O silêncio dentro da sala de reuniões parecia pesado.
Não era um silêncio comum.
Era o tipo de silêncio que existia quando alguém estava sendo observado.
Cássio percebeu isso no momento em que entrou.
A sala era enorme. Vidros do chão ao teto. Vista para a cidade inteira. Uma mesa longa de madeira escura no centro.
Mas não era o lugar que causava tensão.
Era Aurora Valença.
Ela estava sentada na cabeceira da mesa, completamente tranquila.
Elegante.
Impecável.
Fria.
Um vestido preto perfeitamente ajustado ao corpo. Os cabelos presos em um coque firme. Nenhum gesto desnecessário.
Mas os olhos…
Os olhos dela estavam nele.
Observando.
Calculando.
Estudando cada movimento.
Cássio caminhou até a mesa com passos firmes.
Ele já tinha entendido uma coisa importante:
Aurora nunca fazia nada por acaso.
Se ela o chamou ali…
Era porque algo estava prestes a acontecer.
— Sente-se — ela disse, sem levantar a voz.
Ele puxou a cadeira.
Sentou.
Aurora não falou nada por alguns segundos.
Apenas deslizou um tablet pela mesa até parar diante dele.
— Leia.
Cássio pegou o tablet.
Era um relatório financeiro.
Mas não era um relatório qualquer.
Era sobre uma empresa rival.
Uma empresa que vinha crescendo rápido demais nos últimos meses.
Cássio reconheceu o nome imediatamente.
— Você quer comprar eles? — perguntou.
Aurora inclinou levemente a cabeça.
— Não.
Silêncio.
— Quero destruir.
A frase veio calma.
Quase casual.
Mas havia algo frio demais nela.
Cássio levantou os olhos.
— Por quê?
Aurora apoiou o cotovelo na mesa.
— Porque eles tentaram fazer algo muito e******o.
Ela deslizou outra imagem na tela.
Agora era um registro de reunião.
Um plano.
Uma tentativa de ataque financeiro contra o grupo Valença.
Cássio soltou um pequeno sopro de ar.
— Eles estavam tentando te derrubar.
— Sim.
— E falharam.
Aurora cruzou as pernas.
— Ainda não.
Ele franziu a testa.
— Ainda não?
Aurora apoiou o queixo nos dedos.
— Ataques desse tipo nunca acontecem uma vez só.
Ela olhou diretamente para ele.
— Eles estão testando fraqueza.
Cássio entendeu.
Aurora não estava preocupada.
Ela estava caçando.
— Então qual é o plano? — perguntou.
Aurora sorriu levemente.
Mas era um sorriso perigoso.
— O plano… é você.
Cássio não reagiu imediatamente.
— Explique.
Aurora levantou-se da cadeira.
Caminhou lentamente ao redor da mesa.
Os saltos ecoavam no chão de mármore.
Ela parou atrás dele.
— Você trabalhou anos no mercado deles.
Silêncio.
— Conhece as estratégias.
— Conhece os erros.
Ela colocou uma pasta sobre a mesa.
— E conhece a arrogância deles.
Cássio abriu a pasta.
Documentos.
Mapas de investimento.
Estratégias.
Ele entendeu em segundos.
Aurora queria que ele liderasse o ataque.
Não um ataque simples.
Um ataque perfeito.
— Você quer que eu derrube eles por dentro — disse.
Aurora voltou para a cabeceira da mesa.
— Exatamente.
Cássio fechou a pasta.
— E o que você ganha com isso?
Aurora sorriu novamente.
— Controle.
— Total.
Ele ficou alguns segundos em silêncio.
Depois perguntou:
— E o que eu ganho?
Aurora o observou como se analisasse uma peça de xadrez.
— Você ganha algo que ainda não tem.
Cássio arqueou a sobrancelha.
— O quê?
Ela respondeu sem hesitar.
— Confiança.
O ar pareceu ficar mais pesado.
Cássio soltou uma pequena risada.
— Então isso é um teste.
Aurora inclinou a cabeça.
— Tudo com você é um teste.
Ele a encarou.
— Você gosta de me colocar nessas posições.
— Eu gosto de ver até onde você aguenta.
Silêncio.
Cássio apoiou os cotovelos na mesa.
— E se eu falhar?
Aurora respondeu imediatamente.
— Você volta para onde estava antes.
— Fora.
Direto.
Frio.
Sem emoção.
Ele respirou fundo.
