Annabelle Jones
Estou na cidade que nunca dorme, observando a chuva cair pela janela do meu quarto, enquanto penso na minha vida e em tudo que me aconteceu. Até os meus dez anos, minha infância foi normal. Meu pai e meu irmão achavam que eu era louca. Conheci um homem — ou melhor, um velho — que acreditou nas minhas palavras e me ajudou a me proteger, assim como à minha família. Vou contar desde o começo, para vocês entenderem melhor.
Meu pai é de Nova York e minha mãe do Canadá, de uma cidade pequena, cercada por uma imensa floresta. Ele é filho de um grande empresário nova-iorquino. Em uma viagem de negócios ao Canadá, conheceu minha mãe. Foi amor à primeira vista. Os dois se apaixonaram perdidamente e, em poucos meses, se casaram. Minha mãe se mudou para Nova York com ele.
Meu pai assumiu o lugar do meu avô na empresa de tecnologia — uma das maiores da cidade — e fez com que nosso patrimônio se tornasse milionário. Um ano após o casamento, nasceu meu irmão, Michael Jones. Meus pais, Devi e Ana Jones, planejavam ter um casal de filhos. Cinco anos depois, eu nasci. Minha mãe contava que foi numa noite de tempestade, com raios e trovões. Ela dizia que, naquele momento, ouviu a voz de um anjo sussurrando meu nome: Annabelle.
Eu adorava as histórias que minha mãe contava sobre o lugar onde cresceu. Passávamos nossas férias lá, na casa dos meus avós maternos. Meu irmão sempre foi protetor, estava sempre ao meu lado. Até que um dia me perdi na floresta. Não me lembro de muita coisa, só do enorme lobo que vi. No instante em que o avistei, me encantei. Era belo e feroz. Não senti medo. Seu pelo parecia macio e sedoso. Mas eu estava completamente enganada. Deveria ter sentido medo e me afastado daquela criatura maldita.
Quando eu tinha dez anos, meus pais e eu estávamos voltando da cidade para o rancho do meu avô quando fomos atacados na estrada por três lobos gigantes e sanguinários. Eles avançaram sobre nós, derrubando nosso carro e o fazendo capotar. No momento em que um deles veio me atacar, minha mãe se lançou na frente e recebeu o golpe.
Foi a coisa mais horrível que já vi: o sangue dela jorrava para todos os lados. Meu pai estava preso no carro, desacordado pelo impacto. Eu gritava, chorava, mas aqueles monstros continuavam a atacar minha mãe. De repente, um grito agudo saiu da minha garganta, e os lobos recuaram, fugindo para a floresta.
Tentei acordar minha mãe, mas havia sangue demais. Seu corpo estava todo machucado. Ela não abriu os olhos. Implorei que acordasse, mas ela não reagia. O sangue não parava. Foi então que vi outro lobo — o mesmo que costumava ver nas férias — se aproximar. Ele tentou chegar perto de mim. Gritei de medo e o mandei embora. O monstro fugiu floresta adentro. Pouco depois, os paramédicos chegaram e nos levaram para o hospital.
Minha mãe faleceu naquele dia. Metade do meu pai morreu junto com ela. E quanto a mim... fui tratada como louca. Sempre que gritava que um lobo matou minha mãe, meu pai e meu irmão me olhavam com pena, como se eu estivesse doente por causa do trauma. Meu pai não viu as criaturas, já que estava desacordado, e sempre que eu tentava falar, ele me afastava.
Nunca mais voltei para aquela cidade. Até mesmo o nome do lugar eu apaguei da memória. E, mesmo gostando muito dos meus avós, não queria colocar os pés naquela terra maldita. Os anos passaram, e quando eu tinha quinze anos, conheci um homem que me contou sobre lobisomens, bruxas e outras criaturas sobrenaturais que vivem escondidas entre nós.
Esse homem é um grande caçador. Ele me disse que mata essas criaturas perversas que atacam humanos. Criaturas como aquelas que mataram minha mãe. Ele me orientou a não contar nada ao meu pai ou ao meu irmão — eles jamais acreditariam e poderiam me internar em um hospício.
Passei a ter aulas secretas com ele. Aprendi tudo sobre essas criaturas: como vivem, como agem, como matá-las. Aprendi a lutar, a usar arco e flecha, armas de fogo. O que me mantinha firme era o desejo de encontrar o lobo maldito que matou minha mãe e acabar com ele. Esse desejo me sustentou até mesmo quando meu pai morreu.
Fiquei só com meu irmão, mas não desabei. Continuei forte, na esperança de me vingar dos monstros que destruíram minha família. Agora, estudo para poder ajudar meu irmão na empresa — que, confesso, não anda nada bem. Michael não leva jeito para isso, e eu, com apenas dezoito anos, ainda estou aprendendo. Não quero que a empresa que meu avô construiu vá à falência.
Meu irmão parece não se importar com nada. E agora, para piorar, resolveu ir ao Canadá visitar nossos avós maternos. Nem consegui dormir. Tive pesadelos com aqueles lobos. Não tenho escolha: preciso ir atrás dele. Sou obrigada a voltar para aquele país que tanto odeio.
Liguei para o Sr. Fausto e disse que estou indo ao Canadá porque talvez meu irmão esteja em perigo. Ele respondeu que vai me encontrar lá. Achei estranho — como ele sabe onde estou indo? Talvez eu tenha mencionado antes. Agora, estou sentada no aeroporto, esperando meu voo, quando meu celular toca. Para meu alívio, é o meu irmão.
— Michael Jones, você está bem? — falo brava.
— Me deixou sem notícias, quase me matou do coração! — digo, aflita.
— Para de falar e me ouve, irmãzinha — ele responde, contente, algo que eu não via nele desde que nosso pai morreu.
E então, as palavras que saem da boca dele me fazem tremer:
— Annabelle... eu acredito em você. Lobisomens existem.