Capítulo 4

1986 Words
Alice ficou em silêncio, tentando processar tudo o que Hanjun havia revelado. A história de Hades parecia cada vez mais distante da realidade que ela conhecia. Uma alma perturbada, alimentando-se de sangue e desespero, com poderes além da compreensão humana. Porém, mais que isso, ele estava solto, depois de séculos preso, e provavelmente, com fome. Uma fome insaciável. Ela sentiu uma onda de preocupação crescente. Se Hades estava livre, se ele estava à solta na cidade e nos arredores, o que ele faria para saciar essa fome? Ela sabia que não podia esperar para encontrar respostas. Precisava agir. Sem perder tempo, Alice se dirigiu à floresta. O lugar onde ela o havia visto antes estava quieto, como se o próprio ambiente aguardasse o que estava por vir. Ela caminhou entre as árvores, seus olhos procurando qualquer sinal de movimento, qualquer pista de onde Hades poderia estar. O vento cortava as folhas, fazendo com que a atmosfera ficasse ainda mais densa e misteriosa. Mas ele não estava lá. Horas se passaram, e ela começou a perder a esperança. Talvez ele já tivesse seguido para outro lugar, talvez ele tivesse se escondido em algum canto remoto da floresta. Alice não sabia mais o que pensar. Desanimada, ela retornou à cidade, seu corpo cansado e os pensamentos ainda agitados. Quando chegou ao centro da cidade, o que viu fez seu coração disparar. No meio da rua movimentada, entre as pessoas, ela o viu. Hades. Ele estava lá, parado, quase imóvel, como uma sombra entre os outros. Seu olhar, aquele olhar penetrante, parecia ignorar todo o caos ao seu redor, como se estivesse distante de tudo. Alice sentiu uma onda de empatia e apreensão ao vê-lo ali, entre tantos. Mas, para a surpresa de Alice, não demorou muito para que as pessoas começassem a perceber sua presença. Um grupo de jovens se aproximou dele, rindo e apontando. Alguns pareciam curiosos, outros mais atrevidos. Eles comentavam sobre sua roupa simples e desleixada, rindo de sua aparência. Um deles, um homem mais alto, tentou encostar em Hades, tocando em seu ombro com uma risada desdenhosa. — Ei, cara, sua fantasia é bem pobrezinha, hein? — um dos jovens zombou. — Achou que estava indo para uma festa de Halloween ou algo assim? Hades deu um passo para trás, recuando de maneira quase instintiva. Seu olhar se tornou mais intenso, mais sombrio. Ele não parecia saber como reagir àquela situação, mas a tensão ao seu redor era palpável. As pessoas começaram a se aproximar mais, algumas rindo, outras tentando tirar uma foto com ele, Pois apesar de estar deslexadamente vestido tinha um rosto muito Bonito. Mas Hades não se movia. Ele estava cada vez mais preso ao momento, mais desconectado do mundo ao seu redor. Alice, vendo a situação, não pensou duas vezes. Ela correu até o grupo, colocando-se entre Hades e as pessoas. Seu coração estava acelerado, mas ela sabia que precisava agir rapidamente. — Ei, pessoal, deixem ele em paz! — Alice disse, com a voz firme, tentando afastar os curiosos. — Ele... ele é apenas um cara muito recluso, ok? Não gosta de interagir muito com as pessoas. O grupo a olhou, alguns com expressão confusa, outros com um pouco de relutância. Mas a desculpa de Alice parecia suficiente para que se afastassem, ainda murmurando entre si. Alice respirou aliviada quando o grupo finalmente se afastou, deixando Hades em paz. Ela se virou para ele, seu olhar agora mais suave, mas ainda cheio de curiosidade e preocupação. — Você está bem? — perguntou Alice, com a voz mais baixa, sem querer incomodá-lo. — Não deveria estar aqui... As pessoas não sabem o que você é, e você... você precisa se esconder. Hades olhou para ela, os olhos quase vermelhos brilhando de uma forma que fez Alice estremecer. Ele não respondeu imediatamente, mas sua expressão foi