— Você realmente não facilita nada.
Aurora respondeu com calma:
— Eu não recompenso promessas.
Ela apontou para a pasta.
— Recompenso resultados.
Cássio pegou os documentos novamente.
Começou a folhear.
Quanto mais lia…
Mais percebia o tamanho do jogo.
Aquilo não era apenas um ataque financeiro.
Era uma guerra estratégica completa.
Aquisições silenciosas.
Manipulação de mercado.
Isolamento de investidores.
Pressão jurídica.
Aurora queria esmagar a empresa lentamente.
Sem que eles percebessem.
Sem escândalo.
Sem barulho.
Quando percebessem…
Já seria tarde.
Cássio levantou os olhos.
— Isso vai levar meses.
Aurora respondeu:
— Eu tenho tempo.
— Eles não.
Ele observou o rosto dela.
Havia algo fascinante na forma como Aurora operava.
Ela não reagia.
Ela antecipava.
— Você já começou esse plano — disse ele.
Ela não negou.
— Sim.
— Então por que me colocar nele agora?
Aurora respondeu:
— Porque chegou a parte difícil.
Cássio sorriu.
— A parte suja?
Aurora levantou uma sobrancelha.
— A parte inteligente.
Silêncio.
Ele pensou por alguns segundos.
Depois fechou a pasta.
— Eu aceito.
Aurora não demonstrou surpresa.
Ela já sabia que ele aceitaria.
— Ótimo — disse.
Então apertou um botão na mesa.
A porta da sala abriu.
Três executivos entraram.
Todos olharam para Cássio.
Aurora falou com naturalidade:
— Senhores, a partir de hoje Cássio Andrade lidera a operação Phoenix.
Os executivos trocaram olhares.
Um deles perguntou:
— Ele tem autonomia total?
Aurora respondeu sem hesitar:
— Não.
Silêncio.
Ela continuou:
— Ele tem autonomia suficiente.
Cássio soltou uma pequena risada.
— Claro que tem limites.
Aurora virou os olhos para ele.
— Sempre.
Um dos executivos perguntou:
— E quem supervisiona a operação?
Aurora respondeu:
— Eu.
Os homens assentiram.
Reunião encerrada.
Eles saíram da sala.
Agora só restavam Aurora e Cássio novamente.
O silêncio voltou.
Cássio se levantou.
— Então é assim que você me prende aqui.
Aurora cruzou os braços.
— Eu não prendo ninguém.
— As pessoas escolhem ficar.
Ele caminhou até ela.
Parou a poucos passos.
— Você gosta disso.
— Do quê?
— De me testar.
Aurora respondeu calmamente:
— Eu gosto de ver quem quebra primeiro.
Cássio inclinou levemente a cabeça.
— E você acha que sou eu?
Aurora deu dois passos em direção a ele.
Agora estavam muito próximos.
Ela falou baixo.
— Eu tenho certeza.
Cássio sorriu.
Mas não era um sorriso seguro.
Era um sorriso desafiador.
— Vamos descobrir.
Aurora pegou a pasta da mesa e colocou nas mãos dele.
— Comece amanhã.
Ele pegou os documentos.
— Você realmente acredita que eu posso vencer essa guerra?
Aurora respondeu sem hesitar.
— Sim.
Ele ficou surpreso por um segundo.
— Então você confia em mim.
Aurora virou-se para sair da sala.
Mas parou antes da porta.
E disse algo que fez o estômago dele apertar.
— Eu confio no quanto você quer provar que merece ficar.
Silêncio.
A porta se fechou.
Cássio ficou sozinho na sala.
Segurando a pasta.
Observando a cidade lá fora.
Ele finalmente entendeu algo importante.
Aurora não estava apenas testando ele.
Ela estava fazendo algo muito mais c***l.
Ela estava colocando o futuro dele inteiro dentro das mãos dela.
E quanto mais ele lutava para provar seu valor…
Mais preso ficava.
Cássio soltou um suspiro longo.
Depois murmurou para si mesmo:
— Você é perigosa demais, Aurora.
Do outro lado do corredor…
Aurora caminhava calmamente.
Mas um pequeno sorriso apareceu em seus lábios.
O jogo estava ficando interessante.
Porque agora Cássio não estava apenas tentando reconquistar Aurora.
Ele estava tentando sobreviver dentro do mundo dela.
E naquele mundo…
Só existiam dois tipos de pessoas.
As que venciam.
E as que eram descartadas.