Laura ficou alguns minutos parada dentro do carro antes de descer.
A casa parecia menor do que lembrava.
Ou talvez fosse o peso dos últimos meses que tivesse crescido demais.
Ela respirou fundo.
Não estava ali como Laura Sarkozy.
Nem como manchete.
Estava ali como filha.
Sônia abriu a porta antes mesmo que ela tocasse a campainha.
Os olhos das duas se encontraram.
Silêncio.
— Você demorou — Sônia disse, tentando soar leve.
— Eu precisava organizar o que estava aqui dentro — Laura respondeu, tocando o próprio peito.
A mãe abriu espaço.
— Entra.
A casa carregava cheiro de café recém-passado e lembranças antigas. Fotografias ainda ocupavam a estante, mas agora Marcelo não parecia apenas uma memória distante — parecia uma presença viva no meio de tudo aquilo.
Laura caminhou até a sala devagar.
— Eu fiquei com raiva de você — ela começou, sem rodeios.
Sônia assentiu.
— Eu sei.
— Eu me senti traída.
— Eu sei.
Laura respirou fundo.
— Mas eu também sei que você estava sozinha.
O silêncio entre elas não era mais hostil.
Era honesto.
Sônia sentou no sofá.
— Eu tinha medo, Laura. Medo de que, se você soubesse, fosse querer lutar. E eu não queria que você carregasse o mesmo alvo que seu pai carregou.
Laura sentou ao lado dela.
— Você deveria ter confiado que eu saberia escolher.
Sônia engoliu seco.
— Talvez eu tenha tentado congelar o tempo. Fingir que, se eu não tocasse no assunto, ele não nos tocaria.
Laura olhou ao redor.
— Ele sempre tocou.
A mãe segurou a mão dela.
— Eu nunca menti para te machucar.
— Eu sei.
Pela primeira vez em semanas, Laura sentiu a mágoa perder força.
— Eu estava com tanta dor que precisava culpar alguém.
Os olhos de Sônia marejaram.
— Eu também.
Elas se abraçaram.
Um abraço diferente dos anteriores.
Sem segredos.
Sem silêncio.
Sem medo.
Ou pelo menos era o que parecia.
O barulho da porta da frente se abrindo ecoou pela casa.
As duas se afastaram.
Sônia franziu o cenho.
— Eu tranquei a porta.
Passos.
Firmes.
Pesados.
Laura levantou devagar.
E então ele apareceu na entrada da sala.
Senador Villar não parecia o homem elegante das campanhas.
A barba estava por fazer.
Os olhos, fundos.
Mas a postura ainda carregava arrogância.
E na mão direita…
Uma arma.
Sônia ficou de pé imediatamente, posicionando-se levemente à frente da filha.
— Você perdeu completamente a noção? — ela disse, a voz baixa mas firme.
Villar sorriu de lado.
— Eu perdi muita coisa ultimamente.
Laura sentiu o corpo gelar, mas não recuou.
— Você está foragido.
— Palavras da imprensa — ele respondeu com desprezo.
Ele avançou alguns passos.
— Vocês acham que podem destruir uma vida inteira e sair ilesas?
— Você destruiu a nossa primeiro — Laura rebateu.
Os olhos dele pousaram nela.
— Você deveria ter ficado em silêncio.
— Como você queria que meu pai ficasse?
A tensão estalava no ar.
Villar levantou a arma.
Apontou primeiro para Laura.
Sônia entrou na frente.
— Não ouse.
Ele inclinou a cabeça.
— Sempre tão dramática.
De repente, ele segurou Sônia pelo braço e puxou-a para perto, pressionando o cano da arma contra a lateral da cabeça dela.
Laura sentiu o mundo desaparecer.
— Solta ela! — gritou.
— Você não entende, garota — Villar murmurou. — Isso nunca foi sobre dinheiro, foi sobre controle.
O coração de Laura batia tão forte que doía.
— Se você atirar, não sai daqui vivo.
Ele riu.
— Eu já estou morto politicamente.
A pressão da arma contra a cabeça de Sônia aumentou.
— Eu devia ter terminado isso anos atrás.
O som foi quase imperceptível.
Um estalo seco.
Antes que Laura processasse, dois homens surgiram pela porta lateral da casa.
Movimento rápido.
Preciso.
Treinado.
A arma foi desviada com um golpe firme no pulso de Villar.
O disparo ecoou no teto.
Gesso caiu no chão.
Sônia foi puxada para trás enquanto um dos seguranças imobilizava o senador no chão.
O outro recolheu a arma.
Tudo aconteceu em menos de cinco segundos.
Laura não conseguia respirar.
Sônia estava trêmula, mas viva.
Villar lutava sob o peso do segurança.
— Vocês não fazem ideia com quem estão mexendo! — ele gritava.
O homem pressionou-o contra o piso.
— Fim da linha, senador.
Do lado de fora, sirenes começaram a se aproximar.
Laura abraçou a mãe com força.
As mãos tremiam.
— Eu achei que… — a voz falhou.
Sônia segurou o rosto dela.
— Eu estou aqui.
O segurança se aproximou, comunicador no ouvido.
— A polícia está a dois minutos.
Laura fechou os olhos por um instante.
Eduardo.
Ele havia prometido.
Proteção não como controle.
Mas como presença invisível.
Quando as viaturas chegaram, Villar já estava algemado.
Ele passou por Laura com o olhar carregado de ódio.
— Isso não acaba aqui.
Ela sustentou o olhar.
— Acabou no momento em que você entrou armado na minha casa.
Ele foi colocado dentro da viatura.
As luzes vermelhas e azuis refletiam nas paredes da sala.
Vizinhos espiavam pelas janelas.
Laura ajudou a mãe a sentar.
— Você está machucada?
Sônia balançou a cabeça.
— Só… cansada.
Laura riu nervosamente.
— Ele quase…
— Mas não conseguiu.
Silêncio.
A porta se abriu novamente.
Henrique entrou primeiro, seguido de Eduardo.
O olhar de Henrique encontrou o dela imediatamente.
Ele atravessou a sala e a puxou para um abraço apertado.
— Eu cheguei o mais rápido que pude.
— Você sempre chega — ela sussurrou.
Eduardo aproximou-se de Sônia.
— Sinto muito que isso tenha acontecido dentro da sua casa.
Sônia o encarou.
— Se não fosse por sua segurança…
Ele assentiu levemente.
— Ele não vai sair dessa tão cedo.
Laura olhou para Villar sendo levado.
Algemas nos pulsos.
Cabeça baixa.
Sem câmeras.
Sem discurso.
Apenas um homem derrotado.
Ela respirou fundo.
Não sentiu vingança.
Sentiu fim.
Henrique segurou a mão dela.
— Está tudo bem agora.
Laura olhou para a mãe.
Para os seguranças.
Para Eduardo.
Para a marca do tiro no teto.
— Agora sim.
Ela virou-se para a mãe novamente.
— A gente não vai mais viver com medo.
Sônia segurou a mão da filha.
— Nunca mais.
Do lado de fora, as sirenes se afastavam.
E pela primeira vez desde a morte de Marcelo, o perigo não estava escondido nas sombras.
Estava algemado.