algo entre a raiva e a confusão. — Não pertenço a esse lugar — ele murmurou, sua voz rouca. — Eu não entendo... Eu não sei o que aconteceu. Tudo o que eu conheço é dor... dor e fome. Não sei o que fazer com isso. Alice sentiu um aperto no peito. Ela não sabia se estava mais assustada ou mais compassiva. Hades estava perdido, não apenas fisicamente, mas em algo muito mais profundo. Ele não era o monstro que ela imaginava, mas sim uma criatura em busca de algo que ele mesmo não conseguia entender. — Você... você precisa de ajuda — Alice disse, hesitando. — Não sei como, mas eu vou tentar te ajudar. Não posso deixar que você sofra dessa maneira. Hades a olhou por um momento, um olhar tão vazio e profundo que Alice quase sentiu medo. Mas então, algo em seu olhar mudou. Era como se ele estivesse finalmente vendo alguém, alguém que não o julgava. — Você não entende... — ele começou, mas foi interrompido por um som distante, uma voz conhecida que chamava Alice. Era Hanjun, que se aproximava rapidamente, seu rosto sério. — Alice, não! — ele gritou, ao vê-la perto de Hades. — Não se envolva com ele! Você não sabe o que está fazendo! Alice olhou para Hanjun, e depois para Hades. O que ela deveria fazer? Ela já estava tão envolvida nesse mistério, em tudo o que rodeava aquele ser perturbado e poderoso. Mas ela não podia simplesmente deixar ele em sofrimento. Algo dentro dela dizia que não estava errada em querer ajudá-lo. — Eu preciso ir — Alice disse, olhando para Hanjun, mas ainda sem tirar os olhos de Hades. — Mas vou voltar. E, Hades... não me faça mudar de ideia. Ela se afastou rapidamente, sentindo que havia dado um passo importante em direção a algo maior. Mas ao mesmo tempo, uma sensação de medo a invadiu, sabendo que aquilo poderia ser o começo de algo que nem ela conseguiria controlar. Alice encontrou Hades novamente nas ruas, ele parece ter fugido novamente, pegou na sua mão e o guiou pelas ruas da cidade com cuidado, o coração pesado com a decisão que tomara. Ela sabia que ele não estava em condições de cuidar de si mesmo, e que, ao levá-lo até a casa de Hanjun, talvez fosse a única chance de dar-lhe algum tipo de apoio. Hades caminhava ao seu lado, ainda desorientado, como se estivesse mais perdido no tempo e no espaço do que no próprio mundo físico. Seus olhos, quase vermelhos, percorriam cada detalhe com uma curiosidade inquietante, como se tudo ao seu redor fosse completamente novo para ele. Quando chegaram à casa de Hanjun, Alice não precisou dizer uma palavra. Hanjun estava esperando, e assim que os viu, fez um gesto para que entrassem. Ele sabia o que Alice queria, e sabia que havia pouco tempo para fazer o que fosse necessário. — Vai ficar aqui — disse Hanjun, conduzindo Hades até um quarto no andar de cima. — Eu não sei quanto tempo vai demorar para ele se ajustar, mas pelo menos aqui ele estará seguro, por enquanto. Hades entrou, com o olhar vagando pela casa, observando tudo com um ar de estranheza. Hanjun pegou uma caixa de sangue de animal armazenado, já preparado para ajudar Hades a controlar sua fome, mas Hades hesitou, os olhos fixos no recipiente com uma mistura de repulsa e confusão. — O que é isso? — Hades perguntou, a voz ainda rouca e cheia de desconfiança. — Vai te ajudar — respondeu Hanjun, com um tom sério. — Não se preocupe com isso. Beba, e vai se sentir melhor. Hades olhou para o sangue com aversão, mas a fome em seu interior era muito mais forte. Hesitando por um momento, ele pegou o recipiente, mas parecia não entender como aquilo funcionava. Ele não sabia se deveria beber diretamente do recipiente ou se havia alguma outra forma, algo mais... natural. O ato de se alimentar parecia tão distante de sua essência, tão alienígena para ele, já fazia tanto tempo que não comia que nem se lembrava mais como