Luzes que cegam

1148 Words
A festa não parecia uma festa. Parecia um filme. Laura soube que aquela noite seria diferente assim que o carro parou em frente ao portão automático de uma casa que mais parecia um hotel. A fachada iluminada, os carros importados estacionados na rua, o som grave atravessando os muros altos. — Você tem certeza que a gente pode entrar? — Laura perguntou, tentando parecer despreocupada. Raiana não respondeu de imediato. Laura obsbservava, maravilhada, absorvendo tudo. Aquelas não eram as festas improvisadas em garagens abafadas. Ali havia segurança na porta. Lista no tablet. Pulseiras coloridas indicando acesso a áreas diferentes da casa. Um mundo que ela nunca tinha pisado. — Relaxa. Eles querem gente nova — disse um garoto encostado no capô de um carro preto brilhante. — A festa fica melhor assim. Ele usava camisa social aberta no peito e relógio caro demais para alguém da idade dele. Sorriu para Laura com familiaridade indevida. O portão abriu. E ela entrou como se sempre tivesse pertencido ali. A música vinha da área da piscina. Luzes neon refletiam na água azul elétrica. Garçons circulavam com bandejas de bebidas que Laura só tinha visto em fotos. Ninguém parecia se preocupar com idade. Ninguém parecia ter limites. E o mais impressionante: ninguém parecia ter medo. Laura sentiu algo diferente naquela noite. Não era rebeldia. Era ambição. Ela observava as meninas com vestidos curtos de marcas famosas, cabelos impecáveis, maquiagem perfeita. Não havia improviso ali. Havia dinheiro. Raiana já tinha desaparecido no meio da multidão, puxada por um grupo animado perto do DJ. Laura pegou uma taça da bandeja que passou ao lado. Não perguntou o que era. Deu um gole. Suave demais. Nada como as misturas improvisadas que ela escondia na garrafa térmica. — Você não é daqui. A voz veio ao lado, firme, sem timidez. Laura virou o rosto devagar. A menina que falava tinha postura ereta, olhar direto e uma segurança quase intimidante. Cabelos longos e lisos, brincos delicados, vestido preto minimalista que gritava elegância sem esforço. — Sou convidada — Laura respondeu, sustentando o olhar. A menina arqueou uma sobrancelha, divertida. — Todo mundo aqui é convidado. Mas nem todo mundo pertence. Silêncio. Era um teste. Laura sorriu de canto. — Pertencer é questão de adaptação. A menina estendeu a mão. — Tereza. Laura apertou. — Laura. E ali, sem que nenhuma das duas dissesse, um reconhecimento aconteceu. Tereza não falava alto. Não precisava. Enquanto caminhavam pela casa, ela apontava detalhes com naturalidade. — Aquele ali é filho de um deputado. — A outra é dona de metade das clínicas da cidade. — O DJ veio de São Paulo só pra essa festa. Laura ouvia tudo como quem aprende um mapa. — E você? — Laura perguntou. Tereza deu de ombros. — Meu pai tem algumas empresas. Algumas. Laura entendeu que “algumas” significava muitas. Elas subiram para o andar superior, onde a música chegava abafada. Um grupo menor conversava em uma sala com vista para a piscina. Ali o clima era diferente. Menos dança. Mais negociações veladas. Um garoto ofereceu algo pequeno em um envelope discreto. Tereza recusou com um gesto leve. Laura percebeu. Guardou a informação. — Primeira vez aqui? — Tereza perguntou, encostando no parapeito da varanda. — Primeira de muitas — Laura respondeu, antes mesmo de pensar. Tereza sorriu de lado. — Gosto disso. A noite avançava e Laura se movia como se tivesse ensaiado aquilo a vida inteira. Ria na medida certa. Bebia sem perder o equilíbrio. Respondia provocações com inteligência. Um dos garotos ricos, Henrique, se aproximou demais. — Você é diferente das meninas daqui. — Diferente como? — Não parece impressionada. Ela inclinou a cabeça. — E por que eu ficaria? Ele riu, surpreso. Ali estava o segredo: Laura não se mostrava deslumbrada. Mesmo estando. Por dentro, ela sentia o chão mudar. A percepção de que existia um mundo onde regras eram flexíveis demais para quem tinha dinheiro suficiente. E ela queria entender como funcionava. Tereza reapareceu ao lado dela com duas taças novas. — Cuidado com ele — murmurou baixo. — Ele gosta de colecionar histórias. — Eu não sou coleção de ninguém. Tereza analisou o rosto dela por alguns segundos. — Não. Você não é. Havia algo ali. Admiração? Curiosidade? Ou identificação? Mais tarde, perto da piscina, alguém sugeriu um desafio bobo envolvendo pular na água vestida. Risadas altas. Celulares filmando. Laura olhou para Tereza. — Você faria? Tereza segurou o copo. — Eu nunca faço o que esperam. Laura tirou os sapatos. E pulou. A água gelada bateu no corpo como um choque elétrico. O vestido colou na pele. Gritos e aplausos ecoaram ao redor. Ela emergiu rindo. Sem medo. Sem pensar na mãe. Sem pensar na escola. Sem pensar em consequências. Apenas vivendo o instante como se o mundo fosse inquebrável. Quando saiu da piscina, Tereza a esperava com uma toalha. — Agora você pertence — disse, calma. Mas Laura sabia que não era sobre a piscina. Era sobre atitude. Mais tarde, já sentadas no gramado afastado da música alta, Tereza perguntou: — Você sempre foi assim? Laura ficou alguns segundos em silêncio. Não. Ela não sempre foi assim. Mas responder isso significaria abrir uma porta que ela mantinha trancada. — Sempre soube que podia ser — respondeu. Tereza pareceu satisfeita. — Gosto de você, Laura. Você não tem medo. Laura olhou para a casa iluminada, para as pessoas rindo alto demais, para o luxo espalhado sem culpa. Não era que ela não tinha medo. Era que estava cansada de sentir. — Medo é desperdício de tempo — disse, quase convencendo a si mesma. Tereza levantou. — Então vem. Ainda não te mostrei a melhor parte da casa. No caminho de volta para casa, já de madrugada, Laura encostou a cabeça no vidro do carro por aplicativo. O vestido ainda úmido, o cabelo com cheiro de cloro e perfume caro misturados. O celular vibrava com novas solicitações de amizade. Convites. Mensagens. Henrique: “Você some assim?” Tereza: “Me chama quando acordar.” Raiana dormia ao lado, exausta. Laura estava acordada demais. Ela não sentia culpa. Não sentia arrependimento. Sentia expansão. Como se tivesse descoberto um atalho para uma versão mais poderosa de si mesma. Mas, em algum lugar muito fundo — tão fundo que ela fingia não ouvir — havia uma pergunta pequena: Até onde isso vai? O carro parou na esquina de sempre. Ela desceu em silêncio, caminhando devagar até em casa. A luz da cozinha estava apagada. A mãe dormia. O mundo antigo ainda estava ali. Seguro. Simples. Confiável. Laura parou na porta do próprio quarto antes de entrar. Olhou para o reflexo no espelho do corredor. Olhos mais escuros. Postura mais firme. Sorriso mais perigoso. Ela não era mais apenas a menina que aprendia a não ser pega. Agora ela estava aprendendo a jogar. E Tereza tinha acabado de entrar na partida.
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