O que o silêncio diz

983 Words
Os dias depois do hospital foram lentos. Não dramáticos. Não intensos. Lentos. Laura passou a maior parte do tempo em casa, entre o sofá da sala e a própria cama, a médica recomendou repouso, hidratação, nada de excessos. A mãe seguiu tudo à risca, como se pudesse compensar o susto com controle absoluto. O celular ficava sempre por perto. Mas não vibrava como ela queria. Tereza aparecia quase todos os dias, ás vezes com doces, às vezes com filmes, às vezes apenas com a própria presença espalhafatosa tentando quebrar o clima pesado da casa. — Você está com cara de quem está pensando demais. — Tereza disse numa tarde, jogando-se na cama ao lado dela. Laura forçou um sorriso. — Eu sempre penso demais. Mas não era sobre a festa. Nem sobre a escola. Nem sobre Raiana. Era sobre ele. Henrique não tinha aparecido. Não tinha ligado. Não tinha mandado mensagem. Nada. O último contato tinha sido no hospital. O “eu me importo” dito quase como confissão. E depois… silêncio. E o silêncio dele era pior do que qualquer provocação. — Você já falou com meu irmão? — Tereza perguntou, fingindo casualidade demais. Laura fingiu que não sentiu o peso da pergunta. — Não. — Ele anda estranho. Ela ergueu o olhar. — Estranho como? Tereza deu de ombros. — Quieto, mais do que o normal, meu pai viajou essa semana pra fechar negócio no Japão, minha mãe foi junta, eles vão ficar três meses lá organizando expansão da empresa. — Ela suspirou. — E o Henrique praticamente sumiu dentro de casa. Três meses. Laura absorveu a informação devagar. — Vocês vão ficar sozinhos? — Com segurança, motorista, funcionários… você sabe como é. — Tereza revirou os olhos. — Mas minha mãe fez um drama antes de ir. Falou que a gente precisava “amadurecer”. Laura pensou na própria mãe. Dona Sônia tinha comentado algo parecido quando Tereza contou da viagem. — Ela ficou com dó de vocês. — Laura disse, lembrando da conversa. — Mas falou que vocês estão mais protegidos do que muita gente. Tereza sorriu de lado. — Sua mãe é a pessoa mais lúcida que eu conheço. Silêncio de novo. Laura pegou o celular, desbloqueou a tela, olhou para a conversa fixa no topo. Nada. Nenhuma mensagem nova. — Você queria que ele tivesse ido te ver, né? — Tereza perguntou, agora sem fingir. Laura demorou a responder. — Eu não sei o que eu queria. Mas sabia. Queria que ele tivesse ido. Queria que tivesse insistido. Queria que tivesse mostrado que o “eu me importo” não era impulso do momento. — Meu irmão não sabe lidar quando as coisas saem do controle — Tereza disse, mais séria agora. — E você quase saiu. A frase ficou no ar. Laura engoliu seco. Talvez fosse isso. Talvez Henrique estivesse se afastando porque teve medo. Ou porque viu algo que não gostou. Ou porque percebeu que não era o único capaz de segurá-la. O pensamento em Guilherme surgiu rápido e confuso, la lembrava do rosto dele, da voz calma, da firmeza ao segurá-la. Era só um fragmento. Diferente de Henrique. Henrique era capítulo inteiro. — Mudando de assunto — Tereza bateu palmas de repente. — Seu aniversário está chegando. Laura piscou. — Nem me lembra. — Pelo contrário. Eu vou lembrar muito. — Tereza… — Não, esse ano você não vai fingir que é só “mais um dia”. Você quase morreu, Laura, a gente vai comemorar você estar viva. Ela revirou os olhos, mas não conseguiu segurar o sorriso. — Eu não quase morri. — Na minha cabeça, quase. Tereza sentou mais ereta na cama, animada. — Eu estava pensando numa festa pequena, só gente que importa, na nossa casa. Laura arregalou os olhos. — Na sua casa? — Meus pais estão no Japão, a casa é praticamente nossa pelos próximos três meses. A ideia parecia grande demais. — Eu não sei se é uma boa. — É ótima, você precisa de algo leve depois de tudo. Laura hesitou. Parte dela queria algo tranquilo, bolo simples, a mãe ao lado, talvez Raiana. Outra parte queria provar que ainda podia ocupar aquele espaço. Que não tinha sido apenas visitante. — Minha mãe vai surtar. — Eu falo com ela. E, como sempre, Tereza falava com convicção de quem já tinha decidido. Naquela noite, Dona Sônia ouviu a proposta com atenção. — Festa na casa deles? — perguntou, desconfiada. — Vai ter segurança, funcionários, tudo organizado — Tereza explicou com calma surpreendente. — Eu prometo que nada do que aconteceu vai se repetir. A mãe de Laura olhou para a filha. — Você quer isso? Laura pensou por alguns segundos. Queria comemorar. Queria sentir que estava viva. Queria, talvez, ver Henrique. — Quero. Dona Sônia suspirou. — Eu tenho medo desse mundo. A sinceridade doeu. — Eu sei. — Mas eu também não quero que você viva com medo dele. A frase ficou marcada. No fim, ela autorizou. Com regras. Com horário. Com mil recomendações. Mas autorizou. Na noite em que Tereza foi embora, Laura ficou sozinha no quarto. Pegou o celular mais uma vez. Abriu a conversa com Henrique. Digitou. Apagou. Digitou de novo. “Você sumiu.” Apagou. Não queria parecer carente. Não queria parecer dependente. Mas também estava cansada de fingir que não se importava. No fim, não enviou nada. Colocou o celular de lado e ficou olhando para o teto. O silêncio dele dizia coisas demais. Dizia que ele estava fugindo. Dizia que estava confuso. Ou que estava escolhendo distância. E pela primeira vez desde que tudo começou, Laura sentiu algo diferente da intensidade. Sentiu insegurança. Seu aniversário estava chegando. E, junto com ele, a sensação de que algo precisava mudar. Ela só não sabia ainda se seria o mundo ao redor. Ou o lugar que Henrique ocupava dentro dela.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD