O peso do sobrenome

1369 Words
No Japão, eram quase três da manhã quando Eduardo Gates fechou o notebook. A vista de Tóquio brilhava do outro lado da parede de vidro da cobertura onde estava hospedado, luzes organizadas, impecáveis, obedientes. Exatamente como ele gostava que o mundo funcionasse. Mas seu filho não parecia tão… organizado. — Você tem certeza? — perguntou Helena, mãe de Henrique, apoiada na bancada, ainda de roupão. Eduardo girou o notebook em sua direção, a tela exibia um dossiê detalhado. No topo: Laura Almeida. 17 anos. — Eu pedi um levantamento completo — disse ele, calmo, estratégico. — Histórico escolar, rede social, círculo de amizades, família, tudo. Helena se aproximou, apreensiva. — E? Eduardo suspirou. — Nada. — Nada? — Nada comprometedor, nada duvidoso,nada que desabone. Helena franziu a testa. Ele começou a listar, quase irritado com a perfeição: — Notas excelentes desde o ensino fundamental, medalhas em olimpíadas escolares, professores descrevem como responsável, dedicada, empática, nunca esteve envolvida em brigas, família estruturada,mãe presente,o pai faleceu em um acidente quando ela tinha 5 anos, sem dívidas, sem escândalos, sem histórico policial, trabalho voluntário em projeto social. Helena fechou o notebook devagar. — Então qual é o problema? Eduardo caminhou até a janela. — O problema é que Henrique não tem tempo para distrações. Helena cruzou os braços. — Você chama de distração uma menina exemplar? — Eu chamo de variável — respondeu ele, frio. — Henrique tem um plano traçado, faculdade nos Estados Unidos, Direito com ênfase em negócios internacionais, ele vai assumir parte do grupo Gates antes dos trinta, não pode se apegar a algo que o faça questionar esse caminho. Helena respirou fundo. — Ou talvez seja justamente isso que ele precise, algo que o humanize. Eduardo ficou em silêncio por alguns segundos. — Sentimentos são luxos quando se constrói império. Helena o encarou com firmeza. — Você construiu um império, mas quase perdeu seu filho no caminho. Aquilo ficou no ar. Eduardo não respondeu, apenas pegou o celular. — Vamos ligar para ele. No Brasil, eram oito da noite quando o celular de Henrique vibrou. Ele estava no quarto, deitado na cama, olhando para o teto, Laura tinha ido embora há pouco tempo, ainda conseguia sentir o perfume dela no travesseiro. Quando viu “Pai” na tela, sentou imediatamente. — Eles estão no Japão — murmurou para si mesmo antes de atender. — Boa noite, pai. — Henrique. A voz firme. Controlada. — Sua mãe está aqui. — Oi, meu amor — disse Helena, mais suave. — Oi, mãe. Eduardo não rodeou. — Nós mandamos investigar Laura. Silêncio. Henrique ficou rígido. — O quê? — Eu precisava saber com quem você está se envolvendo. A mandíbula dele travou. — Ela não é “alguém com quem estou me envolvendo”. — Então o que ela é? — Eduardo perguntou, direto. Henrique respirou fundo. — Ela é importante. Helena fechou os olhos do outro lado da linha. Eduardo continuou: — Ela é uma excelente aluna, boa família, boa reputação, nada contra. Henrique não sabia se aquilo era aprovação ou sentença. — Mas — Eduardo prosseguiu — isso não muda o plano. Ali estava. O plano. Sempre o plano. — Eu ainda vou para a faculdade — Henrique respondeu, tentando manter a calma. — Faltam dois meses para vocês voltarem, ainda faltam meses para eu viajar, nada mudou. — Tudo muda quando sentimentos entram na equação — disse Eduardo. Henrique levantou da cama. — Eu não sou um contrato empresarial. Silêncio pesado. Helena interveio: — Filho… nós só queremos que você esteja focado. — Eu estou focado. Mas eu também estou vivo. Eduardo foi direto: — Não importa se você fica com a Laura agora, mas você precisa seguir o plano, sem desvios, sem promessas que não poderá cumprir. Henrique fechou os olhos. Laura. A imagem dela rindo, a forma como segurava sua mão no colégio, o jeito que confiava nele. — Eu não vou machucá-la — disse, firme. Eduardo respondeu com a mesma firmeza: — Então não faça promessas que o plano