Luzes de Dezembro

888 Words
A casa da família Gates nunca esteve tão iluminada. Não apenas pelas luzes douradas que contornavam as janelas ou pela árvore de quase quatro metros no centro do salão principal. Mas pela sensação de despedida. De transição. De algo que nunca mais seria exatamente igual. Era a tradicional festa de Natal da família Gates — empresários, primos distantes, amigos influentes, todos reunidos sob o mesmo teto luxuoso. Mas naquele ano havia um motivo extra. Henrique e Laura partiriam em poucas semanas para os Estados Unidos. E todos sabiam que aquele Natal tinha gosto de última vez. Laura desceu a escada principal usando um vestido vermelho profundo, elegante e discreto ao mesmo tempo, Henrique, ao pé da escada, a observava como se quisesse guardar cada detalhe na memória. — Você está linda — ele disse baixo, quando ela se aproximou. — É Natal, eu precisava competir com a árvore — ela brincou. Ele riu, mas havia algo diferente no olhar dele. Orgulho. E um pouco de nostalgia antecipada. A família Gates era conhecida por sua postura formal, mas naquela noite os abraços eram mais longos. O pai de Henrique ergueu a taça. — Este ano foi de crescimento para nossa família, mas, acima de tudo, foi um ano de coragem. Ele olhou diretamente para o filho. — Henrique, você está pronto para Harvard, e eu nunca tive dúvidas disso. Depois, voltou-se para Laura. — E você… nos surpreendeu, sua bolsa não é apenas mérito académico, é caráter. Laura sentiu a emoção subir pela garganta. — Obrigada, senhor. — Agora é praticamente da família, Pode me chamar de Eduardo. Henrique sorriu de lado. — Eu falei. Risos leves ao redor da mesa. Mas nem todos estavam atentos ao discurso. Tereza estava inquieta. E Caio também. Depois do jantar, enquanto as crianças corriam pelo jardim iluminado, Tereza puxou Caio pela mão até próximo da árvore principal. — Eu vou fazer — ela sussurrou. — Tem certeza? — ele perguntou, nervoso. — Nunca tive tanta. Ela respirou fundo e bateu levemente a taça com uma colher. O som chamou atenção. Aos poucos, as conversas cessaram. — Eu prometo que é rápido — Tereza começou, tentando parecer calma. Laura já estava sorrindo, desconfiada. Henrique cruzou os braços, curioso. — Todo mundo sabe que eu nunca fui muito boa com discursos… — Tereza continuou. — Mas esse ano eu aprendi que esperar o momento perfeito é desculpa pra não viver o momento certo. Ela olhou para Caio. Ele assentiu, encorajando. — Então… oficialmente… — ela segurou a mão dele com mais firmeza — eu quero apresentar pra vocês meu namorado. Alguns segundos de silêncio. Depois, aplausos. Laura levou a mão à boca. — Finalmente! — Henrique gritou, rindo. O pai de Henrique sorriu satisfeito. — Já não era sem tempo, Tereza. Ela revirou os olhos, mas estava emocionada demais para responder com ironia. Caio cumprimentou alguns familiares, ainda meio tímido, mas visivelmente feliz. Laura atravessou o salão e abraçou a amiga com força. — Você fez isso. — Eu fiz. — Estou orgulhosa de você. Tereza riu, mas os olhos estavam marejados. — Você vai embora e eu resolvo virar adulta responsável, coincidência? — Influência minha — Laura provocou. Mais tarde, já perto da meia-noite, a troca de presentes terminou, e o clima ficou mais íntimo. Henrique e Laura se afastaram para a varanda externa, onde as luzes refletiam na piscina. O som distante das conversas misturava-se com músicas natalinas suaves. — Está acontecendo — Laura murmurou. — Está. — Você tem medo? Henrique demorou alguns segundos para responder. — Tenho. Ela virou o rosto para ele. — Do quê? — De que tudo mude. Laura apoiou as mãos no parapeito. — Vai mudar. — Eu sei. Ele se aproximou. — Mas eu não quero que mude entre a gente. Ela respirou fundo. — Não vai mudar porque estamos fugindo. vai mudar porque estamos crescendo. Ele segurou o rosto dela com delicadeza. — Você não é mais a garota que precisava provar alguma coisa. — E você não é mais o menino que vivia sob expectativa. O silêncio entre eles era denso, mas não pesado. Era consciente. — A gente vai se ver quase todo dia — Henrique disse. — Mesma cidade, mesma universidade, mesmo estado. — Mas vidas diferentes. — Sim. Laura sorriu de leve. — É isso que faz valer. Lá dentro, alguém começou a contagem regressiva para a meia-noite. — Dez! — Nove! Henrique encostou a testa na dela. — Seja qual for o próximo capítulo… — A gente escreve com maturidade — ela completou. — Oito! — Sete! — Eu te amo, Laura. Ela sentiu o coração apertar. — Eu te amo, Henrique. — Três! — Dois! — Um! Fogos iluminaram o céu. A família comemorava, abraços, risadas, taças erguidas. Mas naquele pequeno espaço da varanda, o momento era só deles. Um beijo lento. Não desesperado. Não possessivo. Seguro. Dentro da casa, Tereza dançava com Caio, finalmente assumidos, rindo como se o mundo tivesse ficado mais simples. Eduardo observava os jovens com um meio sorriso orgulhoso. Era um Natal diferente. Não era sobre presentes. Era sobre partidas. Sobre coragem. Sobre assumir amores. Sobre deixar os filhos voarem. E, enquanto as luzes douradas refletiam nos olhos de Laura, ela percebeu algo com clareza: Ela não estava indo embora. Estava indo adiante.
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