Onde Eu Baixo a Guarda

1209 Words
O escritório sempre foi o lugar onde eu mando. Não por autoritarismo, mas por necessidade. Pessoas esperam decisões, respostas rápidas, caminhos claros. Eu entrego tudo isso com precisão quase cirúrgica. Estratégia é linguagem. E eu sou fluente. Meu dia começa cedo. Reuniões alinhadas, metas agressivas, campanhas que precisam performar como prometeram. No marketing digital, não existe espaço para hesitação , números não se comovem com intenções. Talvez por isso eu goste tanto desse mundo. Ele responde ao controle. A única exceção ali atende pelo nome de Clara. Minha secretária. Ou melhor, a única pessoa naquele prédio que me vê sem armadura. Clara conhece meus silêncios, minhas manias, meus limites. É ela quem percebe quando entro focada demais, quando esqueço de almoçar, quando minha voz soa firme demais para ser apenas profissional. — Você não dormiu ... Ela disse, me entregando o café sem açúcar, do jeito certo. Não perguntei como sabia. Nunca pergunto. — Só foi uma noite longa . Respondi, abrindo o notebook. Clara me observou por um segundo a mais do que o necessário. Não invadiu. Nunca invade. — Quer que eu segure o fim da tarde? Perguntou. Assenti. Aquilo era cuidado disfarçado de logística. Entre uma reunião e outra, percebi o quanto aquele espaço era meu refúgio. Ali, ninguém me abandona. Pessoas entram, pessoas saem , mas o controle permanece comigo. Talvez seja por isso que eu tenha construído tudo com tanto rigor. Ainda assim, no intervalo mínimo entre uma decisão e outra, pensei nele. Não como distração, mas como ruído. E foi ali que entendi: o problema não era perder o controle no amor. Era perceber que, mesmo no lugar onde eu sou mais forte, algo começava a atravessar minhas defesas. E Clara, silenciosa e atenta, parecia ser a única a notar. Clara voltou com uma pasta azul e deixou sobre a mesa sem dizer nada. Era o gesto que usava quando queria me lembrar de algo sem me pressionar. Abri. Agenda ajustada, prioridades reorganizadas, um espaço deliberado no fim do dia. Ela sabia exatamente onde eu precisava de ar. — Você anda distante .. Ela disse, por fim, sentando à minha frente. — Não é distração. É outra coisa. Ergui os olhos do relatório. Clara não fazia acusações. Fazia leituras. — Estou cansada ... Respondi, automática. — Não desse jeito. Houve silêncio. O tipo de silêncio que só existe quando alguém conhece seus limites e ainda assim permanece. Respirei fundo. Não contei tudo , nunca conto , mas também não menti. — Algo me tirou do eixo . Admiti. — Nada prático. Nada que eu consiga resolver com estratégia. Ela assentiu, como se aquela frase fosse suficiente. — Então eu cuido do resto ... Eu disse. — Você cuida de você. Voltei às reuniões com a precisão de sempre. Direcionei equipes, aprovei campanhas, corrigi rotas. Por fora, tudo intacto. Por dentro, um leve deslocamento. Como se a engrenagem ainda funcionasse, mas com um ruído novo, insistente. No fim da tarde, quando o escritório começou a esvaziar, fiquei sozinha por alguns minutos. Olhei ao redor. Cada detalhe ali foi escolhido por mim. Nada era aleatório. Nada escapava. Era o território onde eu não era deixada , eu decidia. Ainda assim, pensei nele. Não como ameaça. Como interrogação. Fechei o notebook e peguei a bolsa. Ao sair, Clara levantou os olhos e sorriu de leve, um acordo silencioso entre nós. Agradeci sem palavras. Enquanto o elevador descia, entendi o que realmente me inquietava: não era perder alguém. Era reconhecer que, apesar de tudo que construí para não precisar, eu ainda sabia sentir. E isso mudava tudo. O estacionamento estava mais vazio do que o normal. O fim do