Capítulo 15 — A Reunião que Virou Armadilha

1166 Words
A manhã amanheceu com o som de notificações. A notícia explodira em todos os portais internacionais: “Aurora Villar e Cássio Montenegro manipularam auditoria para favorecer interesses próprios.” O texto era assinado por um jornalista ligado a um conglomerado europeu — um que, coincidentemente, mantinha vínculos comerciais com Laurent Holdings. O nome de Isadora não aparecia. Mas o rastro dela estava por toda parte. As manchetes se multiplicavam: “A mulher que virou o jogo… agora acusada de trapaça.” “Aurora e Cássio: da ética à conivência?” “A nova face da corrupção moral.” Em menos de três horas, as ações do grupo despencaram mais 15%. E os diretores internos começaram a se distanciar. Ninguém queria ser associado ao “casal da crise”. ⸻ Às 10h17, um oficial bateu à porta do escritório de Aurora. — Notificação da promotoria. Comparecimento obrigatório. Depoimento conjunto. Ela leu o documento. Sem expressão. Depoimento conjunto. Com ele. Era claro o que Isadora queria: colocar os dois lado a lado, forçando-os a se contradizer diante das câmeras. Ela respirou fundo, fechou o arquivo e disse apenas: — Muito bem. Querem espetáculo? Vão ter espetáculo. ⸻ Cássio recebeu a mesma notificação vinte minutos depois. O advogado tentou reagir. — Isso é provocação! Você não precisa se submeter. — Preciso, sim. — respondeu, calmo. — Quem se esconde confirma culpa. Mas por dentro, algo doía de forma nova. Porque agora, ele seria julgado ao lado dela. E o pior? Ele sabia que ela não o defenderia. ⸻ O salão da promotoria estava abarrotado. Jornalistas, câmeras, câmeras escondidas, microfones. Aurora chegou primeiro. Cabelo preso em um coque impecável. Sem maquiagem visível. Rosto limpo. Frio. Quando Cássio entrou, os flashes dobraram. As manchetes já estavam prontas antes mesmo do depoimento começar. “Inimigos reunidos. A tensão que movimenta o império.” A promotora abriu o documento. — Senhorita Villar, senhor Montenegro, ambos estão sendo investigados por colaboração indevida e omissão em relatório interno. Desejam fazer declaração inicial? Aurora pousou a pasta sobre a mesa e respondeu, com a calma de quem ensaia silêncio. — Desejo esclarecer que meu contato com o senhor Montenegro foi limitado à busca por transparência. Se a transparência ofende, é um problema do sistema — não meu. A promotora arqueou a sobrancelha. — E o senhor Montenegro? Ele olhou para Aurora. Ela nem piscou. — Concordo — respondeu. — O sistema precisa aprender que integridade não depende de sobrenome. Ela o encarou brevemente. Era quase imperceptível, mas ele viu nos olhos dela: ela o usava como escudo verbal — e como arma ao mesmo tempo. ⸻ O depoimento durou quase duas horas. A promotora tentava encontrar contradições. Mas Aurora falava como se tivesse escrito o relatório da promotoria antes dela. Frases afiadas, milimetricamente frias. Cássio apenas confirmava, sustentava, endossava. Sem tentar se sobrepor. Sem reivindicar mérito. E isso o tornava ainda mais desconfortável. Porque a nova versão de Aurora não era a mulher que ele queria proteger. Era a mulher que agora o controlava com palavras. ⸻ Quando o depoimento terminou, os dois foram conduzidos à antessala. Portas trancadas. Jornalistas aguardando lá fora. Silêncio tenso. Ela abriu a pasta e começou a revisar anotações, como se ele não estivesse ali. Cinco minutos. Dez. Quinze. Até que ele quebrou o silêncio. — Você devia ter me avisado do artigo. — Não era