O gosto da primeira quebra

1136 Words
Depois que buscamos a Raiana, jantamos todos juntos. Minha mãe sempre fazia questão desses momentos à mesa — como se ali, entre arroz e feijão, a família ainda estivesse inteira e protegida. Assim que terminamos, eu e a Rai praticamente corremos para o meu quarto. Sentamos na cama e começamos a conversar. Sobre tudo. Sobre nada. Sobre a menina nova da escola, sobre o grupo na saída, sobre a festa, sobre roupas, sobre meninos, sobre o futuro que parecia longe demais para ser real. Ela era só um ano mais velha que eu, mas parecia viver três anos à frente. Já tinha ido a várias festas, conhecia gente de outras escolas, era a popular que todo mundo cumprimentava. Eu sempre fui mais contida. Minhas amizades se limitavam às meninas da minha sala. Sair de casa? Só com autorização formal, horário marcado e motivo justificado. Sempre achei exageradas as regras que colocavam sobre mim. E talvez — só talvez — tenha sido exatamente isso que começou a me empurrar para fazer algumas coisas escondido. Com a Rai, eu nunca precisei fingir nada. A gente se conhecia desde o fundamental. Não éramos da mesma sala, mas éramos cúmplices. Ela sabia quando eu estava mentindo para mim mesma. Eu sabia quando ela estava exagerando na própria coragem. — Você acha que eu vou ficar bem nessa roupa? — perguntei, me olhando no espelho com o short jeans e a camiseta preta que tinha separado. — Claro que vai. Você precisa parar de se diminuir. Você é linda, Laura. Qualquer menina daria tudo pra ter o seu corpo. Revirei os olhos. — Até parece. Ela balançou a cabeça, impaciente comigo, mas antes que pudesse responder, minha mãe entrou no quarto. — Tá na hora de dormir. Boa noite. Eu suspirei internamente. Até o horário de dormir era uma regra inegociável. — Já vamos, mãe. Raiana já estava deitada, sorrindo. — Boa noite, tia. Minha mãe fechou a porta. Assim que ela saiu, me joguei na cama bufando. — Como você consegue obedecer e ainda sorrir? Raiana riu baixo. — É estratégia. Se ela acha que você obedece feliz, ela para de vigiar tanto. Agora ela já foi dormir. Isso não significa que a gente precise dormir exatamente agora. Eu sorri. Naquele momento, eu não fazia ideia de que aquela naturalidade dela com pequenas quebras de regra começaria a redefinir a minha noção de limite. Ficamos conversando por mais algumas horas. Eu estava elétrica. Outra festa. Outra chance de me sentir diferente. Quando finalmente ficamos em silêncio, ela dormiu em poucos minutos. Eu fiquei acordada, olhando para o teto. Pensando no dia seguinte. Pensando em quem eu poderia ser ali dentro. — Bom dia! Hoje é dia de se divertir de novo! — ela acordou animada. Eu sentei na cama com o rosto inchado de sono. — Como você consegue acordar feliz assim? — É treino. Ainda eram 8h45 quando fui para a cozinha. Para minha alegria, a casa estava vazia. Minha mãe já tinha saído para trabalhar. Sábados eram os meus dias favoritos. Horas de silêncio. Horas sem supervisão. Tomamos café e decidimos fazer as unhas. Minha mãe sempre dizia que esmalte vermelho ou preto não era “coisa pra minha idade”. Eu olhei para o vidro preto na mão da Rai e senti uma pontada de desafio. Pintei. Olhei para minhas unhas escuras e senti uma satisfação pequena, mas intensa. Não era só esmalte. Era uma escolha minha. Depois fui lavar o cabelo. Secar era sempre uma maratona. Quase duas horas entre secador e prancha. Enquanto o ar quente batia no meu rosto, eu pensava em como queria que aquela noite fosse diferente da anterior. Menos insegura. Mais dona de mim. Passamos o dia inteiro nesse ritual de preparação. Às 19h, coloquei o short jeans que a Rai tinha levado pra mim, a camiseta preta e, dessa vez, All Star branco. Eu queria conforto. Não queria repetir a dor do salto alto. Raiana vestiu saia jeans, blusa branca e uma rasteirinha. O cabelo vermelho cereja dela brilhava sob a luz do quarto. Eu amava aquela cor. Mas pintar o cabelo estava completamente fora da minha realidade. — Senta aqui — ela disse, me chamando para a penteadeira. — Vou fazer uma maquiagem leve. — Não exagera. Se minha mãe achar demais, me faz tirar tudo. Ela riu. Passou blush, rímel, um brilho discreto. Quando me olhei no espelho, vi uma versão minha que parecia a mesma… mas não exatamente igual. — Prontas — ela anunciou. Fomos para a sala. Minha mãe nos esperava. — Mãe, deixa eu ficar mais tempo hoje? Da outra vez você me buscou antes das dez. Ela me analisou por alguns segundos. — Vou pensar. Entramos no carro. No caminho, ouvi novamente as recomendações de sempre: não aceitar bebida de ninguém, não sair da boate, não beijar qualquer um. — Eu vou fazer dezesseis anos, mãe — falei. — Você me trata como se eu tivesse doze. Ela respirou fundo. — Eu só quero seu bem. Eu sabia que era verdade. Quando descemos do carro, eu já ia fechar a porta quando ela me chamou. — Talvez eu demore um pouco hoje. Vou passar na casa de uns amigos. Tentei disfarçar a felicidade, mas não consegui. — Obrigada, mãe. Te amo. Ela sorriu e foi embora. A fila estava cheia. Música alta vazando pelas paredes. Luzes piscando. Assim que entramos, senti aquela mistura de euforia e nervosismo. Raiana já conhecia algumas pessoas ali dentro. Em poucos minutos, estávamos cercadas por um grupo que eu não reconhecia. Roupas mais caras. Relógios chamativos. Perfumes fortes. Eu ainda tentava me situar quando ela colocou um copo grande na minha mão. Devia ter uns setecentos mililitros. Aproximei do nariz. O cheiro era doce. — Pode beber. É meu — ela disse, já voltando a conversar com um menino ao lado. Olhei para o copo. Pensei na voz da minha mãe. Pensei nas unhas pretas. Pensei em como eu estava cansada de ser sempre a menina que obedecia. Levei o copo à boca e dei um gole generoso. O líquido desceu queimando minha garganta. Ardeu. Forte. Diferente de qualquer coisa que eu já tinha sentido. Engoli. Meu corpo reagiu primeiro. O rosto esquentou. O estômago pareceu se contrair. Mas, junto com o desconforto, veio outra sensação. Liberdade. Não era só álcool. Era a primeira vez que eu fazia algo que sabia que não deveria. E ninguém estava ali para me impedir. Eu olhei para a Raiana. Ela sorriu para mim como quem diz: agora você entende. Eu ainda não entendia tudo. Mas naquela noite, entre luzes piscando e música alta, eu dei meu primeiro passo consciente para atravessar a linha que sempre desenharam ao meu redor. E o gosto daquela quebra… apesar de amargo, tinha algo perigosamente viciante.
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