Entre aulas e amarras

1247 Words
Os dias em Massachusetts começaram a ganhar ritmo antes mesmo que Laura percebesse. O despertador tocava às seis e meia da manhã, sempre acompanhado do som abafado da cidade acordando lá fora, No início, ela demorava alguns segundos para lembrar onde estava, o teto branco, a luz fria atravessando as cortinas, o aquecedor murmurando baixo. Então vinha a memória. Estados Unidos. Intercâmbio. Nova vida. Ela se levantava devagar, prendia o cabelo num coque despretensioso e caminhava até a cozinha ainda sonolenta, O cheiro do café que aprendera a fazer do jeito certo já fazia parte da rotina, Enquanto a cafeteira trabalhava, ela abria o celular. Uma mensagem de Henrique quase sempre já estava ali. "Bom dia, futura CEO." Ou: "Sonhei que você perdeu o ônibus, Acorda." Ou simplesmente: "Te vejo às 8." Ela sorria todas as vezes. Henrique morava no campus da universidade, O dormitório não era luxuoso como a mansão que deixara para trás, mas ele adorava, dividia o quarto com um estudante americano chamado Daniel, que falava alto demais e estudava ouvindo música clássica. — Ele é esquisito — Henrique comentou uma vez, rindo. — Mas é um gênio em Direito Constitucional. As aulas começavam às oito em ponto. O ritmo era intenso. Leituras extensas, debates acalorados, professores que desafiavam cada argumento. Henrique voltou a sentir aquela pressão saudável que sempre buscara — não a cobrança do sobrenome, mas a exigência acadêmica. Ele gostava disso. Sentava-se sempre nas primeiras fileiras, anotava tudo, participava, pela primeira vez, ninguém o conhecia como “filho de”, Ele era apenas mais um aluno tentando se destacar. E estava conseguindo. Laura, por sua vez, vivia duas realidades. Pela manhã, frequentava o colégio ligado ao programa de intercâmbio, às aulas eram dinâmicas, participativas, cheias de apresentações e projetos, no começo, teve dificuldade com o ritmo do inglês acadêmico, mas em poucas semanas já falava com naturalidade. Havia feito amizade com uma mexicana chamada Sofia e um coreano chamado Min-Jae. Eles almoçavam juntos quase todos os dias, trocando histórias culturais e rindo das diferenças. — No Brasil a gente abraça todo mundo — Laura explicou certa vez. — Aqui a gente aperta a mão — Sofia respondeu, divertida. À tarde, Laura seguia para o estágio. Conseguiu uma vaga em um programa de imersão administrativa ligado à universidade, com foco em gestão e inovação empresarial. Não era exatamente dentro da graduação ainda, mas era próximo o suficiente para abrir portas. O primeiro dia foi assustador. Sala de reuniões de vidro, pessoas andando rápido, conversas técnicas. Ela respirou fundo antes de entrar. "Viva intensamente." As palavras da mãe não saíam da cabeça. Com o tempo, Laura começou a se destacar, não por arrogância ou sobrenome, mas por observação, ela fazia perguntas inteligentes, anotava detalhes, escutava mais do que falava. E quando falava, era precisa. Henrique passou a buscá-la algumas tardes. Ele chegava encostado na parede do prédio, mochila nas costas, mãos nos bolsos, fingindo casualidade. — Está me perseguindo? — ela provocava. — Estou garantindo que você não seja sequestrada por empresários interessados na sua genialidade. Eles caminhavam até uma lanchonete próxima, pediam hambúrgueres simples, batatas fritas, milkshakes enormes. Riam. Falavam das aulas. — Meu professor disse que Direito é sobre interpretação, não sobre verdade absoluta — Henrique comentou certa vez. — Ele está certo. — E você? Aprendeu o quê hoje? — Que liderar não é mandar, é saber quem colocar em cada lugar. Henrique a observou com um sorriso enviesado. — Você está virando uma estrategista perigosa. — Eu já era, só não tinha palco. À noite, cada um voltava para sua rotina. Henrique estudava na biblioteca até tarde. Laura revisava relatórios do estágio ou fazia trabalhos do colégio. Mas quase sempre havia um momento