fazer. Não sei cuidar nem de mim mesma quem dirá de uma criança.
– Eu sei amiga, mas faça o seguinte: um dia por vez, ok? Converse com o Guto hoje a noite e conte o quanto antes aos seus pais. Eu estou aqui para o que precisar , pode contar comigo sempre. Tem umas coisas do Miguel que não uso mais vou arrumar tudo e pedir para o Guto pegar em casa.
– Obrigada pelo apoio amiga, sei que posso contar com você.
O resto do dia passou voando, é claro que fiz qualquer coisa menos trabalhar. Como sempre Lê me deu cobertura. Nem prestei atenção no caminho para casa, foi tudo no automático: cheguei, cumprimentei os meus pais, não tomei o café como sempre fazia, subi para o meu quarto e fiquei sentada na minha cama, sem pensar em nada, sei lá eu quanto tempo. Criei coragem e fui para o banho deixando a água fria cair sobre a minha cabeça.
– Pensei que não sairia nunca do chuveiro, estava a ponto de entrar lá para ver se estava tudo bem. – Guto me assustou quando saí do banheiro e dei de cara com ele sentado na minha cama.
– Não me assuste mais assim por favor – disse, ajeitando a toalha em torno do meu corpo – e aí pegou o resultado?
– Está aqui – disse me mostrando o envelope – senta aqui, vamos abrir juntos – me sentei e ele abriu o envelope e na hora ficou cor-de-rosa, mesmo se eu não soubesse o resultado, naquele momento eu saberia. – Positivo!
Eu fiquei em silêncio, não queria que ele descobrisse que eu já sabia o resultado e também queria dar um tempo a ele, só não fui capaz de segurar as lágrimas que rolaram rosto afora.
Ele tirou de dentro de seu casaco um lenço e deu para eu enxugar minhas lágrimas. Aceitei de bom grado e enquanto me limpava tentava me consolar. Estranhei muito pois, em outras ocasiões ele me abraçaria e diria que tudo ficaria bem.
– Você sabe que estou namorando, não sabe? – foi a única coisa que ele me disse.
– Não sabia, porém isso não é relevante certo? Desde que surgiu a possibilidade eu pensei em fazer tudo sozinha, nem mesmo contaria a você, fui obrigada pela Lê a fazer isso. Podemos esperar pelo DNA para poder contar a todo mundo.
– Não faz isso Ali, eu sei que não mentiria para mim. Olha, vamos contar. Você tem que começar o pré-natal e está até atrasada para isso. Vou para casa agora, tenho que contar aos meus pais e para a minha namorada, Deus sabe como ela vai reagir.
– Vocês estão juntos a quanto tempo?
– Três meses e eu a amo muito, estou com medo de ela me deixar.
– Ei olha pra mim – disse segurando o seu queixo e levantando seus olhos na altura dos meus – Se ela te amar ela vai entender que foi antes de vocês ficarem e se for madura vai ficar numa boa com isso, sei que vai ser difícil mas o amor tudo supera. Agora vai, tenho que contar aos meus pais.
– Você é quem está grávida e eu que deveria estar te consolando.
– Não precisa, eu estou bem e vou ficar bem. Pode ir.
E sem dizer mais nada ele se levantou e foi. Não teve um abraço, não teve o de sempre beijo na testa. E foi exatamente nesta hora em que percebi que eu estava sozinha nessa. Tudo bem que eu, em momento algum desejei e esperei um pedido de casamento nem nada do tipo, eu só achava que ele não me deixaria tanto na mão. Afinal somos amigos não é?
– Filha, está tudo bem? Vi o Guto saindo apressado e com uma cara não muito boa! – minha mãe entrou no quarto e me encontrou do mesmo jeito em que Guto havia me deixado: Estática e ainda de toalha.
– Olha mãe é complicado… eu prefiro não falar sobre isso agora.
– Está chorando? Porque Alice aconteceu alguma coisa entre vocês? E porque está de toalha minha filha? Já sei, enfim vocês enxergaram o amor que sentem um pelo outro e ficaram juntos? – Olhei para minha mãe com os olhos arregalados – Já sei, o negocinho dele era pequeno, por isso está decepcionada? – disse rindo.
– Mãe você sabe mesmo como constranger alguém. Sei que nunca te contei nada mas aposto que a senhora sabe que a gente ficava esporadicamente. Ah… olha nem sei como dizer … é que … mãe estou grávida.
– Grávida? Santo Deus. É de Guto? – assenti – Oh minha filha pelo menos ele é uma boa pessoa, conhecido, não vai te deixar sozinha nessa. Sabe que seu pai vai surtar não é?
– Surtar com o que Gina? – meu pai entrou no quarto e fez deste momento ainda mais constrangedor.
– Senta Sérgio. - meu pai o fez sem pestanejar – bom você vai ser avô.