Não por você, mas com você

1165 Words
Henrique percebeu que algo estava diferente desde a mensagem da noite anterior. Laura não era de rodeios, quando dizia que precisava conversar, significava que havia peso na conversa. Ele a encontrou no jardim da casa dela no fim da tarde, O sol já começava a descer, tingindo o céu de laranja suave, a casa estava silenciosa — Sônia saíra para um jantar com Helena, coincidência calculada. Laura estava sentada no banco de madeira sob a árvore maior do jardim, as mãos entrelaçadas no colo, postura ereta demais para alguém relaxada. — Você está me assustando desde ontem — Henrique disse, tentando soar leve. Ela ergueu o olhar. — Não é nada r**m. — Você prometeu isso por mensagem. Ele sentou ao lado dela. O silêncio veio primeiro, não desconfortável, mas carregado. Laura respirou fundo. — Eu fui chamada na diretoria essa semana. Henrique inclinou levemente a cabeça. — Por causa das provas finais? Ela balançou a cabeça. — Por causa da bolsa de intercâmbio. Ele congelou por meio segundo. — A bolsa… para os Estados Unidos? — Sim. — E? Laura sustentou o olhar dele. — Eu fui escolhida. O silêncio que se seguiu não era vazio, era denso. Henrique piscou algumas vezes, como se organizasse os pensamentos. — Você… ganhou? — Ganhei. Ele soltou o ar devagar, um sorriso involuntário surgindo. — Laura, isso é enorme. Ela assentiu. — Eu sei. Mas o sorriso dele diminuiu ao perceber que ela ainda parecia contida. — O que você não está me dizendo? Laura engoliu seco. — Eu pensei em recusar. Henrique franziu o cenho. — Recusar? — Sim. — Por quê? Ela desviou o olhar por um instante, observando o jardim. — Porque eu tenho responsabilidades aqui, as empresas, minha mãe, a estrutura que eu comecei a montar, eu achei que talvez fosse imprudente ir embora agora. Henrique a observava com atenção absoluta. — E também… — ela hesitou. — Também o quê? Ela voltou a encará-lo. — Você. Ele ficou imóvel. — Eu não queria que você pensasse que eu estivesse indo por sua causa. Henrique demorou alguns segundos antes de responder. — E você estaria? A pergunta foi direta, não havia acusação, apenas necessidade de verdade. Laura foi honesta. — No começo, quando a diretora falou, a primeira coisa que eu pensei foi que você estaria lá, que a gente poderia ficar no mesmo país. Que não precisaríamos lidar com oceanos e fusos horários. Ela respirou fundo. — E isso me assustou, porque eu não queria que a decisão fosse sobre isso. Henrique manteve o olhar firme. — Então você ia recusar para provar que não era por mim? Laura deixou escapar um meio sorriso. — Talvez. O vento balançou levemente as folhas acima deles. — Eu conversei com a minha mãe — ela continuou. — E depois com a sua. Henrique arqueou as sobrancelhas. — Minha mãe? — Sim. Laura lembrou da conversa da tarde anterior, Helena sentada à frente dela, firme como sempre. “Você não constrói liderança apenas administrando números, constrói vivendo experiências.” E depois, mais suave: “Se você for, eu garanto que tudo aqui continuará sólido, inclusive sua mãe.” Laura voltou ao presente. — Elas duas disseram a mesma coisa, de formas diferentes, que eu não posso tomar decisões grandes por medo de deixar algo para trás, que estrutura boa não desmorona porque alguém viaja um ano. Henrique permaneceu em silêncio. — E então eu percebi uma coisa — Laura disse, mais firme agora. — Se eu ficar, vai ser porque eu escolhi ficar, não porque tive medo de ir. Ela virou o corpo levemente na direção dele. — Eu vou aceitar a bolsa. Henrique não reagiu imediatamente. Ela continuou antes que ele pudesse interpretar errado. — Mas não é por você. As palavras ficaram suspensas entre eles. — Não é para facilitar nosso relacionamento, não é para evitar distância, não é para prolongar algo que já é forte. Ela segurou as próprias mãos para impedir que tremessem. — Eu vou porque é uma oportunidade única, porque vai ampliar minha visão, porque vai me tornar melhor no que eu quero construir. Porque eu preciso viver algo que não seja consequência de dor ou defesa. O olhar dele suavizou. — Você está indo por você. — Estou. Henrique passou a mão pelos cabelos, absorvendo tudo. — Você sabe que eu nunca pediria para você ir por mim. — Eu sei. — E também nunca pediria para você ficar por mim. Laura assentiu. — Eu sei disso também. Ele soltou um riso leve, quase incrédulo. — Você pensou em abrir mão da bolsa mais disputada da escola. — Pensei. — Você é maluca. Ela riu, finalmente. — Talvez. Henrique ficou sério outra vez. — Eu estou orgulhoso de você. Laura sentiu algo aquecer no peito. — Mesmo sabendo que vamos estar no mesmo país, mas não necessariamente na mesma cidade? — Ainda não sei onde vou ficar — ela respondeu. Ela o observou por um longo momento. — Eu não quero que você sinta que estou indo para invadir o seu espaço. Ele se aproximou um pouco mais. — Laura, eu vou estar na faculdade, vou ter minha rotina, meus desafios, você vai ter os seus, a gente não precisa morar na mesma rua para continuar sendo nós. Silêncio. — Você tem medo? — ela perguntou. Henrique foi honesto. — Tenho. — Eu também. Ele segurou o rosto dela com delicadeza. — Mas medo nunca foi motivo suficiente para você parar. Ela sorriu. — Nem para você. Henrique apoiou a testa na dela. — Um ano. — Um ano — ela repetiu. — E depois? Laura pensou por um segundo. — Depois a gente vê onde o mundo coloca a gente. Ele sorriu de lado. — Isso é assustadoramente adulto. — Estamos ficando assustadoramente adultos. Eles ficaram em silêncio, mas dessa vez leve. — Quando você vai contar oficialmente na escola? — ele perguntou. — Amanhã, a diretora me deu dois dias, se eu recusasse, a bolsa iria para outro aluno. Henrique assentiu. — Gabriela vai surtar. Laura riu. — Isso é apenas um efeito colateral divertido. Ele puxou-a para um abraço demorado. Não havia desespero nele, não havia apego sufocante. Havia escolha. — Eu quero que você vá e seja brilhante — Henrique murmurou contra o cabelo dela. — não minha namorada nos Estados Unidos. não a herdeira rica, não a garota que venceu um escândalo. Ele se afastou o suficiente para olhá-la nos olhos. — Eu quero que você seja a Laura que constrói o próprio caminho. Ela sentiu os olhos arderem. — Eu estou aprendendo a ser. Ele sorriu. — Então vai. Laura respirou fundo. Não era fuga. Não era dependência. Era expansão. — Eu vou — ela disse, finalmente em paz com a decisão. E, pela primeira vez desde que o futuro começara a se desenhar, ela não sentiu que estava escolhendo entre amor e ambição. Estava escolhendo os dois. Mas do jeito certo.
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