Quando o Céu abre espaço

1333 Words
O barulho do helicóptero era diferente do das motos. Não tinha urgência. Tinha poder. Laura observava da varanda da casa de campo enquanto as hélices giravam, levantando folhas secas e fazendo o vestido leve dela dançar contra as pernas. A casa ficava num terreno vasto, cercado por mata e silêncio. Não havia vizinhos próximos. Não havia curiosos. Apenas espaço. Os pais de Tereza e Henrique entraram na aeronave como quem entra em um carro comum. Naturalidade treinada. — Voltamos antes do almoço — a mãe de Tereza avisou, sorrindo. — Claro — Henrique respondeu com uma calma quase insolente. Laura percebeu o olhar rápido que o pai dele lançou na direção dos três. Um olhar que dizia: eu confio em vocês. Ela não sabia se merecia estar dentro daquela confiança. O helicóptero subiu, o vento ficou mais forte por alguns segundos, e depois… silêncio. Tereza abriu um sorriso largo. — Finalmente. Henrique passou a mão pelos cabelos, já relaxado. — Quanto tempo até alguém começar a fazer besteira? Laura ergueu o queixo. — Depende do que você chama de besteira. Ele sorriu de lado. — Eu conheço você. Ela conhecia aquele tom. Metade provocação, metade aviso. Tereza já estava pegando o celular. — Vou chamar o pessoal. Laura virou. — Que pessoal? — Amigos — Tereza respondeu, digitando rápido. — A casa é grande demais pra três pessoas. Grande demais. Em menos de uma hora, carros começaram a surgir na estrada. Música alta ecoando antes mesmo de os portões automáticos abrirem. Laura sentiu a adrenalina subir — diferente da do racha. Aqui era uma liberdade elegante. Sem polícia improvisada na esquina. Sem perigo visível. Mas ainda assim… perigosa. Garotos bem vestidos. Meninas de salto fino mesmo na grama. Garrafas caras sendo abertas sem cerimônia. Henrique encostou na bancada externa da área da piscina, observando tudo como quem é dono do território. Laura pegou um copo. Depois outro. E outro. Ela já sabia beber. Já sabia fingir que estava bem. Mas ali, naquele cenário iluminado por luzes embutidas e caixas de som sofisticadas, parecia que o álcool descia diferente. Mais quente. Mais solto. Um garoto que ela nunca tinha visto se aproximou. Alto. Sorriso fácil. Camisa social dobrada até os cotovelos. — Você não é daqui. Ela arqueou a sobrancelha. — E você é? Ele riu. — Mais ou menos. Sou amigo do Gustavo. Nome irrelevante. — Laura. — Eu sei. Ela inclinou levemente a cabeça. — Ah é? — Henrique comentou. Interessante. — E o que ele comentou? O garoto aproximou o rosto um pouco mais. — Que você é problema. Laura sorriu. — Ele me adora. — Dá pra ver. A música mudou. Algo mais ritmado, mais dançante. O garoto estendeu a mão. — Dança comigo. Laura olhou ao redor. Henrique conversava com dois amigos perto da churrasqueira. Mas o olhar dele não estava ali. Estava nela. Ela poderia dizer não. Mas não disse. Segurou a mão do garoto. E foi. A pista improvisada perto da piscina estava cheia. Luzes refletiam na água azul escura. Risadas, copos se chocando, corpos se movendo sem muita preocupação. Laura começou a dançar. Primeiro leve. Depois mais solta. O álcool ajudava. A música ajudava. O fato de estar sendo observada ajudava ainda mais. Ela não encostava demais. Não ultrapassava limites claros. Mas provocava. O garoto acompanhava o ritmo. Aproximava a mão da cintura dela, recuava, testava. Ela não parecia mais deslocada naquele mundo. Parecia pertencer. Henrique observava. O maxilar travado. Tereza se aproximou dele com um copo na mão. — Relaxa. — Eu estou relaxado. — Você está contando quantas vezes ele toca nela. Henrique não respondeu. Laura girou sob a mão do garoto, o cabelo caindo solto pelas costas. Riu de algo que ele disse. E aquilo foi suficiente. Henrique caminhou até a pista. Sem pressa. Sem gritar. Sem cena. Mas com