Quando o jogo fica sério

1031 Words
Brasília nunca foi um lugar silencioso. Mas naquela noite, o gabinete do senador Villar parecia pequeno demais para conter a fúria. — Você perdeu a noção? — a voz do senador ecoou firme. Augusto permanecia em pé, mãos nos bolsos, olhar fixo no pai. — Eu só conversei com ela. — Você abordou a namorada do filho de Eduardo Gates em um evento público! — E daí? O tapa na mesa foi seco. — Daí que você não entende com quem está mexendo! Augusto não abaixou a cabeça. Mas pela primeira vez, ficou em silêncio. — Eduardo Gates não ameaça — o senador continuou. — Ele executa. Augusto engoliu em seco. — Ele ligou pra você? — Ele não liga por educação. O senador aproximou-se do filho. — Se você encostar naquela garota de novo, não será só um problema pessoal, será político. Augusto sentiu algo que não sentia havia anos. Humilhação. E Augusto Villar não lidava bem com humilhação. Naquela mesma noite, longe dos olhos do pai, ele fez uma ligação. Gabriela demorou a atender. — O que você quer? — ela perguntou, já defensiva. — Você não parece feliz com o jeito que as coisas terminaram. Silêncio do outro lado. — Meu pai quase me trancou em casa por causa daquela ligação. — O meu também — Augusto respondeu, seco. Gabriela respirou fundo. — Então deixa isso pra lá. — Você quer mesmo deixar? Ela hesitou. Não queria. Mas estava com medo. — O que você está pensando? — ela perguntou. A voz dele ficou mais baixa. Mais controlada. — Henrique Gates precisa aprender que não pode simplesmente escolher alguém fora do jogo e esperar que ninguém reaja. — Eu não vou fazer nada louco. — Não é loucura. É equilíbrio. Gabriela fechou os olhos. — Você não está falando sério. — Estou. O silêncio durou alguns segundos longos demais. — Só uma conversa — ele completou. — Um susto, nada permanente. Gabriela sabia que aquilo era mentira. Mas também sabia que o orgulho ferido às vezes fala mais alto que a razão. — Onde? Naquela noite, Laura estava sozinha em casa. A mãe havia saído para um plantão extra. Henrique estava estudando para uma prova importante. Tereza havia mandado mensagem mais cedo, animada com uma ligação de Caio. Tudo parecia… normal. Laura estava sentada no sofá, mexendo no celular, quando ouviu o interfone tocar. Ela franziu o cenho. Não estava esperando ninguém. — Quem é? Silêncio por um segundo. — Entrega. Ela não lembrava de ter pedido nada. Mas poderia ser engano. Antes que se levantasse, o celular vibrou. Mensagem de Henrique: “Meu pai colocou segurança na sua rua. Não se assusta se ver um carro diferente.” Ela congelou. Segurança? Antes que pudesse responder, o interfone tocou novamente. Mais insistente. E então… Silêncio. Mas não um silêncio tranquilo. O tipo de silêncio que avisa que algo está errado. Lá fora, dentro de um carro escuro estacionado alguns metros adiante, Augusto observava a casa. Gabriela estava ao lado, nervosa. — Eu não gosto disso. — Relaxa. — Isso não é só um susto. Augusto ignorou. — Ela vai sair. Mas o que ele não sabia… Era que outro carro já estava estacionado do outro lado da rua. Dois homens dentro. Observando. Sem interferir. Ainda. Laura olhou pela janela discretamente. E viu. Um carro que ela não reconhecia. E outro… que também não. O coração começou a bater mais rápido. Ela pegou o celular. Ligou para Henrique. Ele atendeu no primeiro toque. — O que foi? — Tem alguém aqui fora. A voz dela saiu mais baixa do que pretendia. Henrique ficou em pé imediatamente. — Quem? — Eu não sei. Do outro lado da rua, um dos seguranças fez um sinal discreto pelo rádio. Movimentação suspeita confirmada. Augusto percebeu algo diferente. — Tem outro carro. Gabriela virou o rosto. — Eu falei que isso era errado. Antes que Augusto pudesse reagir, faróis se acenderam de repente. O carro da segurança avançou lentamente, bloqueando parcialmente a saída do veículo de Augusto. A porta da casa de Laura permaneceu fechada. Um dos seguranças desceu. Não armado de forma ostensiva. Mas firme. Augusto sentiu o estômago afundar. — Vamos sair daqui. Gabriela não precisou ouvir duas vezes. O carro arrancou. Mas já era tarde demais. Uma foto da placa havia sido registrada. Laura ainda estava ao telefone. — Henrique… tem alguém aqui. — Fica dentro de casa. Eu estou indo. O carro dele saiu cantando pneu no asfalto. No Japão, Eduardo recebeu a notificação minutos depois. Tentativa de aproximação suspeita. Placa identificada. Ele leu o nome em silêncio. Augusto Villar. Helena observou o rosto do marido endurecer. — Ele não aprende — Eduardo murmurou. Pegou o telefone novamente. Dessa vez, não foi para o senador. Foi para alguém acima. Na casa de Laura, os seguranças bateram à porta. — Senhorita Laura, somos da equipe de proteção designada pelo senhor Eduardo Gates, está tudo sob controle. Ela abriu a porta com cuidado. As pernas ainda tremiam. Henrique chegou poucos minutos depois. Entrou sem pedir licença. Abraçou-a com força demais. — Ele encostou em você? — Não. Ele respirou contra o cabelo dela. — Eu vou matar aquele cara. — Henrique… Mas a expressão dele estava diferente. Não era só ciúmes. Era consciência. — Meu pai sabia. Laura o olhou. — Sabia o quê? — Que isso podia acontecer. Ela entendeu naquele instante. O mundo dele não tinha apenas luxo e discursos. Tinha guerra silenciosa. E ela tinha acabado de virar alvo. Henrique segurou o rosto dela. — Eu prometo que ninguém vai tocar em você. Ela engoliu o medo. — Isso não é mais só sobre nós, não é? Ele não respondeu. Porque a verdade era clara. Augusto tinha cruzado uma linha. E quando se cruza uma linha contra a família Gates… As consequências não são escolares. São estruturais. Naquela noite, enquanto Laura tentava dormir com a sensação de estar sendo observada, e Henrique permanecia acordado ao lado dela, vigiando cada som… Em Brasília, o senador Villar recebeu uma segunda ligação. E dessa vez… Não foi um aviso. Foi uma decisão. O jogo tinha mudado. E agora… Era poder contra poder.
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