O segredo entre duas gerações

1311 Words
O avião pousou em São Paulo pouco depois das seis da manhã. A cidade ainda despertava lentamente sob um céu cinza claro, daqueles que prometiam calor mais tarde, Laura permaneceu sentada por alguns segundos depois que o avião parou completamente, as pessoas ao redor já se levantavam, abrindo os compartimentos superiores, pegando malas, falando apressadas ao telefone. Mas ela não se mexeu. As mãos estavam pousadas sobre o próprio colo, e o olhar fixo em algum ponto invisível à frente. Ela ainda sentia o peso da decisão que havia tomado. Deixar Henrique. Voltar para o Brasil. Guardar um segredo que mudaria tudo. Respirou fundo antes de finalmente se levantar. Pegou a mochila, ajeitou o cabelo preso em um coque desfeito e seguiu com o fluxo de passageiros pelo corredor do avião. O aeroporto estava movimentado, como sempre, pessoas chegando, outras partindo, anúncios ecoando pelos alto-falantes. Laura caminhava com passos calmos, mas por dentro seu coração parecia descompassado. Ela não sabia exatamente o que viria agora. Só sabia que precisava ser forte. Passou pelo controle de passaportes, pegou a grande mala que havia despachado e seguiu em direção ao portão de desembarque. Assim que atravessou as portas de vidro, levantou os olhos para procurar um táxi. Mas parou no mesmo instante. Eduardo Gates estava ali. Encostado em uma das colunas do saguão. Elegante como sempre, com um terno escuro perfeitamente alinhado e o olhar atento de quem observava tudo ao redor. Laura franziu a testa. — Eduardo? Ele se afastou da coluna e caminhou até ela com passos tranquilos. — Bom dia, Laura. Ela ainda parecia surpresa. — Como… você sabia que eu estava chegando? Eduardo deu um pequeno sorriso discreto. — Eu tenho meus meios. Laura cruzou os braços, ainda desconfiada. — Isso não responde a pergunta. Ele pegou a mala dela com naturalidade. — Digamos que eu conheço meu filho o suficiente para saber que algo estava errado. Laura permaneceu em silêncio. Eduardo continuou: — Quando ele me ligou ontem à noite dizendo que você havia desaparecido… eu imaginei duas possibilidades. Eles começaram a caminhar pelo aeroporto. — Ou você tinha sido sequestrada… Laura soltou um pequeno suspiro. — Ou tinha fugido. Ela abaixou o olhar. — Eu não fugi. Eduardo respondeu com calma: — Não disse que fugiu. Eles saíram do terminal e caminharam até uma pequena cafeteria que ficava ali perto, dentro do próprio aeroporto. Era um lugar tranquilo àquela hora da manhã. Quase vazio. Sentaram-se em uma mesa perto da janela. Um garçom se aproximou. — O que a senhorita vai querer? Laura olhou o cardápio rapidamente, mas a verdade é que não tinha fome alguma. — Um suco de laranja, por favor. Eduardo pediu apenas um café. O garçom se afastou. Por alguns segundos, nenhum dos dois falou nada. Laura observava as mãos sobre a mesa. Eduardo a observava com atenção. Havia algo diferente nela. Não era apenas tristeza. Era decisão. Finalmente ele falou: — Quer me contar o que aconteceu? Laura levantou os olhos lentamente. — Primeiro eu preciso que você me prometa uma coisa. Eduardo apoiou os cotovelos na mesa. — Depende do que for. — Prometa que não vai contar nada para o Henrique. Ele ficou alguns segundos em silêncio. — Laura… — Por favor. Ela o interrompeu. — Eu preciso disso. O garçom voltou naquele momento, trazendo o café e o suco. Eles agradeceram em silêncio. Assim que ficaram sozinhos novamente, Eduardo respirou fundo. — Se for algo que coloque você em perigo, eu não posso prometer. Laura balançou a cabeça. — Não coloca. Ele a observou por mais alguns segundos. Então disse: — Está bem. Laura apertou o copo de suco entre as mãos. — Eu prometo. Ela demorou alguns segundos antes de falar. Parecia reunir coragem. — Eu estou grávida. O silêncio que se seguiu foi profundo. Eduardo não reagiu imediatamente. Ele