Laura nunca tinha se sentido tão dividida.
Não era como as brigas com Raiana.
Não era como as provocações de Gabriela.
Não era nem como o medo daquela noite na festa.
Era diferente.
Era silencioso.
Era interno.
Ela estava sentada na varanda de casa quando a mãe se aproximou, a noite estava fresca, e Laura abraçava as próprias pernas, olhando para o nada.
— Brigaram? — a mãe perguntou com aquela calma que só as mães têm.
Laura soltou um meio sorriso triste.
— Dá pra ver?
— Dá pra sentir.
Ela fez um gesto para que a mãe sentasse ao lado, e quando sentiu o calor familiar do ombro encostando no dela, a coragem veio junto.
— Ele acha que eu vou com ele.
— Para os Estados Unidos?
Laura assentiu.
— Ele não disse como exigência… mas ele já tinha isso na cabeça, como se fosse natural eu encaixar minha vida na dele.
A mãe ficou em silêncio por alguns segundos.
— E você?
— Eu nunca quis sair do Brasil, eu tenho planos aqui, mãe, eu quero prestar federal,, quero construir minha carreira aqui, não é só sobre ele.
A mãe olhou para ela com orgulho.
— Eu sei que não é.
Laura respirou fundo.
— Mas eu amo ele.
A voz falhou na última palavra.
— Amar alguém não anula quem você é — a mãe disse, firme, mas suave.
Laura fechou os olhos.
— E se isso significar perder ele?
A mãe virou o rosto para encará-la.
— Você quer que eu te diga para largar tudo e ir?
Laura balançou a cabeça.
— Não.
— Quer que eu diga para terminar antes que doa mais?
— Também não.
A mãe segurou a mão dela.
— Então talvez você não precise de uma resposta extrema.
Laura franziu a testa.
— O que eu faço, então?
A mãe olhou para o céu escuro.
— Quantos meses faltam para ele ir?
— Uns sete.
— Sete meses é tempo suficiente para muita coisa mudar.
Laura ficou em silêncio.
— Filha… vocês estão tentando resolver hoje um problema que só existe daqui a sete meses.
Aquilo fez Laura piscar.
— Mas a gente precisa saber o que vai acontecer.
— Precisa? Ou quer controlar o que ainda nem aconteceu?
Laura nunca tinha pensado assim.
— O futuro assusta — a mãe continuou. — Principalmente quando envolve distância, mas você não vive no futuro, você vive hoje.
Laura engoliu em seco.
— E se a gente só estiver adiando o inevitável?
A mãe apertou a mão dela.
— E se vocês estiverem amadurecendo juntos até lá?
Silêncio.
— Você não precisa decidir sua vida inteira por causa de um amor adolescente — a mãe disse com carinho. — Mas também não precisa fugir de algo bonito por medo do que pode acontecer.
Laura sentiu os olhos marejarem.
— Eu não quero me anular.
— E não vai. Porque você sabe quem você é.
— E se ele não entender?
A mãe sorriu de leve.
— Então ele vai aprender.
Laura encostou a cabeça no ombro dela.
— Ele disse que amor era suficiente.
A mãe soltou um suspiro pequeno.
— Amor é suficiente para começar, não é suficiente para controlar o tempo.
Elas ficaram alguns segundos em silêncio, apenas ouvindo os sons da rua ao longe.
— Qual é a saída então? — Laura perguntou.
A mãe respondeu com a serenidade de quem já viveu o bastante para saber:
— Viver o agora.
Laura levantou o rosto.
— Só isso?
— Só isso já é muito.
— Mas e o depois?
— O depois você resolve quando virar presente.
Laura deixou as palavras assentarem dentro dela.
Era simples.
E justamente por isso parecia tão difícil.
— Você acha que eu estou sendo egoísta?
— Não. Acho que você está crescendo.
Laura soltou uma risada fraca.
— Dói.
— Crescer quase sempre dói.
A mãe passou a mão no cabelo dela.
— Você ama ele?
— Muito.
— Ele te respeita?
Laura pensou.
— Sim.
— Então conversem. Sem promessas eternas. Sem contratos invisíveis. Só verdade.
Laura respirou fundo.
— Eu tenho medo de ele ir embora e perceber que não precisa mais de mim.
A mãe sorriu com ternura.
— Quem ama não precisa, ,escolhe.
Aquilo tocou fundo.
— E se ele escolher ir… e não me escolher?
— Então você vai sofrer, vai chorar, vai se reconstruir, e vai continuar brilhando.
Laura deixou uma lágrima cair.
— Você fala como se fosse simples.
— Não é simples, mas é possível.
O vento passou leve pela varanda.
— Sabe qual é o erro de vocês dois? — a mãe perguntou.
— Qual?
— Vocês estão tratando o futuro como ameaça. Quando ele também pode ser oportunidade.
Laura franziu a testa.
— Oportunidade de quê?
— De provar que o que vocês têm é forte o bastante. Ou de entender que cada um precisa seguir seu caminho. Mas isso não se decide agora.
Laura respirou mais leve pela primeira vez desde a briga.
— Então eu não preciso prometer que vou.
— Não.
— E ele não precisa prometer que fica.
— Exatamente.
Laura fechou os olhos.
Era como se alguém tivesse tirado um peso invisível do peito dela.
— Só vivam — a mãe completou. — Com responsabilidade. Com verdade. Mas sem antecipar despedidas.
Laura se virou e abraçou a mãe com força.
— Obrigada.
— Para isso que eu sirvo.
Elas riram baixinho.
Depois de alguns minutos, Laura pegou o celular.
Ficou olhando para o nome dele na tela.
O coração acelerou.
— Vai mandar mensagem? — a mãe perguntou.
— Vou.
— O que vai dizer?
Laura pensou.
Não queria discutir.
Não queria cobrar.
Não queria pressionar.
Queria respirar junto.
Ela digitou:
"A gente não precisa decidir o resto da vida hoje. Eu só quero viver o que a gente tem agora. Sem promessas que assustam. Só verdade."
Ficou olhando antes de enviar.
Então apertou.
Alguns minutos depois, o celular vibrou.
"Eu estava esperando você dizer isso. Eu não quero perder você por algo que ainda nem chegou. Vamos viver. E quando o futuro virar presente… a gente enfrenta juntos."
Laura sentiu um sorriso surgir devagar.
Não era solução definitiva.
Não era garantia.
Mas era paz temporária.
E talvez fosse isso que eles precisassem.
Não um final.
Não um plano perfeito.
Só tempo.
Ela olhou para a mãe, que observava de longe com aquele olhar tranquilo.
— Ele respondeu?
Laura assentiu, sorrindo.
— Vamos viver o agora.
A mãe levantou.
— Então viva.
E naquela noite, Laura entendeu uma coisa importante:
Amor não é sobre prender o outro ao próprio caminho.
Nem sobre abandonar o próprio caminho por amor.
É sobre caminhar lado a lado… enquanto o tempo permite.
O futuro ainda era incerto.
Mas o presente estava ali.
E, por enquanto, isso era suficiente.