No Japão, eram quase três da manhã quando Eduardo Gates fechou o notebook.
A vista de Tóquio brilhava do outro lado da parede de vidro da cobertura onde estava hospedado, luzes organizadas, impecáveis, obedientes. Exatamente como ele gostava que o mundo funcionasse.
Mas seu filho não parecia tão… organizado.
— Você tem certeza? — perguntou Helena, mãe de Henrique, apoiada na bancada, ainda de roupão.
Eduardo girou o notebook em sua direção, a tela exibia um dossiê detalhado.
No topo:
Laura Almeida. 17 anos.
— Eu pedi um levantamento completo — disse ele, calmo, estratégico. — Histórico escolar, rede social, círculo de amizades, família, tudo.
Helena se aproximou, apreensiva.
— E?
Eduardo suspirou.
— Nada.
— Nada?
— Nada comprometedor, nada duvidoso,nada que desabone.
Helena franziu a testa.
Ele começou a listar, quase irritado com a perfeição:
— Notas excelentes desde o ensino fundamental, medalhas em olimpíadas escolares, professores descrevem como responsável, dedicada, empática, nunca esteve envolvida em brigas, família estruturada,mãe presente,o pai faleceu em um acidente quando ela tinha 5 anos, sem dívidas, sem escândalos, sem histórico policial, trabalho voluntário em projeto social.
Helena fechou o notebook devagar.
— Então qual é o problema?
Eduardo caminhou até a janela.
— O problema é que Henrique não tem tempo para distrações.
Helena cruzou os braços.
— Você chama de distração uma menina exemplar?
— Eu chamo de variável — respondeu ele, frio. — Henrique tem um plano traçado, faculdade nos Estados Unidos, Direito com ênfase em negócios internacionais, ele vai assumir parte do grupo Gates antes dos trinta, não pode se apegar a algo que o faça questionar esse caminho.
Helena respirou fundo.
— Ou talvez seja justamente isso que ele precise, algo que o humanize.
Eduardo ficou em silêncio por alguns segundos.
— Sentimentos são luxos quando se constrói império.
Helena o encarou com firmeza.
— Você construiu um império, mas quase perdeu seu filho no caminho.
Aquilo ficou no ar.
Eduardo não respondeu, apenas pegou o celular.
— Vamos ligar para ele.
No Brasil, eram oito da noite quando o celular de Henrique vibrou.
Ele estava no quarto, deitado na cama, olhando para o teto, Laura tinha ido embora há pouco tempo, ainda conseguia sentir o perfume dela no travesseiro.
Quando viu “Pai” na tela, sentou imediatamente.
— Eles estão no Japão — murmurou para si mesmo antes de atender.
— Boa noite, pai.
— Henrique.
A voz firme. Controlada.
— Sua mãe está aqui.
— Oi, meu amor — disse Helena, mais suave.
— Oi, mãe.
Eduardo não rodeou.
— Nós mandamos investigar Laura.
Silêncio.
Henrique ficou rígido.
— O quê?
— Eu precisava saber com quem você está se envolvendo.
A mandíbula dele travou.
— Ela não é “alguém com quem estou me envolvendo”.
— Então o que ela é? — Eduardo perguntou, direto.
Henrique respirou fundo.
— Ela é importante.
Helena fechou os olhos do outro lado da linha.
Eduardo continuou:
— Ela é uma excelente aluna, boa família, boa reputação, nada contra.
Henrique não sabia se aquilo era aprovação ou sentença.
— Mas — Eduardo prosseguiu — isso não muda o plano.
Ali estava.
O plano.
Sempre o plano.
— Eu ainda vou para a faculdade — Henrique respondeu, tentando manter a calma. — Faltam dois meses para vocês voltarem, ainda faltam meses para eu viajar, nada mudou.
— Tudo muda quando sentimentos entram na equação — disse Eduardo.
Henrique levantou da cama.
— Eu não sou um contrato empresarial.
Silêncio pesado.
Helena interveio:
— Filho… nós só queremos que você esteja focado.
— Eu estou focado. Mas eu também estou vivo.
Eduardo foi direto:
— Não importa se você fica com a Laura agora, mas você precisa seguir o plano, sem desvios, sem promessas que não poderá cumprir.
Henrique fechou os olhos.
Laura.
A imagem dela rindo, a forma como segurava sua mão no colégio, o jeito que confiava nele.
— Eu não vou machucá-la — disse, firme.
Eduardo respondeu com a mesma firmeza:
— Então não faça promessas que o plano não permita sustentar.
A ligação terminou minutos depois.