apenas a observou. Como se estivesse confirmando se havia ouvido corretamente. — Do Henrique? Laura assentiu devagar. — Sim. Eduardo recostou na cadeira. Passou a mão pelo queixo, pensativo. Durante alguns segundos ele não disse absolutamente nada. Laura esperava uma reação. Qualquer reação. Mas Eduardo Gates era um homem difícil de surpreender. Finalmente ele perguntou, com a voz baixa: — Ele sabe? Laura balançou a cabeça. — Não. — Pretende contar? Ela demorou um pouco para responder. — Eu… não sei. Eduardo estreitou os olhos. — Não sabe? Laura respirou fundo. — Eu preciso de tempo. Ela olhou pela janela da cafeteria, observando os carros passando lá fora. — Se eu contasse agora… ele largaria tudo, Harvard, Nova York, o futuro que ele construiu, o sonho dele. Ela voltou a olhar para Eduardo. — Eu não posso fazer isso com ele. Eduardo permaneceu em silêncio. Laura continuou: — Então eu achei que… se eu simplesmente fosse embora…ele seguiria em frente, ficaria bravo comigo, talvez até me odiasse, mas seguiria. Ela abaixou o olhar. — E é melhor assim. O silêncio voltou a se instalar entre eles. Eduardo pegou a xícara de café, mas não bebeu. Apenas ficou olhando o líquido escuro dentro dela. Pensando. Finalmente perguntou: — E você? Laura franziu levemente a testa. — Eu o quê? — Vai seguir em frente? Ela soltou uma pequena risada sem humor. — Acho que não tenho muita escolha. Eduardo a observou novamente. E naquele momento algo mudou dentro dele. Durante muito tempo ele havia visto Laura apenas como a namorada do filho. Uma garota inteligente. Corajosa. Mas ainda uma garota. Agora ele via algo diferente. Via uma mulher tomando uma decisão impossível. Abrindo mão do amor da própria vida. Para proteger o futuro dele. Poucas pessoas tinham coragem para algo assim. Eduardo encostou as costas na cadeira e finalmente tomou um gole do café. Depois disse: — Você sabe que isso vai doer nele quando descobrir. Laura apertou os lábios. — Eu sei. — Porque ele vai descobrir. — ele soltou o ar preso nos pulmões. Ela suspirou. — Talvez um dia. Eduardo ficou em silêncio novamente. Depois perguntou: — E o que pretende fazer agora? Laura tomou um pequeno gole do suco. — Vou embora de São Paulo. Ele ergueu uma sobrancelha. — Para onde? — Rio de Janeiro. Ela explicou: — Temos empresas lá, eu preciso aprender a administrar tudo e … ficar longe dele. Eduardo assentiu devagar. — Sua mãe sabe? — Ainda não. Ela fez uma pequena pausa. — Vou contar quando chegarmos lá. Eduardo observou o rosto dela por alguns segundos. E então disse algo que Laura não esperava. — Você é muito mais forte do que eu imaginava. Ela ergueu os olhos, surpresa. — O quê? Ele deu um pequeno sorriso. — Meu filho sempre foi teimoso, orgulhoso, determinado. Ele apoiou as mãos sobre a mesa. — Mas você…você acabou de fazer algo que nem eu teria coragem de fazer. Laura ficou em silêncio. Eduardo continuou: — Você desistiu do grande amor da sua vida, para proteger o sonho dele. Ele a observou com respeito verdadeiro agora. — Isso é raro. Laura engoliu em seco. — Não parece raro, parece doloroso. Eduardo assentiu. — As duas coisas geralmente andam juntas. Ela olhou novamente para o copo de suco. — Eu só espero que um dia ele entenda. Eduardo terminou o café e colocou a xícara sobre a mesa. — Talvez entenda. Ele pegou a mala dela. — Ou talvez passe muitos anos com raiva. Laura respirou fundo. — Eu sei. Eles se levantaram da mesa. Enquanto caminhavam em direção à saída da cafeteria, Eduardo disse calmamente: — Mas uma coisa eu posso te garantir. Laura o olhou. — O quê? Ele respondeu: — Meu filho pode até ficar com raiva, pode até tentar seguir em frente, mas ele nunca vai esquecer você. Laura não respondeu. Porque, no fundo, ela já sabia disso. E talvez fosse exatamente por isso que aquela decisão doía tanto.
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