A notícia da bolsa tinha se espalhado mais rápido do que Laura imaginava.
Não oficialmente.
Mas escola pequena não guarda segredo.
Os olhares tinham mudado. Alguns admirados. Outros atravessados. e um, em especial, carregado de decepção.
Raiana.
Ela estava encostada no muro do pátio, braços cruzados, quando Laura se aproximou.
— Você nem me contou. — foi a primeira coisa que disse.
Laura respirou fundo.
— Eu ia contar. Só aconteceu tudo muito rápido.
— Rápido? Ou conveniente?
A palavra ficou no ar, pesada.
— O que você quer dizer com isso?
Raiana riu sem humor.
— Quero dizer que você mudou, Laura. mudou de escola, mudou de amizade, mudou de mundo, e nem percebeu.
Aquilo atingiu mais fundo do que Laura queria admitir.
— Eu não mudei.
— Mudou sim. Você fala diferente. Anda diferente. Só anda com gente que chega de carro com motorista agora.
Laura sentiu o rosto esquentar.
— Eu continuo sendo a mesma.
— Não continua. Você está deslumbrada.
Silêncio.
Deslumbrada.
Era isso que estavam vendo nela?
Laura engoliu seco.
— Eu só estou aproveitando uma oportunidade.
— Oportunidade ou fuga?
A pergunta foi c***l.
— Você acha que eu estou me vendendo?
— Eu acho que você está se entregando pra um mundo que não é o seu.
Laura deu um passo atrás.
— E quem disse que não é?
Raiana ficou em silêncio por um segundo. Depois, os olhos dela suavizaram.
— Eu só não quero perder você.
Aquilo quebrou a tensão.
Laura suspirou.
— Você não vai me perder.
— Já estou perdendo.
As duas ficaram se encarando até que Laura deu o primeiro passo e abraçou a amiga.
— Eu continuo aqui. Só estou crescendo.
Raiana respirou contra o ombro dela.
— Então prova.
— Como?
— Vai comigo numa festa hoje, como antes, sem helicóptero, sem motorista, sem esse mundo perfeito.
Laura hesitou.
Era perigoso.
Mas talvez ela precisasse provar, para Raiana e para si mesma, que ainda sabia de onde vinha.
— Eu vou.
A festa era em uma casa afastada, som alto, luzes piscando, gente demais.
Nada de vestidos caros, nada de sobrenomes importantes.
Só jovens querendo esquecer alguma coisa.
Laura tentou se sentir confortável, tentou rir das mesmas piadas, mas havia algo diferente.
Ela estava diferente.
Um copo apareceu na mão dela. Depois outro.
— Relaxa — Raiana disse. — Você está tensa.
Talvez estivesse mesmo.
Em algum momento, um garoto começou a conversar com ela, ela não lembrava o nome, lembrava do sorriso fácil.
Alguém encostou mais per, música mais alta, corpo mais leve.
Leve demais.
O chão pareceu inclinar.
— Raia… — ela tentou chamar.
A visão ficou turva.
Não era só bebida.
O coração começou a bater estranho.
Ela puxou o celular com dedos trêmulos. a tela parecia distante.
Sem pensar muito, abriu a conversa que estava fixada no topo.
Henrique.
Mandou a localização.
Apenas isso.
Depois tudo ficou confuso.
— Ei, você está bem?
Uma voz diferente.
Firme, Calma.
Laura piscou, tentando focar, um rosto que ela não reconhecia direito se aproximou.
— Você está pálida.
— Eu… não me sinto bem.
O rapaz segurou os ombros dela com cuidado.
— Você bebeu muito?
Ela balançou a cabeça.
— Eu acho que… colocaram alguma coisa…
Os olhos dele mudaram na hora.
— Quem te deu bebida?
Ela tentou lembrar, não conseguiu.
— Vem comigo.
Ele a afastou da multidão, pegou água, fez ela sentar.
— Ei é o Guilherme, lembra de mim ? — disse, enquanto mantinha a voz baixa e estável. — Eu estou aqui. Fica tranquila.
Ela tentou sorrir, mas o mundo girava.
Guilherme segurava a mão dela com firmeza, impedindo que ela desmaiasse.
— Eu mandei… localização… — ela murmurou.
— Pra quem?
Mas antes que ela respondesse, a porta foi aberta com força.
Henrique.
Os olhos dele varreram o ambiente até encontrá-la.
E quando encontrou.
A expressão mudou.
Não era só preocupação.
Era fúria.
Ele atravessou o espaço em poucos passos.
— O que aconteceu?
Guilherme levantou o olhar, ainda segurando Laura.
— Ela não está bem, acho que drogaram ela.
Henrique ficou imóvel por um segundo.
Depois olhou para Laura.
— Quem fez isso?
Ela tentou falar, não conseguiu.
O maxilar dele travou.
Sem pedir explicação, ele a pegou no colo.
— Ei — Guilherme disse. — Eu estava ajudando.
Henrique o encarou.
— Obrigado, agora eu resolvo.
O clima ficou pesado.
Não era rivalidade declarada.
Era instinto.
Henrique segurava Laura como se o mundo inteiro fosse ameaça.
Guilherme não recuou totalmente.
— Ela precisa de hospital.
— Eu sei.
— Então leva agora.
Por um segundo, os dois se mediram.
Laura tentou abrir os olhos.
— Henrique…
Ele olhou para ela imediatamente.
— Estou aqui.
Guilherme soltou devagar a mão dela.
E naquele gesto silencioso, algo começou.
Mas Laura não viu.
Henrique saiu da casa com ela nos braços, ignorando olhares, ignorando perguntas.
Colocou-a no carro e fechou a porta com força.
Só quando entrou no banco do motorista percebeu que estava tremendo.
Não de medo.
De raiva.
De culpa.
De ciúmes.
Ele viu a mão de outro homem segurando a dela.
E odiou o quanto aquilo doeu.
Enquanto o carro cortava a estrada, Laura encostou a cabeça no banco.
— Eu não fiz nada… — murmurou.
Henrique apertou o volante.
— Eu sei.
Mas o que o corroía não era o que ela fez.
Era o que quase aconteceu.
E o que ele sentiu quando a viu com outro.
No banco de trás da própria consciência, uma verdade começou a se formar:
Ele não estava apenas apaixonado.
Ele estava com medo de perder.
E pela primeira vez, Henrique percebeu que talvez o mundo não girasse mais em torno dele.
Talvez estivesse girando em torno dela.
E alguém mais tinha começado a entrar nessa órbita.