Mas a tensão permaneceu.
Dois dias depois, Gabriela perdeu a paciência.
Ela já tinha tentado indiretas, boatos, pequenas armações.
Nada funcionava.
Laura continuava ao lado de Henrique.
De mãos dadas.
Rindo.
Segura.
E aquilo a consumia.
Na saída do colégio, Gabriela interceptou Henrique sozinha.
— A gente precisa conversar.
Ele já estava cansado.
— Não temos nada para conversar.
— Você sabe que isso é temporário — ela disse, com aquele sorriso falso. — Seu pai jamais vai aceitar essa… garota.
Henrique ficou imóvel.
— O que você disse?
Gabriela ergueu o queixo.
— Eu mandei uma mensagem.
O mundo pareceu desacelerar.
— Para quem?
Ela hesitou por um segundo.
— Para o seu pai.
Silêncio absoluto.
Henrique sentiu algo escuro crescer no peito.
— Você fez o quê?
— Eu só achei que ele deveria saber com quem você anda, uma menina que veio de outra escola, que ninguém conhece direito…
Ele deu um passo à frente.
— Você não conhece nada sobre ela.
— Eu conheço você — Gabriela rebateu. — E você não nasceu para ficar com alguém assim.
Henrique riu, mas não havia humor algum ali.
— Assim como?
Gabriela se enrolou.
— Simples.
A palavra saiu carregada de desprezo.
Henrique nunca tinha olhado para ela daquele jeito antes.
Frio, distante, cortante.
— Escuta bem, Gabriela — ele disse, cada palavra precisa. — Meu pai investigou tudo sobre a Laura.
Ela piscou.
— Investigou?
— E só encontrou coisas boas. Excelentes notas, família estruturada, reputação impecável, ela é melhor do que você jamais será em caráter.
Gabriela empalideceu.
— Você não pode falar comigo assim.
— Posso, e vou.
Ele deu mais um passo, deixando claro que não havia mais espaço para jogos.
— Você ultrapassou todos os limites.
— Eu só queria te proteger.
— De quê? De alguém que me faz feliz?
Ela não soube responder.
Henrique foi definitivo:
— Você vai deixar a Laura em paz.
— Ou o quê? — ela desafiou, mas já sem firmeza.
A resposta veio calma, e assustadoramente segura.
— Ou haverá consequências.
Gabriela engoliu em seco.
— Que consequências?
Henrique inclinou levemente a cabeça.
— Você quer mesmo testar o sobrenome Gates?
O silêncio foi devastador.
Ela sabia.
Todos sabiam.
Os Gates não faziam ameaças vazias.
— Se mais um boato surgir — ele continuou — se mais uma armação acontecer… eu mesmo faço questão de garantir que seus pais saibam exatamente o que você anda fazendo dentro dessa escola, com provas.
Gabriela recuou.
— Você não faria isso.
— Tenta.
A palavra caiu como sentença.
Ela virou o rosto, humilhada, tremendo de raiva.
Mas não respondeu.
Henrique passou por ela sem olhar para trás.
Naquela noite, Laura percebeu algo diferente nele.
Estavam sentados no quarto dele, conversando.
— Você está estranho — ela disse.
Ele a puxou para perto.
— Eu resolvi uma coisa hoje.
— O quê?
Ele respirou fundo.
— Gabriela mandou mensagem para o meu pai.
Laura ficou rígida.
— O quê?
— Ele investigou você.
O coração dela disparou.
— E?
Henrique segurou o rosto dela entre as mãos.
— E encontrou exatamente o que eu já sabia. Que você é incrível.
Os olhos dela marejaram.
— Henrique…
— Eu já falei com ela. Acabou. Ela não vai mais te incomodar.
Laura o abraçou forte.
Mas havia algo que ainda a preocupava.
— E seus pais?
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
— Eles querem que eu siga o plano.
— E você vai?
Ele tocou a testa na dela.
— Eu posso seguir o plano… e ainda escolher você.
Laura sussurrou:
— Não promete algo que não possa cumprir.
Ele sorriu de leve.
— Eu não prometo eternidade. Eu prometo verdade.
E naquele momento, longe do Japão, longe do peso empresarial, longe das expectativas…
Henrique Gates não era herdeiro.
Era apenas um garoto apaixonado.
E, pela primeira vez, decidido a não deixar que ninguém — nem Gabriela, nem o plano, nem o próprio sobrenome — destruísse aquilo que estava construindo com Laura.
Mas o tempo ainda corria.
E o Japão ainda estava a dois meses de distância.