Sentada naquele estofado, tia Peg se parecia apenas com uma pessoa normal e amargurada enquanto encarava o chão, e não a anciã misteriosa que sabia muito mais do que o pouco
que sempre ousava revelar. Sua postura me corroía, me sangrava, exatamente por ter plena consciência de que não havia muito que eu pudesse fazer para inverter a situação. Ver minha tia ruindo um pouco mais a cada dia era terrível, e exigir respostas parecia ser ainda pior, mas parecia não haver nada que fizesse mais sentido naquele momento.
A Grande Roda parece estar brincando com nosso mundo, nos aprisionando numa maré de repetições tortuosas que se repetem de erro após erro... e eu... eu não sei como parar isso! Eu não sei! ― ela enfiou o rosto entre as mãos, e meu senso primitivo de sanidade considerou as probabilidades de ponderar suas palavras.
Me parecia mais assustador do que eu julgara no início.
Arena, como parecia sentir-se melhor em pé ao invés de sentada, estava parada diante de uma das janelas, mirando o zênite esverdeado qu e circundava a mansão Hatthwey, mas com os ouvidos e mente atentas a conversa, e o resto das meninas, inclusive Hanna, encarava chocada a posição claramente embargada de
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tia Peg. Eu tinha que admitir. Aquele desespero mórbido, nostálgico e pungente não era algo que pudesse se ver todos os dias vindos da mulher que aguentava todo o peso de todos os segredos do universo em cima dos ombros. Mas ela estava arqueando. Minha tia imponente estava finalmente cedendo.
E isso estava me destruindo de maneira incontinente.
Com a ponta do dedo, puxei a gola da camiseta, como se todo o espaço em minha garganta fosse pouco para engolir a saliva, tremendo com as propostas sombrios que o futuro apresentava em meu caminho.
Deus... eu sabia que as coisas estavam perdidas de alguma forma e não conseguia encarar isso.
O que significam esses assassinatos? ― foi Arbo quem quebrou o silêncio, da forma suave e direta que só ela conseguia fazer, seus selvagens olhos azuis capturando todas as mínimas mudanças de expressões do rosto acabado de minha tia.
Mas para minha surpresa, foi Arena quem respondeu.
Os ritos. Ritos de Alma. ― ela respondeu, exalando um longo suspiro levemente aterrorizado, e de repente me vi de novo dentro da Morada, na primeira vez em que Arena havia se disposto a me explicar o mundo Falange. Era como se tivessem se passado décadas desde aquele dia, e não menos de dois meses. ― Há algum tempo atrás, as Trevas desenvolveram experiências em corpos terrenos, os únicos detentores de Almas Puras. Eu não sei se algué m chegou a saber ao certo qual era o objetivo real das experiências, mas posso afirmar com certeza de não houve um jeito direito de aquilo ter dado certo.
Me forcei a acompanhar sua linha, mas percebi que meu cérebro parecia estar se diluindo dentro da cabeça, e até uma fração de 2+2 me parecia terrivelmente impossível de ser realizada com êxito naquele momento. Eu não seria capaz de compilar nem o começo do Bê-á-bá.
Eles estavam tentando... criar algo. Algo que seria o duplo inegavelmente mais poderoso que a raça Falange. Não sei qual era o objetivo real da criação, mas é obvio que o alvo éramos nós, as Falanges da Luz. Então, depois das experiências, vieram os ritos, os quais nunca pudemos descobrir quais eram. Mas as experiências inicias acabavam sempre da mesma forma: pobres corpos destroçados, acabando ás vezes sem alguns membros, mas também com a peculiaridade sempre presente: todos eles eram encontrados com um buraco no peito, entre as costelas, mostrando a ausência do coração.
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Meu estômago se embrulhou, e um choque percorreu minhas veias ao cogitar aceitar o fato de que pobres humanos poderiam estar sendo trucidados para servir apenas como experiências.
Aquilo era tão terrível quanto possível. Eron tinha razão. Ás vezes, as pessoas sangram pelos motivos errados.
Há uma supertição antiga entre os Maoris que haveria, em todo o corpo humano, apenas um lugar provável onde estaria resguardada toda a sua essência. Que haveria uma pequena cavidade dentro do coração, vazia, onde não chegava oxigênio ou sangue, e esta pequena “sala de estar”, era considerada sagrada apenas por existir... diziam que era ali que habitava a alma. Dentro do coração.
