Altura, Velocidade e Pertencimento

1082 Words
O barulho das hélices já não assustava Laura. Agora acelerava. Tereza segurava a taça de espumante enquanto o helicóptero subia, as luzes da cidade ficando pequenas abaixo delas. — Você acostuma rápido, sabia? — Tereza comentou. Laura olhava pela janela, o reflexo do próprio rosto misturado com o céu escuro. — Eu aprendo rápido. E era verdade. A menina que antes se sentia deslocada agora se movia com naturalidade. O vestido preto justo marcava suas curvas com elegância, o cabelo loiro caindo solto pelas costas, maquiagem na medida certa. Não havia exagero. Havia confiança. A boate ficava no topo de um prédio alto, com heliponto exclusivo. Quando pousaram, a música já vibrava pelo chão antes mesmo de entrarem. Lá dentro, tudo era luz baixa, gente bonita e bebida cara circulando como água. Laura caminhava ao lado de Tereza como se aquele fosse seu cenário habitual. E, talvez, estivesse se tornando. — Você mudou — Tereza disse, entregando-lhe um copo. — Mudei? — Você não está mais olhando ao redor como se estivesse invadindo. Laura deu um gole. — Porque não estou. Ela não precisava fingir. Não precisava provar. Ela simplesmente estava. Horas depois, o celular vibrou. Henrique. “Estou chegando.” O coração dela deu aquele salto irritante que ela fingia não sentir. Ele não demorou. Quando entrou pela porta principal da área VIP, alguns cumprimentos surgiram naturalmente ao redor dele. Era o território dele. Mas quando os olhos encontraram os dela, o resto perdeu importância. Ele se aproximou devagar. — Veio de helicóptero de novo? — perguntou, observando o vestido. — Problema? Ele sorriu de lado. — Nenhum. Henrique não a cumprimentou com beijo. Não tocou nela imediatamente. Mas os olhos diziam tudo. — Vamos sair daqui — ele disse. Tereza levantou a sobrancelha. — Já? — Tenho outro lugar pra mostrar. Laura terminou a bebida. — Então mostra. O carro não seguiu para casa. Foi em direção contrária à cidade iluminada. Mais escuro. Mais afastado. O som dos motores começou antes que ela visse qualquer coisa. Quando chegaram, Laura reconheceu o ambiente. As corridas. Mas dessa vez não era o racha improvisado. Era algo mais organizado. Mais estruturado. Caminhonetes caras. Motos alinhadas. Pessoas que falavam alto, mas com respeito. Henrique desceu primeiro. Ali, ele mudava. Não ficava arrogante. Ficava… seguro. Cumprimentou alguns caras com abraços firmes. Apresentou Laura com um simples: — Ela está comigo. Sem posse. Mas com significado. Os olhares vieram. Curiosos. Avaliando. Laura não desviou. Um dos pilotos comentou: — Então é você. Ela arqueou a sobrancelha. — Eu o quê? Henrique respondeu antes. — Nada que te interesse. Ela gostava disso. Mas não precisava que falassem por ela. Caminhou até a moto dele. Preta. Potente. Linda. Passou a mão pelo tanque como se reconhecesse uma velha amiga. — Você confia em mim? — perguntou, olhando para Henrique. Ele franziu levemente a testa. — Para quê? — Para pilotar. Alguns dos homens riram. Não por deboche. Por surpresa. Henrique a encarou por alguns segundos. Avaliando. Ele sabia que ela era impulsiva. Sabia que ela gostava de provocar. Mas também sabia que ela não era irresponsável. — Você já pilotou alguma vez? — Você esquece que eu aprendo rápido. O silêncio ao redor ficou atento. Henrique respirou fundo. Pegou o capacete. E entregou para ela. — Não me faz me arrepender. Laura colocou o capacete com calma, ajustando a fivela sob o queixo. Subiu na moto com naturalidade — sem hesitação, sem pedir ajuda. Ligou o motor. O ronco grave vibrou sob ela. E algo mudou no olhar de Henrique. Não era só desejo. Era admiração. Ela acelerou de leve, testando o peso, sentindo a resposta da máquina. Depois olhou para ele. E arrancou. Não em disparada descontrolada. Mas firme. Confiante. Deu a volta pelo trecho delimitado, inclinando o corpo nas curvas com precisão surpreendente. Os homens observavam em silêncio agora. Sem risos. Quando ela retornou, parou a moto exatamente onde havia saído. Desligou o motor. Tirou o capacete devagar. O cabelo loiro caiu bagunçado pelos ombros. O sorriso no rosto não era de provocação. Era de conquista. Henrique se aproximou. — Onde você aprendeu isso? — Observando. Ele balançou a cabeça, incrédulo. — Você é maluca. — E você gosta. Ele não respondeu. Mas o jeito que a olhava denunciava. Ali, no meio do “mundinho” dele, Laura não era enfeite. Não era acompanhante. Era presença. Um dos pilotos se aproximou. — Se ela quiser correr um dia desses, me chama. Henrique lançou um olhar que dispensava comentários. — Vai com calma — ele disse baixo, só para ela. — Eu estou com calma. Ele se aproximou mais, diminuindo a distância entre os dois. — Você não faz ideia do que fez agora. — Pilotei sua moto. — Não. A voz dele baixou ainda mais. — Você me fez ter orgulho. O coração dela falhou um segundo. Orgulho. Não posse. Não ciúme. Orgulho. Laura cruzou os braços, tentando manter o equilíbrio interno. — Eu não preciso que você me admire. — Eu sei. Ele segurou o queixo dela de leve, erguendo o rosto. — Mas eu admiro mesmo assim. O som de outra moto arrancando ecoou ao fundo. A noite seguia. As bebidas continuavam circulando. Mas algo tinha mudado. Henrique estava diferente. Mais contido. Mais atento. Como se estivesse percebendo que ela não era apenas intensidade e provocação. Era coragem. Era inteligência. Era ambição silenciosa. Mais tarde, sentados no capô do carro, Laura observava os homens conversando sobre motores, apostas e velocidade. Ela já entendia metade das conversas. Já sabia os nomes. Já sabia os códigos. Estava se encaixando. Não por esforço. Mas por escolha. Henrique ofereceu uma garrafa para ela. — Você não tem medo? — De quê? — De se envolver demais. Ela pensou por um segundo. — Você tem? Ele a encarou. — Só quando envolve você. Ela sorriu, desviando o olhar para as motos alinhadas sob a luz amarelada. — Eu não estou tentando ser parte do seu mundo. — Não? — Eu só estou vendo se ele é grande o suficiente para mim também. Henrique soltou um riso baixo. — Ele é. O vento da estrada bagunçava o cabelo dela novamente. Laura sentia algo diferente agora. Não era mais invasão. Não era mais teste. Era construção. Ela estava aprendendo a circular no luxo sem se perder. Aprendendo a acelerar sem perder o controle. E Henrique… estava se apaixonando. Devagar. Em silêncio. E, pela primeira vez, sem saber exatamente como esconder isso.
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