expediente sempre traz uma espécie de exílio silencioso, como se o mundo profissional se recolhesse e deixasse espaço demais para pensamentos que não cabem em planilhas. Entrei no carro e fiquei alguns segundos com as mãos apoiadas no volante, respirando fundo. Foi ali que senti a fissura. Não era tristeza. Nem ansiedade. Era algo mais sutil , uma lembrança sem imagem, um peso leve no peito que não se explicava. A sensação incômoda de que eu estava esquecendo algo importante há tempo demais. Liguei o carro e saí sem música, como faço quando preciso escutar a mim mesma. No trânsito lento, percebi o quanto minha vida foi construída para evitar surpresas. Horários definidos, decisões calculadas, pessoas mantidas a uma distância segura. Nada que pudesse ir embora de repente. Nada que pudesse prometer ficar. Mesmo assim, a presença dele atravessava esse sistema com facilidade irritante. Não pensei em Gabriel como homem. Pensei nele como símbolo de algo que eu não controlei, de algo que não pedi. E isso é possibilidade de envolvimento. Não era desejo que me assustava. Era reconhecimento. Cheguei em casa e deixei a bolsa no aparador. O apartamento estava silencioso, impecável, exatamente como deixei pela manhã. Um espaço que não exige negociação, nem concessões. Tirei os sapatos e caminhei descalça até a janela, observando as luzes da cidade. Sozinha, como quase sempre. E, ainda assim, pela primeira vez em muito tempo, essa solidão não parecia escolha. Parecia preparação. Como se algo estivesse prestes a ocupar um espaço que eu mantive vazio por precaução. Fechei os olhos por um instante e aceitei uma verdade incômoda: o controle sempre foi minha forma de sobrevivência. Mas talvez sobreviver não fosse mais suficiente. O celular vibrou sobre o aparador, quebrando o silêncio do apartamento. Olhei para a tela sem pressa, esperando que fosse alguma notificação irrelevante. Não era. Laura. O nome ali, intacto depois de tantos anos, me atingiu com uma força inesperada. Fiquei alguns segundos observando a tela, como se o tempo pudesse me explicar por que aquela ligação acontecia justamente agora. Não falava com ela havia anos. Não por briga. Por afastamento. Aqueles que doem menos porque parecem escolhas mútuas. Atendi. — Helena… A voz veio cautelosa, quase como um teste. — Sou eu. Como se houvesse outra possibilidade. — Laura Respondi, sentindo algo se deslocar dentro de mim. — Quanto tempo. Ela riu baixo, nervosa. — Eu sei. Eu pensei muito antes de ligar. Encostei no sofá, subitamente cansada. — O que aconteceu? Houve uma pausa curta demais para ser casual. — Eu voltei para a cidade. E… sonhei com você. Franzi a testa. — Sonhou? — Sonhei .. Repetiu. — Do jeito antigo. Como antes. Meu estômago apertou. Laura fazia parte de uma fase da minha vida que eu mantinha bem arquivada. Ela conhecia versões minhas que ninguém mais conheceu. Versões que eu mesma evitei revisitar. — Isso é estranho ... Murmurei. — Eu sei. Mas achei que devia te avisar. Você sempre dizia que alguns encontros não eram coincidência. Fechei os olhos por um instante. Aquela frase não era minha. Nunca foi. E, ainda assim, eu lembrava de tê-la ouvido antes. — Você está bem? Perguntei. — Não sei .. Ela respondeu com honestidade desconcertante. — Por isso liguei. Desligamos alguns minutos depois, com a promessa vaga de um café. Fiquei olhando para o celular apagado, sentindo o peso de algo antigo se reorganizando dentro de mim. Primeiro Gabriel. Agora Laura. Algumas portas não batem quando se abrem. Elas apenas retornam. E eu tinha a sensação incômoda de que o passado começara a me procurar.
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