-Wow... minha coluna nunca mais vai ser a mesma... — Arbo reclamou em forma de uma bufada quando pulou por cima dos muros de pedra que circundavam a Academia.
O crepúsculo já estava ameaçando encobrir o horizonte numa paleta indistinta de cores alaranjadas e vermelhas quando descemos as escadarias da Academia Elementar, cruzando o extenso Campo de Treinamento vazio, e voltando a subir o próximo lance de escadas cavados na terra escura que nos conduziria novamente a trilha.
— Ás vezes, eu penso em tipo, oito mil maneiras diferentes de chutar o traseiro do seu namorado. — ela considerou.
Mesmo me empenhando em trabalhar as pernas, detectei a palavra imediatamente, quão logo ela deixou os lábios de Arbo.
Namorado.
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Caminho das Estrelas II ESFERA Christyenne A.C.
Ao mesmo tempo em que minhas sobrancelhas se franziram em estranheza ao som da palavra, meus lábios se esticaram num sorriso torto e abobalhado de prazer. A palavra explicitava grande parte das inúmeras sensações que se desprenderam de algum lugar de meu peito.
— Nós... não estamos namorando. Eu acho.
Arbo estreitou os olhos azuis em minha direção ao levantar uma sobrancelha vermelha.
— Ah, não?
Me limitei a dar de ombros, arfando quando cheguemos ao topo das escadas.
— Bom, eu não sei se me lembro de um momento em que ele tenha me pedido em namoro...
Ela considerou, depois de rolar os olhos.
— Oh, claro. Isso deve ser porque “quase” ter morrido por você não foi suficiente, certo?
Foi minha vez de rolar os olhos para ela.
— Isso... não é a mesma coisa. Quero dizer... nada foi “oficializado” ainda. As pessoas não namoram até que uma deles peça. — tentei explicar, mas eu já não tinha certeza de nada. Falar sobre namoro não ocupava o topo da lista sobre assuntos que eu dominava. Se é que havia uma lista.
— ...humanos... — Arbo bufou.
— Não sou humana. Tenho um triskle do tamanho de uma bola de basquete tatuado no peito, para o caso de você não ter visto ainda.
— E eu tenho olhos do tamanho de duas luas, para o caso de você não ter visto ainda. — ela espichou a língua em minha direção — Corta essa, Eve.
Vocês dois pegam fogo quando estão juntos. Se é de uma “discussão da r*****o” que vocês precisam, tenha uma com ele. Vocês precisam de um rótulo que os identifique se vou encontrá-los agarrados em todos os cantos e paredes daqui para frente. Aliás, também vou me certificar de nunca invadir seu quarto sem ser chamada...
Soquei seu braço com força, mas o máximo que ela fez, foi se desvencilhar teatralmente e rir.
— Você é sempre tão i****a ou esse é apenas seu modo usual de dizer coisas que não convém?
— Não estou sendo i****a. Apenas razoavelmente insana.
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Caminho das Estrelas II ESFERA Christyenne A.C.
Arbo tinha um jeito esquisito de me fazer bem. Mas eu não sentia como se não gostasse. Era como se Arbo fosse uma metade oposta de Ivi. Uma metade que acabava me completando e enraizando ainda mais meus pés em meio a toda a verdade que existia sobre mim. Sobre ser uma Falange e sobre perten cer a tudo que ela também pertencia.
— Como você sabia onde eu estava?
Arbo ainda sorria enquanto cruzávamos o famoso Vale da Brigada Ligeira. O vale cercado de estátuas de pedra e granito que antecedia os limites da área da Catedral Elementar.
— Muito simples. Procure pelos lugares mais afastados, íntimos e desprovidos de vida e encontrará Eve e Eron...
— ARBOLENCE!
— Foi Ilínea! — ela grunhiu voltando a rolar os olhos — Ela é uma vidente, Eve. E será coroada como um dos Potenciais do Novo Punho. É claro que ela iria conseguir descobrir seu paradeiro. Sua presença na Cerimônia é um pouco mais do que “essencial”.
Por um momento, fitei Arbo á baixo dos raios amarelados que vertiam feito seixos transparentes e cada vez mais apagados das nuvens obscurecidas, criando um aspecto mágico e ofuscante. Miriad costumava ser assim o tempo todo. Mágica e ofuscante.
— Espere... Ilínea fará parte do Novo Punho? Céus, quanto disso eu perdi?
— Se você estivesse menos preocupada em descobrir quantos movimentos diferentes a língua do Sr. Tocha Humana consegue fazer e se focasse mais em...
Dessa vez, chutei Arbo na canela, e o ataque inesperado a fez quase cair, se encolhendo de dor ao mesmo tempo.
— Ai! Sua cria de ornitorrinco cruzado com abelha!!!
— De nada. Me avise quando precisar de mais.
— Talvez fosse gostar de saber que sua tia Pégasus também foi convidada
ser coroada como um dos Potenciais.
Minhas pernas travaram, e rendida, me voltei á Arbo, quem mancava massageando a canela.
— Como é que é?
— Exatamente isso que você ouviu.
Mas a informação se negava a entrar e ser digerida.