que era só deles. Às vezes, ele ia até o apartamento dela. Outras vezes, ela dormia no dormitório dele, ignorando as regras com um cuidado adolescente. Dividiam pizza fria na cama. Assistiam séries sem prestar atenção. Falavam sobre o futuro como se ele não fosse uma ameaça, mas uma construção possível. Os finais de semana eram diferentes. Sem horários rígidos. Sem despertadores. Eles exploravam a cidade. Museus, parques cobertos de folhas secas, cafeterias escondidas, livrarias antigas. Henrique adorava visitar prédios históricos da universidade, imaginando-se parte daquela tradição. Laura gostava de observar pessoas. — Olha aquela mulher ali — ela dizia, apontando discretamente. — Aposto que ela é professora de literatura. — Como você sabe? — Ela anda como quem carrega histórias na cabeça. Henrique ria. — Você nasceu pra escrever sobre pessoas. Ela apenas sorria. Talvez fosse verdade. O relacionamento deles ganhou uma nova maturidade. Sem interferências externas. Sem olhares da escola. Sem julgamentos familiares. Eles discutiam, sim. Sobre prioridades. Sobre tempo. Sobre ciúmes ocasionais — especialmente quando colegas se aproximavam demais. Mas aprendiam a resolver. Conversavam. Escutavam. Não havia mais impulsividade adolescente. Havia escolha. Eles escolhiam ficar. Todos os dias. Em uma noite fria de sexta-feira, estavam sentados no chão do apartamento de Laura, encostados no sofá, dividindo um cobertor. A cidade brilhava pela janela. — Você percebe como estamos felizes? — ela perguntou de repente. Henrique olhou para ela. — Eu estava pensando exatamente nisso. — Não é uma felicidade explosiva. — Não. — É tranquila. Ele assentiu. — É a sensação de estar no lugar certo. Laura apoiou a cabeça no ombro dele. — Se alguém me dissesse há um ano que eu estaria aqui… — Você teria acreditado? Ela pensou por alguns segundos. — Eu teria desejado, mas não acreditado. Henrique segurou a mão dela. — Eu nunca me senti tão… eu. Ela sorriu. — Porque aqui você não é herdeiro, nem promessa, nem responsabilidade. — Sou só Henrique. — E eu sou só Laura. Silêncio confortável. O tipo de silêncio que não precisa ser preenchido. As semanas passaram assim. Entre provas difíceis. Projetos desafiadores. Relatórios do estágio. Almoços improvisados. Risos no meio da rua. Beijos roubados entre uma aula e outra. Eles cresceram. Sem perceber. Laura tornou-se mais confiante nas decisões profissionais, já participava de reuniões opinando com segurança. Henrique começou a ser notado por professores, um deles sugeriu que ele se candidatasse a um grupo de pesquisa jurídica. — Você tem perfil para liderança acadêmica — o professor disse. Henrique contou a Laura naquela noite. — Eu sabia — ela respondeu, orgulhosa. — Você nasceu pra isso. Ele a puxou pela cintura. — E você nasceu pra comandar impérios. Ela riu. — Um passo de cada vez. Mas, pela primeira vez, o futuro não parecia pesado. Parecia possível. Em um domingo qualquer, enquanto caminhavam pelo campus coberto por uma fina camada de neve recente, Henrique parou. — Vamos fazer uma promessa de novo? Laura sorriu. — Você gosta disso. — Gosto de marcar momentos. Ela cruzou os braços. — Qual é a promessa agora? Ele olhou ao redor. Estudantes rindo. Casais caminhando. O mundo acontecendo. — Que, independentemente de onde a vida leve a gente depois daqui… a gente nunca esqueça quem fomos aqui. Laura sentiu o coração aquecer. — Dois jovens vivendo sem medo. — Dois jovens escolhendo felicidade. Ela segurou o rosto dele com as mãos frias. — Prometo. Ele a beijou ali mesmo, sob o frio leve de Massachusetts, sem plateia, sem drama. Apenas dois adolescentes vivendo a fase mais intensa de suas vidas. E, enquanto a neve começava a cair de forma quase tímida, Laura pensou que a mãe tinha razão. Ela nunca mais teria uma oportunidade igual àquela. E estava vivendo cada segundo.
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