meu trabalho te avisar. — Achei que estivéssemos do mesmo lado. Ela levantou os olhos, devagar. — Nós não temos lado. Eu tenho causa. Você tem culpa. O golpe foi direto, seco, e o olhar dela… não tremia. Ele se recostou na cadeira. — Você gosta de me ver sangrar, não é? Ela inclinou a cabeça levemente. — Eu gosto de ver homens poderosos sentirem o gosto do que fizeram mulheres sentirem por décadas: impotência. Silêncio. Tenso. Cortante. Impossível de revidar. ⸻ Uma secretária entrou, ofegante. — Senhora Villar, senhor Montenegro… há protestos do lado de fora. A imprensa cercou o prédio. O juiz recomendou que aguardem o encerramento para sair com escolta. Aurora cruzou as pernas, calma. — Então esperemos. Cássio respirou fundo. — Você parece se divertir com isso. Ela o olhou de lado. — Eu aprendi a transformar humilhação em espetáculo. A diferença é que, agora, sou eu quem escreve o roteiro. ⸻ Do lado de fora, o barulho crescia. — “Aurora Villar é fraude!” — “Ela destruiu a empresa!” — “Cássio cúmplice!” Ela não se moveu. Mas Cássio percebeu o tremor leve nos dedos dela. Ele se aproximou, devagar. — Está tremendo. — Estou com raiva, não com medo. Ele tirou o paletó e colocou sobre os ombros dela. Ela congelou. — Não preciso da sua p******o. — Não é p******o. É distração. Eles estão filmando até seu cansaço. Ela olhou para ele, pela primeira vez com algo que não era desprezo. Mas não respondeu. E, pela primeira vez, ela não o afastou. ⸻ Quando o oficial liberou a saída, o corredor parecia um campo de guerra. Flashes. Gritos. Empurrões. Os dois caminharam lado a lado. Ela firme. Ele silencioso. Um repórter avançou com microfone em punho: — Senhorita Villar! O senhor Montenegro ainda faz parte da sua estratégia? Aurora parou. Cássio parou também. Os flashes iluminaram o rosto dela. E ela respondeu, sem hesitar, olhando direto para as câmeras: — Ele nunca fez parte da minha estratégia. — Ele foi apenas uma variável que eu aprendi a controlar. A frase reverberou como uma explosão. Os repórteres vibraram. Os flashes dispararam. E Cássio… ficou parado. Nem raiva. Nem vergonha. Apenas o peso de saber que aquela era a punição exata que merecia — e ela sabia disso. ⸻ Horas depois, a cena estava em todos os canais. Os analistas corporativos comentavam a “frieza magistral” de Aurora Villar. O público dividia opiniões. Mas ninguém ignorava o que vira. Ela havia redefinido a palavra poder. ⸻ No apartamento, Aurora sentou-se diante da janela, sozinha. As luzes da cidade refletiam no vidro. Ela ainda ouvia as vozes da multidão ecoando na mente. “Controlar”, ela dissera. Mas dentro dela, algo não estava sob controle. Um arrepio de culpa, talvez. Ou uma lembrança de que ele não reagira. Nenhuma raiva. Nenhum ataque. Ele apenas aceitou. E isso, paradoxalmente, a desestabilizou. Porque, por um segundo, ela viu o homem que ele podia ser. Mas apagou o pensamento. Ela não podia fraquejar agora. Ela tinha guerra para vencer. ⸻ Do outro lado da cidade, Cássio assistia à gravação do momento. Repetiu várias vezes. “Apenas uma variável que eu aprendi a controlar.” E sorriu. Um sorriso leve, amargo. — Então me controle, Aurora — murmurou para si. — Vamos ver até onde consegue sem se perder no processo. O jogo estava longe de acabar. Mas, dessa vez, ele não queria vencê-la. Queria sobreviver a ela. E, no fundo, parte dele sabia: ninguém sai ileso de amar uma mulher que aprendeu a transformar dor em estratégia.
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