aquele tipo de presença que abre espaço no meio da multidão. Parou atrás deles. Esperou a música terminar. Quando o garoto se inclinou para falar algo no ouvido dela, Henrique segurou o braço dele. Firme. Não agressivo. Ainda. — Ela dança comigo agora. O garoto levantou o olhar. — Acho que ela decide isso. Laura virou, sentindo a tensão antes mesmo de entender. Os olhos de Henrique estavam diferentes. Não era provocação. Era posse contida. — Eu estou me divertindo — ela disse. Henrique sustentou o olhar dela. — Eu também posso te divertir. O garoto soltou um riso curto. Erro. Henrique aproximou o rosto do dele. — Você quer repetir isso? Tereza já vinha em direção aos três. Laura sentiu algo estranho no peito. Não medo. Mas poder. Ela estava causando aquilo. — Henrique — ela disse, com voz firme — eu não sou sua. O silêncio que caiu ao redor foi pesado. Ele demorou dois segundos para responder. — Eu sei. Mas o tom dizia outra coisa. O garoto deu um passo atrás, avaliando a situação. — Não precisa virar novela — ele comentou, erguendo as mãos. — Só estava dançando. Henrique soltou o braço dele. — Então dança com outra. Laura cruzou os braços. — Você está ridículo. — E você está provocando. — Eu não devo nada pra você. A música recomeçou. Alta demais. O mundo ao redor voltou a girar. Mas o clima entre eles ficou suspenso. Tereza puxou Laura pelo braço. — Vamos beber. Laura deixou. Mas antes lançou um último olhar para Henrique. Ele não desviou. Na cozinha, Tereza encheu dois copos. — Ele gosta de você. — Ele gosta de controle. — Não. Ele gosta de você. Laura bebeu de uma vez. — Não começa. — Você também gosta dele. — Eu gosto de me divertir. Tereza inclinou a cabeça. — Então por que você ficou mexida quando ele segurou o braço do outro? Laura não respondeu. Porque tinha ficado. Não pela briga. Mas pelo jeito que ele olhou. Como se tivesse algo a perder. Ela voltou para a área da piscina. Henrique estava sozinho agora, apoiado na mureta, olhando a água. Laura se aproximou. — Vai me dar ordem agora? Ele soltou o ar lentamente. — Você sabe que não é isso. — Então o que é? Ele virou para ela. — Eu não gosto de ver você se jogando assim. — Eu não me joguei. — Você queria que eu visse. Ela não negou. Porque era verdade. — E se eu quisesse? Henrique se aproximou. A distância entre eles era mínima agora. — Então você conseguiu. O ar entre os dois parecia mais pesado do que o álcool. — Eu não sou troféu — ela repetiu. — Eu nunca te tratei como um. — Tratou agora. Ele passou a mão pelos cabelos, frustrado. — Eu não estou acostumado a dividir o que eu gosto. A frase saiu antes que ele pudesse medir. Silêncio. Laura sentiu o coração bater mais forte. Não era declaração. Mas era quase. — Eu não sou algo que você possui — ela disse, mais baixa. — Eu sei. — Então aprende. Henrique deu um passo para trás. Mas os olhos dele ainda queimavam. — Você quer me testar, Laura? Ela inclinou a cabeça. — Talvez. Ele riu sem humor. — Então cuidado. — Com o quê? — Eu também sei jogar. A música ficou mais alta. Alguém pulou na piscina. Garrafas continuavam circulando. Mas entre eles, o jogo tinha mudado. Não era mais só provocação. Era sentimento tentando nascer em território onde ambos fingiam não plantar nada. Laura se afastou primeiro. Pegou outro copo. Voltou para a pista. Mas dessa vez, não dançou com ninguém. E Henrique não tirou os olhos dela o resto da noite. Lá fora, o céu estava aberto, limpo, estrelado. O helicóptero só voltaria na manhã seguinte. E naquela casa isolada, entre luxo e liberdade, Laura começava a perceber que mexer com o ego de Henrique era mais fácil do que mexer com o próprio coração. E talvez, pela primeira vez, ela estivesse em perigo de um jeito que nenhuma corrida de moto poderia causar.
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