Máscaras e Cicatrizes

982 Words
O dia amanheceu cinza em Paris, mas o céu encoberto refletia com precisão o clima no coração de Ana Paula. Ela estava de pé diante do espelho do quarto do hotel, vestida com um macacão preto impecável, o cabelo preso em um coque firme, como se quisesse usar a aparência controlada para disfarçar o caos que fervilhava por dentro. O som da porta abrindo atrás dela foi suave, mas o efeito foi devastador. Ela não precisou olhar para saber quem era. — Dormiu bem? — Gustavo perguntou com aquele tom casual que só os que escondem algo dominam. Ana virou-se devagar, cruzando os braços. Seu olhar era frio, analítico. — Depende do que você chama de "dormir bem". — A resposta saiu firme, mas sem histeria. Ana não era mulher de escândalos. Era de certezas. Gustavo caminhou até a escrivaninha e jogou as chaves do carro com indiferença, esticando o pescoço como quem se prepara para encenar um papel. — Ontem a reunião foi longa. Investidores russos. Chatíssimos. Acredite, não perdeu nada. — Ele sorriu, tentando um charme que já não fazia efeito. Ana se aproximou com passos lentos. Pegou o celular dele na mesa — destravado, como se ele confiasse demais — e o levantou. — Esses investidores russos falam italiano? Porque você trocou cinco mensagens com “E. Morelli” entre 20h e meia-noite. Gustavo travou por um segundo. Pequeno. Quase imperceptível. Mas ela viu. — Enzo… — Ele deu uma risada sem graça, coçando a nuca. — É um antigo parceiro. Está aqui em Paris também. Me procurou ontem, queria uma reunião informal. Você sabe, negócios… Ana não piscou. — Negócios. Com a minha conta empresarial? Silêncio. Longo. Incômodo. — Eu precisava fazer um repasse rápido. Você estava ocupada, achei que não se importaria. — Você movimentou oitocentos mil reais da minha empresa sem me avisar. Gustavo, eu posso ir presa por isso. Você tem ideia? Ele ergueu as mãos como quem tenta acalmar uma fera. — Amor, calma. Está tudo sob controle. Eu sabia que conseguiria devolver antes de qualquer auditoria. Era um empréstimo, informal. Enzo precisava de liquidez. Eu confiei nele… e em nós. Ana deu um passo para trás. O “em nós” foi a gota. — Não use o “nós” como desculpa para o que você fez. Você mexeu no meu nome, na minha empresa, no meu sangue. E escondeu. — Eu estava tentando proteger você! — ele rebateu, finalmente elevando o tom. — Você estava sobrecarregada. Essa viagem, esse lançamento, tudo! Eu fiz o que achei melhor! — O que você achou melhor... para quem, Gustavo? — Ana o encarou com fogo nos olhos. — Porque no final, quem está envolvido com uma empresa que tem histórico de fraude e corrupção sou eu. E tudo isso no nome da minha marca. O nome da minha família. Ele se aproximou e segurou seus braços com firmeza. Não o bastante para machucar, mas o bastante para que ela sentisse a tensão. — Você tá acreditando no Enzo agora? Um traidor? Um homem que me roubou milhões e que só quer se vingar? — Talvez eu esteja acreditando em mim mesma. Finalmente. Ela puxou os braços e se soltou. E, naquele instante, percebeu: não era só raiva. Era nojo. Era luto. Era o fim. Pegou sua bolsa, o celular e caminhou até a porta. — Aonde você vai? — ele perguntou, a voz carregada de desespero disfarçado. — Trabalhar. E depois… talvez conversar com o tal traidor. Porque pior do que confiar nele, é continuar confiando em você. Ela saiu antes que ele respondesse. --- Quatro horas depois. Ana atravessava o saguão de um prédio de arquitetura clássica no centro de Paris. Foi recebida por uma recepcionista educada que já a aguardava. — Senhor Morelli pediu que a senhora subisse diretamente. Quinto andar. O elevador era antigo, com portas de ferro e rangidos sutis. Quando se abriu, Enzo já a esperava no corredor, encostado na parede como se soubesse que ela viria. Ele estava sem terno desta vez. Usava apenas uma camisa branca com as mangas dobradas e jeans escuros. Casual. Inesperadamente irresistível. — Você veio. — Ele disse com um sorriso pequeno. — Eu quero a verdade. Toda ela. — Ana disparou, cruzando os braços. — Então entra. — Ele abriu a porta do apartamento. O espaço era elegante, cheio de livros e vinhos. Um piano na sala. Ana notou que ele não era um qualquer. Era um homem que conhecia o mundo. Que o dominava, talvez, mas não se curvava a ele. Ele foi até um cofre na parede e tirou uma pasta. — Gustavo usou seu nome para movimentar dinheiro de boates fantasmas, contratos falsos e até uma conta nas Ilhas Cayman. A empresa EN GESTIONI não existe de verdade. Eu criei para enganar outro criminoso… e ele a usou contra mim. — Enzo jogou os documentos sobre a mesa. Ana folheou cada um deles, sentindo o estômago se revolver. Comprovantes. Extratos. E-mails. Tudo. — Por que me mostrar isso? Ele se aproximou. Parou a menos de um metro dela. — Porque você merece saber. E porque… — seus olhos desceram brevemente até os lábios dela — …a mulher que eu conheci ontem não combina com o homem com quem está noiva. Ana segurou o ar. — Você não me conhece. — Ainda não. Mas quero. — Ele deu um passo à frente, diminuindo o espaço entre eles. — E você… talvez queira ser conhecida de um jeito que ele nunca conseguiu. Ela estremeceu. O perfume dele. O calor. A ousadia na voz. — Isso é uma tentativa de sedução? — Não. — Ele sorriu. — É uma promessa. Ana deveria recuar. Deveria gritar, negar, sair dali. Mas não se moveu. Porque, pela primeira vez em muito tempo, alguém a olhava como uma mulher… e não como um troféu. --- Continua…
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