Ana Paula caminhava de um lado para o outro no escritório da sede da Bella Donna, enquanto os ponteiros do relógio marcavam quase nove da manhã. A coletiva de imprensa estava marcada para as dez. Em sua mesa, uma pasta de couro continha provas suficientes para começar a desmontar o império de mentiras que Gustavo construíra ao longo dos anos.
Priscila, grávida e sempre prática, estava sentada no sofá com uma xícara de chá nas mãos.
— Tem certeza disso, Ana? Você sabe que o Gustavo vai contra-atacar. Ele nunca perde sem lutar sujo. — comentou, preocupada.
— Ele já vem lutando sujo há anos. A diferença é que agora eu aprendi a bater de volta — respondeu Ana, com os olhos brilhando de determinação.
Ela vestia um conjunto elegante preto e branco, salto alto e cabelo preso em um coque sofisticado. Sua maquiagem era sutil, mas realçava seus olhos — os mesmos que hoje não tremiam mais diante do homem que um dia quase destruiu sua alma.
Heloísa entrou com o celular na mão, avisando:
— Enzo está lá embaixo com o carro. Disse que quer te levar pessoalmente até a coletiva.
Ana hesitou por um instante. O nome de Enzo provocava uma mistura de calor e segurança em seu peito. Desde a noite em que ele invadiu o jantar, não haviam mais se afastado. Entre encontros discretos e trocas de mensagens intensas, ele vinha provando ser mais do que um aliado — era um porto.
— Pode avisar que já estou descendo. — Ana disse, pegando sua pasta e lançando um último olhar para as irmãs. — Se hoje é o começo da guerra, então que seja com as armas certas.
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O salão do hotel onde a coletiva seria realizada estava lotado. Jornalistas de moda, economia, colunistas sociais e até canais de TV aguardavam, câmeras ligadas, celulares prontos para capturar cada segundo. Gustavo sempre soube como atrair holofotes, mas agora Ana estava disposta a tomar o microfone e contar sua versão. A verdadeira.
Enzo a aguardava do lado de fora da van preta com vidros escurecidos. Usava um terno impecável e óculos escuros. Quando a viu, abriu a porta para ela com um meio sorriso.
— Pronta, rainha? — ele perguntou.
Ana respirou fundo. — Mais do que nunca.
Eles caminharam juntos até o salão, despertando a atenção dos fotógrafos. Murmúrios começaram. Quem era aquele homem ao lado da ex-noiva traída? Por que ela parecia tão segura de si? E por que Gustavo, até agora, não havia aparecido?
Ao subir ao palco montado para a coletiva, Ana retirou o paletó, pegou o microfone com firmeza e, após um breve silêncio, disse:
— Boa tarde a todos. Agradeço por estarem aqui. Hoje, eu não venho anunciar uma nova linha de produtos ou expansão da marca. Hoje, venho anunciar a verdade.
Um burburinho percorreu a sala.
— Por anos, fui sócia e noiva de Gustavo Rangel, CEO da rede Exclusive Club. O que poucos sabiam é que, além de infidelidades pessoais, ele também estava envolvido em práticas empresariais antiéticas, lavagem de dinheiro e esquemas fraudulentos para manter sua imagem de empresário bem-sucedido. E pior: usou o nome da Bella Donna para algumas dessas transações.
Os jornalistas ficaram em choque. Flashs dispararam em sequência.
— Eu trouxe provas — Ana disse, abrindo a pasta e entregando cópias aos principais canais. — Estou cooperando com a polícia e com os órgãos de fiscalização. A partir de hoje, a Bella Donna segue limpa. E minha história com Gustavo… termina aqui.
Uma jornalista mais ousada levantou a mão:
— E quanto ao homem que te acompanhou hoje? Ele tem relação com a denúncia?
Ana sorriu de leve. Seus olhos buscaram Enzo, que observava de longe com o semblante sério.
— Ele tem relação com a minha vida. E isso é tudo que vocês precisam saber.
A coletiva foi encerrada com aplausos, sorrisos surpresos e a certeza de que uma nova Ana Paula estava surgindo. Mas nem todos estavam contentes.
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Na mesma hora, em uma cobertura luxuosa de frente para a praia, Gustavo atirava o controle remoto contra a parede ao ver a transmissão ao vivo.
— Sua v***a ingrata… — rosnou, os olhos vermelhos de raiva. — Você vai pagar por isso, Ana. Eu juro que vai.
Ao lado dele, um dos seguranças particulares engoliu seco. Gustavo já não era mais o mesmo — e essa guerra estava apenas começando.
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Mais tarde, Ana e Enzo estavam sentados em um restaurante discreto na zona sul do Rio, longe das câmeras e do caos. Ela parecia mais leve, embora cansada. Enzo segurava a mão dela com firmeza sobre a mesa.
— Você foi perfeita lá hoje — ele disse, admirando a coragem dela.
— Não sei se perfeita, mas... verdadeira. Pela primeira vez, eu senti que estava no controle. — Ela sorriu.
— Gustavo não vai recuar facilmente, Ana. Ele é perigoso. Você sabe disso.
— Sei. Mas agora eu tenho você... e a mim mesma. Isso já é mais do que eu tinha antes.
Ele se inclinou levemente para frente, roçando os lábios nos dela em um beijo terno, íntimo, cheio de promessas não ditas.
— Não vou deixar que nada aconteça com você. Nem com a sua empresa. Nem com suas irmãs.
— Eu sei — ela murmurou contra os lábios dele. — Mas eu também não vou mais permitir que alguém lute por mim enquanto eu assisto. Eu sou a arma agora, Enzo.
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Enquanto o casal compartilhava um momento de paz, uma figura misteriosa observava de longe. Um homem de barba cerrada e olhos atentos, que falava ao telefone num tom grave:
— O plano está em andamento. Ana Paula já se declarou contra Gustavo. Agora é a nossa vez de agir. Preparem tudo.
Do outro lado da linha, uma voz respondeu:
— E se ela descobrir quem realmente está por trás disso tudo?
O homem sorriu, frio.
— Ela não vai. Não ainda.