não permita sustentar. A ligação terminou minutos depois. Mas a tensão permaneceu. Dois dias depois, Gabriela perdeu a paciência. Ela já tinha tentado indiretas, boatos, pequenas armações. Nada funcionava. Laura continuava ao lado de Henrique. De mãos dadas. Rindo. Segura. E aquilo a consumia. Na saída do colégio, Gabriela interceptou Henrique sozinha. — A gente precisa conversar. Ele já estava cansado. — Não temos nada para conversar. — Você sabe que isso é temporário — ela disse, com aquele sorriso falso. — Seu pai jamais vai aceitar essa… garota. Henrique ficou imóvel. — O que você disse? Gabriela ergueu o queixo. — Eu mandei uma mensagem. O mundo pareceu desacelerar. — Para quem? Ela hesitou por um segundo. — Para o seu pai. Silêncio absoluto. Henrique sentiu algo escuro crescer no peito. — Você fez o quê? — Eu só achei que ele deveria saber com quem você anda, uma menina que veio de outra escola, que ninguém conhece direito… Ele deu um passo à frente. — Você não conhece nada sobre ela. — Eu conheço você — Gabriela rebateu. — E você não nasceu para ficar com alguém assim. Henrique riu, mas não havia humor algum ali. — Assim como? Gabriela se enrolou. — Simples. A palavra saiu carregada de desprezo. Henrique nunca tinha olhado para ela daquele jeito antes. Frio, distante, cortante. — Escuta bem, Gabriela — ele disse, cada palavra precisa. — Meu pai investigou tudo sobre a Laura. Ela piscou. — Investigou? — E só encontrou coisas boas. Excelentes notas, família estruturada, reputação impecável, ela é melhor do que você jamais será em caráter. Gabriela empalideceu. — Você não pode falar comigo assim. — Posso, e vou. Ele deu mais um passo, deixando claro que não havia mais espaço para jogos. — Você ultrapassou todos os limites. — Eu só queria te proteger. — De quê? De alguém que me faz feliz? Ela não soube responder. Henrique foi definitivo: — Você vai deixar a Laura em paz. — Ou o quê? — ela desafiou, mas já sem firmeza. A resposta veio calma, e assustadoramente segura. — Ou haverá consequências. Gabriela engoliu em seco. — Que consequências? Henrique inclinou levemente a cabeça. — Você quer mesmo testar o sobrenome Gates? O silêncio foi devastador. Ela sabia. Todos sabiam. Os Gates não faziam ameaças vazias. — Se mais um boato surgir — ele continuou — se mais uma armação acontecer… eu mesmo faço questão de garantir que seus pais saibam exatamente o que você anda fazendo dentro dessa escola, com provas. Gabriela recuou. — Você não faria isso. — Tenta. A palavra caiu como sentença. Ela virou o rosto, humilhada, tremendo de raiva. Mas não respondeu. Henrique passou por ela sem olhar para trás. Naquela noite, Laura percebeu algo diferente nele. Estavam sentados no quarto dele, conversando. — Você está estranho — ela disse. Ele a puxou para perto. — Eu resolvi uma coisa hoje. — O quê? Ele respirou fundo. — Gabriela mandou mensagem para o meu pai. Laura ficou rígida. — O quê? — Ele investigou você. O coração dela disparou. — E? Henrique segurou o rosto dela entre as mãos. — E encontrou exatamente o que eu já sabia. Que você é incrível. Os olhos dela marejaram. — Henrique… — Eu já falei com ela. Acabou. Ela não vai mais te incomodar. Laura o abraçou forte. Mas havia algo que ainda a preocupava. — E seus pais? Ele ficou em silêncio por alguns segundos. — Eles querem que eu siga o plano. — E você vai? Ele tocou a testa na dela. — Eu posso seguir o plano… e ainda escolher você. Laura sussurrou: — Não promete algo que não possa cumprir. Ele sorriu de leve. — Eu não prometo eternidade. Eu prometo verdade. E naquele momento, longe do Japão, longe do peso empresarial, longe das expectativas… Henrique Gates não era herdeiro. Era apenas um garoto apaixonado. E, pela primeira vez, decidido a não deixar que ninguém — nem Gabriela, nem o plano, nem o próprio sobrenome — destruísse aquilo que estava construindo com Laura. Mas o tempo ainda corria. E o Japão ainda estava a dois meses de distância.
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