O que fica quando o futuro assusta

1148 Words
Laura nunca tinha se sentido tão dividida. Não era como as brigas com Raiana. Não era como as provocações de Gabriela. Não era nem como o medo daquela noite na festa. Era diferente. Era silencioso. Era interno. Ela estava sentada na varanda de casa quando a mãe se aproximou, a noite estava fresca, e Laura abraçava as próprias pernas, olhando para o nada. — Brigaram? — a mãe perguntou com aquela calma que só as mães têm. Laura soltou um meio sorriso triste. — Dá pra ver? — Dá pra sentir. Ela fez um gesto para que a mãe sentasse ao lado, e quando sentiu o calor familiar do ombro encostando no dela, a coragem veio junto. — Ele acha que eu vou com ele. — Para os Estados Unidos? Laura assentiu. — Ele não disse como exigência… mas ele já tinha isso na cabeça, como se fosse natural eu encaixar minha vida na dele. A mãe ficou em silêncio por alguns segundos. — E você? — Eu nunca quis sair do Brasil, eu tenho planos aqui, mãe, eu quero prestar federal,, quero construir minha carreira aqui, não é só sobre ele. A mãe olhou para ela com orgulho. — Eu sei que não é. Laura respirou fundo. — Mas eu amo ele. A voz falhou na última palavra. — Amar alguém não anula quem você é — a mãe disse, firme, mas suave. Laura fechou os olhos. — E se isso significar perder ele? A mãe virou o rosto para encará-la. — Você quer que eu te diga para largar tudo e ir? Laura balançou a cabeça. — Não. — Quer que eu diga para terminar antes que doa mais? — Também não. A mãe segurou a mão dela. — Então talvez você não precise de uma resposta extrema. Laura franziu a testa. — O que eu faço, então? A mãe olhou para o céu escuro. — Quantos meses faltam para ele ir? — Uns sete. — Sete meses é tempo suficiente para muita coisa mudar. Laura ficou em silêncio. — Filha… vocês estão tentando resolver hoje um problema que só existe daqui a sete meses. Aquilo fez Laura piscar. — Mas a gente precisa saber o que vai acontecer. — Precisa? Ou quer controlar o que ainda nem aconteceu? Laura nunca tinha pensado assim. — O futuro assusta — a mãe continuou. — Principalmente quando envolve distância, mas você não vive no futuro, você vive hoje. Laura engoliu em seco. — E se a gente só estiver adiando o inevitável? A mãe apertou a mão dela. — E se vocês estiverem amadurecendo juntos até lá? Silêncio. — Você não precisa decidir sua vida inteira por causa de um amor adolescente — a mãe disse com carinho. — Mas também não precisa fugir de algo bonito por medo do que pode acontecer. Laura sentiu os olhos marejarem. — Eu não quero me anular. — E não vai. Porque você sabe quem você é. — E se ele não entender? A mãe sorriu de leve. — Então ele vai aprender. Laura encostou a cabeça no ombro dela. — Ele disse que amor era suficiente. A mãe soltou um suspiro pequeno. — Amor é suficiente para começar, não é suficiente para controlar o tempo. Elas ficaram alguns segundos em silêncio, apenas ouvindo os sons da rua ao longe. — Qual é a saída então? — Laura perguntou. A mãe respondeu com a serenidade de quem já viveu o bastante para saber: — Viver o agora. Laura levantou o rosto. — Só isso? — Só isso já é muito. — Mas e o depois? — O depois você resolve quando virar presente. Laura deixou as palavras assentarem dentro dela. Era simples. E justamente por isso parecia tão difícil. — Você acha que eu estou sendo egoísta? — Não. Acho que você está crescendo. Laura soltou uma risada fraca. — Dói. — Crescer quase sempre dói. A mãe passou a mão no cabelo dela. — Você ama ele? — Muito. — Ele te respeita? Laura pensou. — Sim. — Então conversem. Sem promessas eternas. Sem contratos invisíveis. Só verdade. Laura respirou fundo. — Eu tenho medo de ele ir embora e perceber que não precisa mais de mim. A mãe sorriu com ternura. — Quem ama não precisa, ,escolhe. Aquilo tocou fundo. — E se ele escolher ir… e não me escolher? — Então você vai sofrer, vai chorar, vai se reconstruir, e vai continuar brilhando. Laura deixou uma lágrima cair. — Você fala como se fosse simples. — Não é simples, mas é possível. O vento passou leve pela varanda. — Sabe qual é o erro de vocês dois? — a mãe perguntou. — Qual? — Vocês estão tratando o futuro como ameaça. Quando ele também pode ser oportunidade. Laura franziu a testa. — Oportunidade de quê? — De provar que o que vocês têm é forte o bastante. Ou de entender que cada um precisa seguir seu caminho. Mas isso não se decide agora. Laura respirou mais leve pela primeira vez desde a briga. — Então eu não preciso prometer que vou. — Não. — E ele não precisa prometer que fica. — Exatamente. Laura fechou os olhos. Era como se alguém tivesse tirado um peso invisível do peito dela. — Só vivam — a mãe completou. — Com responsabilidade. Com verdade. Mas sem antecipar despedidas. Laura se virou e abraçou a mãe com força. — Obrigada. — Para isso que eu sirvo. Elas riram baixinho. Depois de alguns minutos, Laura pegou o celular. Ficou olhando para o nome dele na tela. O coração acelerou. — Vai mandar mensagem? — a mãe perguntou. — Vou. — O que vai dizer? Laura pensou. Não queria discutir. Não queria cobrar. Não queria pressionar. Queria respirar junto. Ela digitou: "A gente não precisa decidir o resto da vida hoje. Eu só quero viver o que a gente tem agora. Sem promessas que assustam. Só verdade." Ficou olhando antes de enviar. Então apertou. Alguns minutos depois, o celular vibrou. "Eu estava esperando você dizer isso. Eu não quero perder você por algo que ainda nem chegou. Vamos viver. E quando o futuro virar presente… a gente enfrenta juntos." Laura sentiu um sorriso surgir devagar. Não era solução definitiva. Não era garantia. Mas era paz temporária. E talvez fosse isso que eles precisassem. Não um final. Não um plano perfeito. Só tempo. Ela olhou para a mãe, que observava de longe com aquele olhar tranquilo. — Ele respondeu? Laura assentiu, sorrindo. — Vamos viver o agora. A mãe levantou. — Então viva. E naquela noite, Laura entendeu uma coisa importante: Amor não é sobre prender o outro ao próprio caminho. Nem sobre abandonar o próprio caminho por amor. É sobre caminhar lado a lado… enquanto o tempo permite. O futuro ainda era incerto. Mas o presente estava ali. E, por enquanto, isso era suficiente.
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