Capítulo 4 — O Nome Que Não Deveria Voltar

1096 Words
A crise começou às seis e quarenta da manhã. Cássio estava no carro quando o telefone tocou pela terceira vez em menos de dois minutos. O diretor financeiro não costumava ligar naquele horário. — Fale. A voz do outro lado não soava estável. — Temos um problema grave. A auditoria interna encontrou inconsistências em contratos internacionais fechados há quatro anos. Se isso vazar, pode virar investigação formal. Cássio ficou em silêncio por um segundo. Quatro anos. Antes da gestão direta dele. Mas ainda sob o nome Montenegro. — Valores? — Altos o suficiente para chamar atenção da imprensa. E talvez da promotoria. O dia m*l havia começado. E o império já estava sob ameaça. ⸻ Duas horas depois, a sala do conselho estava em tensão absoluta. Documentos espalhados. Telefones vibrando. Executivos murmurando projeções pessimistas. Aurora entrou por último. Ela percebeu imediatamente que não era uma reunião comum. — O que aconteceu? Cássio não fez rodeios. — Desvio estratégico mascarado em contratos internacionais antigos. Se for caracterizado como fraude, o nome da empresa afunda. Ela absorveu a informação rapidamente. — Quem assinou? O diretor financeiro respondeu: — Na época, o responsável era o antigo diretor de expansão. Aurora congelou por um segundo. — Nome. — Ricardo Villar. O ar saiu do pulmão dela como se tivesse sido arrancado. Seu pai. Cássio percebeu a mudança mínima na expressão dela. Foi sutil. Mas ele viu. — Isso não prova culpa — ele disse, firme. Mas o dano estava feito. O sobrenome dela agora estava oficialmente ligado à crise. ⸻ Como se a situação não fosse suficiente, o segundo golpe veio ao meio-dia. Ela entrou na sala sem anunciar. Alta. Elegante. Impecável em um vestido branco que gritava superioridade silenciosa. Isadora Laurent. Ex-noiva de Cássio Montenegro. Socialite influente. Herdeira de um conglomerado europeu. Mulher que havia terminado o noivado quando percebeu que ele nunca a amaria — apenas a manteria como peça estratégica. — Que surpresa desagradável — Cássio murmurou. Ela sorriu com frieza calculada. — Eu diria o mesmo, mas crises me atraem. Aurora estava presente. Observando. Isadora a analisou da cabeça aos pés. — Então você é a famosa diretora. O tom era polido. Mas carregado de intenção. — E você é a ex-noiva — Aurora respondeu com neutralidade perfeita. Cássio fechou o maxilar. — O que você quer, Isadora? Ela caminhou lentamente pela sala. — Meu pai soube da possível investigação. Ele está reconsiderando investimentos conjuntos com sua empresa. Claro. Aquilo não era visita social. Era pressão. — Estamos resolvendo internamente — Cássio disse. — Internamente? — Isadora inclinou a cabeça. — Com o sobrenome Villar envolvido? O golpe foi cirúrgico. Aurora não reagiu. Mas Cássio sentiu a tensão no ar. — Cuidado com as insinuações — ele avisou. Isadora sorriu. — Não estou insinuando. Estou avaliando risco. Ela voltou o olhar para Aurora. — Deve ser difícil ver o nome do próprio pai ligado a algo assim. O silêncio foi afiado. Aurora finalmente falou: — Deve ser difícil não ter nada além de sobrenome para oferecer. Isadora piscou devagar. Não esperava resistência tão limpa. Cássio quase… sorriu. Mas conteve. Isadora recuperou a postura. — Meu pai está disposto a ajudar a conter o escândalo. Mas precisaremos de garantias. Mudanças estruturais. Talvez afastamentos estratégicos. Ela não precisava dizer. O alvo estava claro. Aurora. ⸻ Depois que Isadora saiu, o silêncio na sala foi pesado. Cássio virou-se para Aurora. — Eu não sabia que o nome do seu pai estava nos contratos. — Eu também não. A resposta foi direta. Sem vitimização. Mas havia algo por trás dos olhos dela agora. Não era medo. Era ferida antiga. — Você acredita que ele faria isso? — Cássio perguntou. Ela demorou a responder. — Meu pai cometeu erros financeiros no passado. Mas nunca desvio criminoso. Se o nome dele está ali, há contexto. O telefone de Cássio vibrou. Notícia preliminar já circulando em portais financeiros. A palavra “fraude” apareceu pela primeira vez. O tempo estava acabando. ⸻ No fim da tarde, o conselho sugeriu oficialmente o afastamento temporário de Aurora “para preservar a imagem da empresa”. Cássio sentiu a pressão crescer. Era estratégico. Era lógico. Era c***l. Aurora estava sentada à frente dele quando a sugestão foi formalizada. Ela não implorou. Não pediu defesa. Apenas ouviu. Cássio percebeu algo naquele momento que nunca havia percebido antes: Ela estava preparada para sair. Não por medo. Mas por dignidade. — Não haverá afastamento — ele declarou. A sala congelou. — Cássio — um investidor começou. — Não haverá afastamento sem prova concreta. Não sacrificarei uma profissional por especulação. O risco que ele assumia era real. Investidores poderiam recuar. Isadora poderia intensificar pressão. Mas pela primeira vez, ele não estava calculando apenas lucro. Estava escolhendo lado. Aurora olhou para ele. E viu algo diferente. Não controle. Proteção. ⸻ Horas depois, já noite, ela entrou no escritório dele. — Você não precisava fazer isso. — Eu sei. — Pode custar caro. Ele deu um meio sorriso cansado. — Estou começando a entender que nem tudo é sobre custo. O silêncio que se instalou não era mais de confronto. Era vulnerabilidade. — Se descobrirem algo real contra meu pai… — ela começou. — Então enfrentaremos juntos. A palavra saiu antes que ele pudesse filtrar. Juntos. Aurora percebeu. Ele também. Não era mais CEO e diretora. Era homem e mulher no meio de uma tempestade. — Isadora não vai parar — ela disse. — Eu sei. — Ela quer que eu caia. — Ela quer me pressionar. Aurora o estudou. — Você ainda tem algo com ela? A pergunta foi calma. Mas carregava peso. — Não. Sem hesitação. — Nunca tive o que pensei que tinha. E, pela primeira vez, não parecia arrogância. Parecia arrependimento. ⸻ Enquanto isso, Isadora fazia sua própria movimentação. Ela tinha cópias de documentos antigos. E sabia exatamente como alimentar a imprensa sem sujar as próprias mãos. Se Aurora caísse, Cássio enfraqueceria. E um homem enfraquecido toma decisões ruins. Ela estava apostando nisso. ⸻ O capítulo termina com uma mensagem anônima enviada ao celular de Aurora naquela madrugada. Um documento anexado. Assinatura digital. Data antiga. E uma observação escrita em vermelho: “Seu pai assumiu a culpa para proteger alguém.” Aurora sentiu o mundo inclinar. Se o pai dela não era o verdadeiro responsável… Então quem era? E por que Cássio Montenegro estava no centro daquela época? Ela levantou os olhos para a escuridão do quarto. Pela primeira vez, a crise não era apenas corporativa. Era pessoal. E talvez… Muito mais antiga do que ela imaginava.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD