O sol ainda não havia nascido completamente em Tóquio quando o telefone vibrou sobre a mesa de madeira escura.
Eduardo Gates não gostava de ser acordado.
Mas gostava menos ainda de surpresas.
Helena abriu os olhos primeiro, observou o marido sentar-se na cama, atender a ligação com a voz ainda grave de sono.
— Fale.
Silêncio do outro lado.
À medida que ouvia, a expressão dele deixava o cansaço e ganhava outra coisa.
Frieza.
Helena sentou-se também.
— O que houve?
Ele desligou devagar.
— Nosso sócio resolveu se tornar protagonista.
Helena arqueou levemente a sobrancelha.
— Explique.
Eduardo levantou-se e caminhou até a janela do hotel, de onde a cidade se estendia organizada, impecável.
— Ele mencionou a bolsa da garota durante o evento, na frente de pessoas erradas.
Helena ficou em silêncio por alguns segundos.
— Augusto Villar estava presente.
Não era pergunta.
Eduardo virou o rosto.
— Estava.
Ela suspirou lentamente.
— Então agora o senador sabe que Henrique investiu em alguém fora do nosso círculo.
Eduardo apertou o maxilar.
— O que me irrita não é isso, é a quebra de hierarquia.
Helena levantou-se, caminhando até ele.
— Henrique está apaixonado.
Eduardo não respondeu imediatamente.
— Ele tem idade para isso — ela continuou. — Mas não tem maturidade para entender as consequências políticas.
Eduardo voltou até a mesa onde o tablet estava ligado.
Imagens apareceram na tela.
Fotografias.
Henrique e Laura na praia.
Caminhando.
Rindo.
Tereza conversando com um rapaz desconhecido.
Helena olhou as imagens sem emoção aparente.
— Você já colocou segurança.
— Desde o evento.
— Henrique sabe?
— Não.
Helena cruzou os braços.
— Ele vai descobrir.
— Ele pode me odiar depois, prefiro isso a vê-lo vulnerável.
O silêncio entre os dois não era vazio.
Era cálculo.
Eduardo pegou o telefone novamente.
— Está na hora de lembrar algumas pessoas de onde vem o poder.
Discou o primeiro número.
Não demorou para atenderem.
— Senador Villar.
A voz do outro lado carregava autoridade.
— Eduardo, que surpresa.
— Não gosto de surpresas, senador.
Uma pausa.
— Imagino que esteja se referindo ao evento.
— Seu filho confundiu cortesia com liberdade.
O tom era controlado, mas a ameaça estava ali.
— Augusto é jovem.
— Meu filho também, a diferença é que eu ensino limites.
Silêncio.
Eduardo continuou:
— Nossa empresa de tecnologia fornece sistemas de segurança digital para três ministérios, inclusive o seu.
O senador respirou fundo.
— Está insinuando algo?
— Estou afirmando que interferências indesejadas podem gerar revisões contratuais.
A mensagem foi clara.
Helena observava sem interromper.
— Meu filho não tocará novamente na sua futura nora — o senador respondeu por fim.
Eduardo corrigiu:
— Na namorada do meu filho.
A linha ficou muda por um segundo.
Era uma declaração estratégica.
— Entendido.
Eduardo desligou.
Sem alterar a respiração.
— Um resolvido — disse.
Helena inclinou levemente a cabeça.
— E a garota Gabriela?
Eduardo pegou outro número.
O pai de Gabriela atendeu quase de imediato.
— Eduardo! Que honra.
— Vou direto ao ponto, Roberto.
O homem do outro lado silenciou.
— Sua filha tentou manipular uma situação envolvendo meu filho.
— Deve haver um engano…
— Não há.
Eduardo caminhava pelo quarto enquanto falava.
— A sua construtora depende diretamente de nossas plataformas de gerenciamento e segurança estrutural.
A respiração do outro lado ficou mais pesada.
— Gabriela é apenas uma adolescente.
— Adolescência não isenta consequências.
Helena aproximou-se, falando pela primeira vez.
— Nós não nos opomos a amizades, Roberto, mas não toleramos jogos.
A voz dela era suave.
E infinitamente mais perigosa.
— Eu… conversarei com ela imediatamente.
Eduardo concluiu:
— Faça isso, ou conversaremos sobre contratos.
Desligou.
O quarto voltou ao silêncio.
Helena observou novamente as imagens na tela.
Laura correndo na areia.
Henrique olhando para ela como se o mundo estivesse ali.
— Ela não parece interesseira — Helena comentou.
Eduardo ficou em silêncio por alguns segundos.
— Não parece.
— Então o problema não é ela.
Ele voltou os olhos para a tela.
— O problema é o mundo ao redor.
Helena tocou levemente o braço dele.
— Você está protegendo demais.
— Estou protegendo o legado.
— E se o legado depender da felicidade dele?
Eduardo olhou para a esposa.
Era raro que discordassem.
— Você acha que isso é amor?
Helena observou a foto ampliada.
Henrique sorrindo de um jeito que ela não via desde criança.
— Eu acho que ele nunca assumiu ninguém antes.
Eduardo respirou fundo.
— Justamente por isso é perigoso.
Mais cedo Henrique deitou na areia ao lado de Laura, os dedos entrelaçados aos dela.
Ele não fazia ideia de que, a milhares de quilômetros dali, decisões estavam sendo tomadas.
Laura fechou os olhos, sentindo o sol no rosto.
— Você já pensou em largar tudo?
Ele abriu um olho.
— Tudo o quê?
— Empresa, nome, pressão.
Ele riu de leve.
— Eu não posso largar algo que nasceu comigo.
Ela virou o rosto para ele.
— Mas você pode escolher como carregar.
Ele ficou pensativo.
Sem saber que o pai já estava escolhendo por ele.
No Japão, Eduardo desligou o tablet.
— Mantenha os seguranças a distância suficiente para não interferir — ordenou pelo telefone.
— Sim, senhor.
Helena aproximou-se da janela.
— Eles estão felizes hoje.
Eduardo observou o céu começando a clarear sobre Tóquio.
— Que aproveitem.
Ela virou o rosto lentamente.
— Isso soa como um aviso.
Ele não respondeu.
Porque no fundo sabia:
Poder protege.
Mas também cobra.
E se Henrique estivesse se apaixonando de verdade…
O império Gates precisaria decidir se protegeria o sobrenome.
Ou o filho.
E essa escolha…
Ainda estava longe de ser feita.