fazê-lo. Alice observava a cena em silêncio, seu coração apertado. Hades, ali, naquele quarto, cercado por coisas que não compreendia, era um reflexo da dor que ele carregava. Ele estava perdido, e o pior de tudo não sabia como encontrar o seu próprio caminho. Enquanto ele se alimentava, Alice desceu para o andar de baixo da casa, onde Hanjun estava mexendo em seu computador. A casa de Hanjun era simples, mas bem decorada, com uma mistura de modernidade e sofisticação. Alice olhou ao redor, curiosa, tentando entender mais sobre o homem que havia se tornado sua única esperança de entender o que realmente acontecia com Hades. Ela se aproximou de Hanjun, que estava sentado à mesa, os olhos fixos na tela do computador. — Hanjun, você nunca me contou muito sobre sua vida... — Alice começou, tentando puxar conversa enquanto ele parecia absorvido no trabalho. — Eu sei que você me ajudou, mas... quem é você realmente? Hanjun levantou os olhos e olhou para ela com um sorriso suave, mas uma sombra de mistério ainda pairava sobre seu rosto. Ele desligou o computador, como se tivesse decidido que a conversa era mais importante naquele momento. — Bem, o que você quer saber? — ele perguntou, cruzando os braços. Havia algo tranquilo em sua postura, como se estivesse habituado a manter sua vida privada longe dos outros. Alice hesitou por um momento. Ela não queria parecer invasiva, mas a curiosidade sobre a vida de Hanjun estava crescendo. — Eu... eu sabia que você morava aqui. E... bem, eu não sabia que você trabalhava com computação, mas... nunca perguntei muito sobre isso. Hanjun deu um leve sorriso. — Eu trabalho em home office — começou ele. — Eu sou o dono de uma empresa de computação, mas a maioria das pessoas lá não sabe disso. Acontece que, há anos, decidi ficar nos bastidores. Eu só vou até a empresa quando é realmente necessário. No restante do tempo, fico em casa, trabalhando no meu ritmo e também preciso cuidar do Hades. Alice ficou surpresa. Ela não sabia que Hanjun era o dono de uma empresa de computação. Até onde ela sabia, ele parecia ser apenas um homem comum, com uma vida simples, mas aquela revelação a fez questionar o que mais ele poderia estar escondendo. — Então você... é o chefe de tudo aquilo? — Alice perguntou, incrédula. Hanjun deu de ombros, com uma expressão despreocupada. — Sim. Mas não me importo de ficar nas sombras. Prefiro trabalhar de forma discreta, e ninguém precisa saber disso. A empresa funciona bem, e eu posso manter tudo sob controle sem precisar me expor muito. Alice ficou pensativa. Ela não sabia se aquilo a deixava mais confortável ou mais intrigada. Hanjun era, sem dúvida, uma pessoa de muitos segredos. — E quanto a você? — Hanjun perguntou, mudando de assunto. — O que você vai fazer agora? Alice olhou para ele, sentindo o peso da pergunta. Ela sabia que precisava continuar sua busca por respostas, mas também sabia que estava ficando cada vez mais envolvida nesse mundo de segredos e mistérios. — Eu não sei ainda — respondeu ela, pensativa. — Mas preciso descobrir mais sobre Hades, entender quem ele é e como posso ajudá-lo. Eu não posso deixá-lo assim. Hanjun observou Alice por um momento, seu olhar carregado de alguma emoção que ela não conseguiu decifrar. — Cuidado, Alice — disse ele, com um tom grave. — Hades pode ser mais perigoso do que você imagina. Ele não é apenas uma criatura que precisa de ajuda. Ele é algo muito mais sombrio, e você pode acabar se perdendo nesse jogo. Alice não sabia o que responder. Ela olhou para a porta do quarto onde Hades estava e sentiu uma onda de determinação. — Eu não vou desistir dele — disse, com firmeza. — Eu não posso. Hanjun a observou por mais um instante e, finalmente, balançou a cabeça em concordância.
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