Arena passou a caminhar pela sala, algo que ela sempre fazia quando sua mente estava trabalhando a toda potência ― Quando as trevas criam os Renegados, eles precisam Sangrar coração humano para usurpar sua alma, e a a**a usada se torna mais poderosa, mais suscetível a ter mais desenvoltura na próxima ceifa e muito mais ligada ao dono, e por isso, entre as Falanges das trevas é comum ter uma a**a definitiva que nunca pode ser substituída por outra.
Aquilo tanto me surpreendeu como me apavorou.
Seria possível desestabilizar sua força se sua a**a fosse destruída? ― eu perguntei quase esperançosa, e Arbo me enviou um olhar surpreso.
Essa é nossa primeira tática de autopreservação quando estamos em batalha. ― ela afirmou.
Sim, ― Arena acenou com o queixo ― Isso é bom, você tem a mente de uma estrategista, Eveline. Creio que ainda será uma ótima Falange Gu erreira no futuro, se não uma das melhores de nossa geração. Agora, continuando, os coração terrenos precisam ser Sangrados, e a alma do coração S angrado passa para a a**a, e em seguida, para seu portador. Você iram perceber que todo cadáver que se torna Renegado tem um coração morto, e esse corpo se torna habitável por entidades apenas por ainda possuí -lo, independente de que ele ainda esteja batendo ou não. A cavidade vazia nele ainda está ali, para ser usada.
Que nojo! ― Hanna ofegou, franzindo o cenho numa careta de repulsa.
Isso quase se parece com um apocalipse zumbi!
Cale a boca. ― eu instiguei, e Arena prosseguiu.
De certa forma. Agora, claro que para a exterminação de um corpo
Renegado, Sangrar seu coração é inútil, já que dadas as circunstâncias ele
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obviamente está morto, então, o caminho mais viável é sempre apelar pela destruição total da carcaça, pois se qualquer m****o sobrar, até mesmo um dedo, ele ainda estará vivo.
E isso nos obriga a sempre carregar isqueiros para incendiar os restos mortais quando não contamos com a presença de Detentores do Fogo. ―
Dublemore assentiu, o que fez Hanna só empalidecer ainda mais, e mesmo estando completamente verde, era óbvia sua curiosidade em se ater a todas as informações que seriam necessárias para sua graduação na arte do extermínio dos Renegados.
Mas... mas... ― ela parecia genuinamente perdida ― E se por acaso só um traseiro morto sobrar? Ele ainda iria me atacar?
Arbo rolou os olhos.
Oh, é claro que você está preocupada com isso! Até um traseiro morto te derrubaria.
Me peguei bufando.
Não acredito que vocês estão preocupadas com as possibilidades de traseiros assassinos quando temos corpos mortos habitados por entidades das trevas tentando arrancar os pescoços de quem chegar perto. Alguém está genuinamente acompanhando a gravidade da situação?
Hanna me mostrou a língua.
Diga isso quando um traseiro ninja estiver tentando m***r você. E só pra deixar registrado: eu não vou te salvar.
Espero que tenham conseguido compreender a forma simples de se criar Renegados. ― Arena retomou o fio da meada, prosseguindo em sua explicação.
Corações Sangrios, foram seus verdadeiros nomes no início. Mas então, há algum tempo atrás, as Trevas começaram com essas experiências malignas, e passaram a não Sangrar corações, mas roubá-los quando ainda estavam batendo. O certo, foi que conseguiram de fato criar algo. Talvez, o err o tenha sido tentar tonar Falanges comuns em algo mais arriscado, e foi aí que surgiram os Metamorfos. Falanges que conseguiam se transmutar em espécies selvagens de monstros racionais que possuíam o dobro da força de Falanges comuns. Na época, eles foram denominados Órganons, que traduzido significa Instrumentos.
Os olhos de Edra cintilaram à menção do nome.
Sim! Eu estudei muito sobre eles! Fui a melhor da turma quando o assunto envolvia Órganons. Quando transformados, eram monstros horríveis que
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possuíam uma pele grossa o suficiente para não ser atravessada por lâminas, força triplicada que lhes permitia esmagar praticamente qualquer coisa. O único ponto fraco era a rapidez, já que o enorme corpo os deixava absolutamente lesados e isso era um ponto negativo em batalhas mais planejadas onde o número superasse a força deles. Mais ainda assim, havia o ponto favorável de sua pele não ser suscetível ao corte de lâminas quando estas encontravam sua pele.