O Que Nunca Deveria Existir

1068 Words
O almoço em família deveria ser apenas isso. Conversas previsíveis, risadas ensaiadas, o som dos talheres preenchendo os silêncios que ninguém ousa tocar. Estou sentado à mesa, cercado por rostos conhecidos, mas algo dentro de mim se rompe sem aviso. Uma angústia que não me pertence atravessa meu peito como um golpe seco. Meu corpo reage antes da razão. O ar fica pesado. Minha mão aperta o copo com força demais. Não é memória. Não é saudade. É presença. Eu sinto ela. A dor dela. Um medo cru, pulsante, que não deveria alcançar a mim. Não faz sentido. Não pode ser real. Meu coração dispara. Vampiros não sentem assim. Não atravessam décadas carregando ecos de emoções humanas. Eu não atravesso. Nunca atravessei. Então por que agora? Levanto o olhar, buscando algo que não está ali. Minha mente tenta negar, racionalizar, chamar de loucura. Mas o pânico já se instalou. Se isso for verdade, tudo o que construí desmorona. Minha família. Minha posição. As regras que me mantiveram intacto por tanto tempo. — Gabriel? A voz de Alice me puxa de volta. Minha irmã está próxima demais. Os olhos atentos demais. Ela sempre percebeu o que os outros fingiam não ver. — Você ficou pálido ! Ela diz, baixando o tom. — Aconteceu alguma coisa? Engulo em seco. Forço um sorriso que não convence nem a mim. — Não ! Respondo. — Só… um m*l-estar. Mas nós dois sabemos. Alice se aproxima porque sente a mudança. E eu entro em pânico porque sei: não há como isso ser real… e ainda assim, é. Eu me levanto da mesa sem anunciar nada. O almoço já terminou, as conversas agora são dispersas, leves demais para o peso que carrego no peito. Risos atravessam o ar como se tudo estivesse exatamente onde deveria estar. Para eles, está. Para mim, não. Dou alguns passos em direção ao jardim, buscando espaço, ar, qualquer coisa que me devolva o controle. Ouço passos atrás de mim antes mesmo de alcançar a porta. — Gabriel. É Lucas. Claro que é. Meu irmão sempre soube quando me afastar não significava distância, mas perigo. Respiro fundo, sigo andando sem responder. O cheiro da grama molhada me atinge quando atravesso o jardim, mas não acalma. Nada acalma. — Você não está bem ! Ele diz, já ao meu lado. Antes que eu consiga formular uma resposta, sinto outra presença. Mais silenciosa. Mais afiada. Alice. Meu desespero se renova. Ela não pergunta, não anuncia. Apenas se aproxima, encostando ao tronco de uma árvore antiga, observando como se estivesse montando um quebra-cabeça que eu me recuso a mostrar. — Você sentiu ! Ela afirma, sem rodeios. Meu corpo enrijece. Lucas franze o cenho, confuso. — Sentiu o quê? Passo a mão pelos cabelos, o controle escapando por entre os dedos. Não posso dizer. Não aqui. Não com eles. Minha família não aceita rachaduras. Não aceita desvios. Muito menos o impossível. — Não é nada . Minto, cansado demais para sustentar. Alice inclina a cabeça, os olhos verdes atentos, quase cruéis de tão lúcidos. — Você nunca mente bem pra mim, Gabriel. Olho para o jardim, para o céu claro demais, para uma paz que não me pertence mais. Se ela realmente existe… se essa ligação atravessou o tempo… então tudo o que eu sou está ameaçado. E minha família será a primeira a perceber. — O que você sentiu, Gabriel? Lucas insiste, agora mais baixo. Fecho os olhos por um instante. O erro foi sair da mesa. Aqui, longe do barulho, tudo fica mais nítido. A angústia volta, mais fraca, mas ainda presente, como um fio invisível puxando meu peito. — Não foi físico ... Digo por fim. — Foi… outra coisa. Lucas me encara, tentando entender o que não se explica. Alice, não. Ela já entendeu demais. — Você se conectou ! Rla diz, quase num sussurro. — E isso não acontece à toa. Abro os olhos na hora. — Não!!! Corto, seco. — Isso é impossível. — Impossível não é o mesmo que inexistente ! Ela rebate. — Você está diferente desde aquela noite. Lucas deixa escapar . Meu maxilar se contrai. Lucas olha de mim para Alice, claramente fora da conversa, e isso é a única coisa que me impede de perder o controle. — Não falem disso com ninguém! Peço, a voz mais dura do que gostaria. — Com os pais, com mais ninguém! O silêncio que se instala é pesado. Alice se aproxima um passo. — Então é grave! Conclui. Desvio o olhar para o fundo do jardim. Para a sombra. Para qualquer lugar que não seja o rosto dela. — Se for real. Digo, finalmente — Muda tudo. E a nossa família… não perdoa esse tipo de coisa. Alice se aproxima ainda mais. Perto demais. O espaço entre nós desaparece. Ela fecha os olhos, respira fundo, como se buscasse algo além do que é visível. Meu corpo reage imediatamente, um instinto antigo gritando para impedi-la, mas já é tarde. Quando Alice abre os olhos, o verde intenso deles se expande em puro terror. Ela dá um passo para trás. — Ela é humana ! Sussurra, a voz falhando. — Isso não é possível, Gabriel. Meu estômago afunda. O pânico que eu vinha contendo explode por dentro. Eu sabia. Antes mesmo de ouvir, eu sabia. A confirmação não traz alívio, só ruína. — Não fala isso ... Digo, baixo, urgente. — Você não tem certeza. — Tenho ! Ela responde, firme demais para alguém que está apavorada. — Não há véu. Não há eco antigo. Não há marca. É humana. Viva. Frágil. Lucas nos observa, perdido, sentindo que algo grande demais está sendo dito sem que ele possa compreender. — Vocês estão me assustando ... Ele diz. Alice não desvia o olhar de mim. — Se isso é real . Ela continua — Você está ligado a algo que não deveria existir. Isso quebra regras que mantêm nossa família de pé há séculos e em segurança . Passo a mão pelo rosto, tentando organizar o caos. — Eu não escolhi isso ... Eu digo. — Eu senti. Alice engole em seco. — Então corte ! Ela ordena. — Agora. Olho para o jardim, para a luz do dia que nunca me pertenceu de verdade. Cortar significaria salvá-la. Manter significaria condenar tudo. E, pela primeira vez em muito tempo, eu não sei qual decisão é a mais monstruosa.
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