O luto de Marcela - Ítalo

1037 Words
A vida sempre tem reviravoltas, a alegria da família Sales durou apenas 6 meses, Rafael se foi tragicamente no que parecia um assalto, o luto de Marcela machucava Ítalo, ele passou a cuidar da mãe e da irmã, parecia que estava revivendo as memórias tristes da primeira infância. Ele passou a pagar as contas, cuidar da casa, até tentava fazer comida, mas nisso não era muito bom. Ele havia acabado de completar 11 anos. — Senhora Marcela, estou indo pra escola, vou deixar a Meg na creche. Marcela estava deitada, seus olhos indicavam que tinha chorado, faziam 2 meses da morte do marido e ela m@l saía do quarto. Ítalo sempre teve problemas na escola, sua inteligência era motivo para os garotos não gostarem dele. Depois da aula ele passou na creche e pegou a irmã. — Menino, você de novo? Eu sei que sua mãe está em luto, mas é perigoso, estou deixando uma criança com outra criança. — Disse a professora de Megan. — Eu farei ela vir aqui, estou tentando ao máximo. — Tudo bem, mas direto pra casa! — Sim, senhora. — Ítalo disse e pegou a irmã nos braços. Ítalo não aguentava carregar a irmã por muito tempo, ela já estava com 3 anos, ele preferia que ela andasse, mas a menina era lenta e ele acabava demorando muito pra chegar em casa. Quando estava quase na rua de casa notou que alguns colegas da escola estavam o seguindo. — E aí nerdezinho! — Olha lá, ele pensa que é gente grande! — Não é aquele idiot@ que gosta de humilhar todo mundo? Ítalo se sentiu encurralado, pegou Megan nos braços e tentou andar mais rápido, ele apenas sentiu o impacto em suas costas e o chão se aproximando. — Meg, Meg! Fala comigo! Os meninos viram que havia acontecido algo grave com a bebê e correram. Ítalo não sabia o que fazer. Duas senhoras estavam passando e viram o ocorrido. — Aquele não é o filho do médico que morreu? — Acho que sim, fique aqui com ele, vou ver se mãe está em casa. Minutos depois Marcela chegou. — Ítalo, o que aconteceu? — Me desculpa senhora, eu caí em cima dela. Marcela chamou uma ambulância e foram para o hospital, Ítalo ficou agarrado a ela, enquanto a menina era tratada, ela acordou ainda na ambulância. Minutos depois o médico disse que a bebê estava bem, mas ficaria em observação. — Senhora Marcela Sales? — Sou eu! — Sou a doutora Patrícia do conselho tutelar, podemos conversar? — Sim, pode falar. — Senhora, sabemos das condições da adoção e que hoje é viúva, acha que ainda pode cuidar das crianças sozinha? Tenho aqui alguns relatos de que o menino tem andado sozinho e é até ele que leva e busca a menina na creche e que a senhora nem voltou a trabalhar. Marcela não sabia o que dizer, só se perguntava como deixou as coisas chegarem a esse ponto, sentia falta de Rafael, mas tinha que ser a mãe que se propôs a ser. — Reconheço que errei, prometo que não vai se repetir. Sou a mãe deles e vou me portar como tal. — Bom senhora, falar é muito fácil, será reavaliada, se por acaso acharmos que não pode cuidar deles voltarão para o abrigo. Marcela olhou para Ítalo, seus olhos estavam desesperados, Marcela estava se sentindo culpada e agora poderia perder as crianças. A assistente do conselho saiu e Marcela desabou na cadeira e começou a chorar, achava a vida sozinha dura demais. Ítalo a abraçou chorando também. — Mãe, não chore, não gosto de vê-la triste! Se me levarem eu fujo, fujo de qualquer lugar com a Meg e voltamos pra você! — Ítalo, como me chamou? — De mãe, você é minha mãe, minha e da Megan. Marcela recebeu ali o impulso que precisava para voltar a viver. No dia seguinte Megan teve alta e Marcela começou a cuidar de tudo, foi na escola para reassumir seu lugar, levou Megan na creche e Ítalo para escola. Cuidou da casa e fez uma refeição decente para as crianças. — Bom dia mãe! — Bom dia meu filho. — Ítalo a chamar de mãe, aquecia seu coração, já faziam 5 meses dessa rotina. — Filho, hoje você irá sozinho para escola, a Meg está com gripe, não posso mandá-la assim são as regras da creche. — Tudo bem, mãe. A escola é perto. Ítalo foi andando e reparou em um carro preto que o seguia. Pensou ser coincidência, mas não era a primeira vez que tinha a impressão de ser seguido. Na volta ele viu um carro parado na porta da escola, pensou ser o mesmo da manhã e do outro dia, notou que o carro o seguia de longe, ele deu uma volta no quarteirão antes de entrar na rua de casa. Parecia ter adiantado. Ítalo fez isso a semana toda. Era quinta-feira e ele estava feliz, no fim de semana ficaria trancado em casa, só precisava aguentar mais dois dias, como Megan não melhorava da gripe ele foi sozinho para a escola a semana toda. Quando saiu se sentiu feliz, Marcela estava na porta sorrindo com Megan nos braços. — Mãe, veio me buscar? — Claro, levei a Meg no médico ela está melhor, então resolvi te buscar antes de ir pra casa. Ítalo a abraçou e aproveitou para olhar em volta. No ângulo que estava não viu nenhum carro, ficou aliviado. — Vamos? — Sim, vamos mãe. Eles começaram a andar e Ítalo esqueceu a preocupação. Enquanto isso no carro. — Alô chefe, pela primeira vez essa semana a moça que cuida deles saiu de casa, estava com a menina. Tenho que dizer é uma moça bonita, uma das mais belas que já vi. — Lucius, eu quero meus filhos, essa é a sua missão.— Ah Carlos, já estou cuidando disso, estou apenas comentando, se eu pudesse levaria a moça pra mim. Carlos riu do outro lado da linha, não pensava que Marcela poderia ser isso tudo. — Lucius, até amanhã! Você tem só até amanhã. — Sei o que fazer, Carlos! amanhã conhecerá seus filhos, uma pena eu não ver mais a moça.
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