CAPÍTULO TRÊS

4056 Words
Oito horas após o genocídio, eu estava gemendo sobre uma carroça manca que passava numa estrada de chão não planado, intensificando a minha dor. Íamos em direção ao norte, segundo o anão, e nos encontraríamos com os outros bastardos do rei, no reino de Ispunmrri, que os irmãos e primos dele foram encarregados de tirar de Estarim. Depois subiríamos até o norte de Bonrras, onde tudo é gelo. — Aguenta, garota — ele pediu. A sua voz soou longe e repetido. A sua imagem de costas estava embaçada, como tudo à minha volta estava. Todo som era distante e confuso. Estávamos num céu escuro de lua fraca, encaminhando para a lua engolida, por isso o seu marrom esverdeado estava parco, já que o sol brilhava em menos de meia lua agora. Do nada ouvi a voz de minha tia me dizendo o que ela sempre me dizia, assim como a vi andando ao lado da carroça, com o corpo inclinado na minha direção, com aquela expressão de mandona e fuxiqueira. Seu corpo era magro, muito magro. Seu cabelo tão preto quanto o céu escuro e de lábios tão vermelhos que parecia ter sangue melado, assim como o cabelo escuro, iguais aos de mamãe, e como o meu fora quando pequena. — Você vai trazer a destruição de sua casa, sua griza. Garota de cabelo cinza. Eu sempre disse para a sua mãe te dar, mas ela é tão estúpida. — A minha tia olhou para o outro lado da carroça e olhei também. Semicerrei os olhos ao ver a imagem de mamãe ali conosco. — Não diga isso, Henella! — exclamou mamãe, como sempre dizia. Mas esta imagem em particular era uma de quando eu tinha ainda três anos, quase quatro. — Não chama a minha filha disso. — Ela é uma griza! — exclamou titia. — Nasceu na griza, então é uma griza. — Ela deu uma volta em seu próprio corpo e voltou a apontar para mamãe. — Essa sua aberraçãozinha vai te trazer tragédia, Maliena. — Olha para o cabelo dela como está ficando claro. Nasceu com ele preto e agora está acinzentando. Esse verão vai ser curto, pelo visto. — Mamãe — minha boca disse sozinha, simulando o que fiz naquela época. — O que é griza? — Você — titia disse. — Chega! — mamãe gritou com a irmã dela, apontando para a rua. — Vai embora, Henella. Vai embora da minha casa e nunca mais volte, se for para você insultar a minha pequena Alleumena. — Mamãe manteve a sua mão na mesma posição, apontando para a porta, enquanto as duas se olhavam. — Você e as suas superstições saiam da minha casa, agora. — Larga de bobagem, sua inóquida. — Arrumou a sua posição. — Eu não irei embora no meio do anticlaro. Inóquida é uma pessoa que vê o perigo, mas o subestima. — Então se ficar, cale a sua boca — mamãe terminou a discussão. As duas sumiram do nada e a minha consciência se recuperou da alucinação. Eu suava e a minha pele estava ainda mais pálida do que o de costume. Eu sentia frio e os diversos sacos de trigo sobre mim não era o suficiente para me esquentar. Meus queixos batiam. Nunca estive com tanto frio na vida, e vendo que o anão com pouca roupa estava bem, eu presumi que o frio que eu sentia tinha muito a ver comigo e não com o clima. — Eu estou morrendo? — perguntei a ele. O anão não respondeu, por isso insisti mais alto desta vez: — Ei! — minha voz saiu esganiçada — Ele virou e me olhou no mesmo instante. — Eu vou morrer? — repeti. — Eu espero que não, vossa alteza. Se a senhorita permanecer viva até o raiar do sol, será curada por uma amiga minha que fica em Isaêmi. Olhei para o lado e comecei a gemer mais alto, tentando chorar, com a voz do anão se repetindo desagradavelmente na minha cabeça, dizendo: “vossa alteza”. — Deus da mocidade, da força, da impetuosidade — clamei em sussurros. — Me fortifique e me faça derrotar o que quer que esteja me mantendo deitada. Mande os seus anjos derrotar os crafes que me mantém entre a linha da vida e da morte. E então apaguei no mesmo instante. *** *** *** Meus olhos se abriram pesadamente e meus lábios ainda reclamavam da carroça que mancava sem parar, em gemidos. O céu brilhava, misturando o vermelho do sol com o azul do céu e o branco cinzento das nuvens. — Você finalmente acordou — ouvi uma voz feminina direcionada a mim e a procurei. — Cheguei a pensar que você não acordaria. Virei o meu corpo e olhei finalmente na direção da mulher. Abri melhor os olhos ao ver a voz saindo de uma anua conversando comigo com voz de humana. A analisei. A visão ainda não estava boa, mas estava o suficiente para vê-la me olhando de volta. A anua era do meu tamanho, montada num cavalo preto e grande, do lado esquerdo da carroça. — Nenhum agradecimento? — ela me perguntou. — Só esse olhar? Engoli saliva e olhei em volta. Havia um cervo me olhando com pequenas galhadas nascendo no topo da cabeça. Ele não parecia morto, mas também não tão vivo. Queria poder enchê-lo de vida novamente ou ceifar logo sua dor de uma vez, mas por algum motivo só o olhei, sem reação alguma. Estávamos num estado muito parecido. Éramos dois iguais sobre a mesma linha da vida e da morte. Suspirei e olhei para cima, voltando a olhar para a anua. — Você que é a curandeira? — Minha voz soava fraca e esganiçada, como se não fosse usada há dias. Ela riu de mim, e franzi a testa, por ela ter feito isso. Mamãe sempre disse que os anuos eram iguais aos humanos, anões e menádios, mas eu não os conseguia ver assim depois de tudo o que eles fizeram contra nós. — Foi isso o que o Muaido te disse? — perguntou ela. — Não sou uma curandeira, princesa dos cabelos cinzas, sou uma... — Olhe a boca, Ikiiki — o anão chamou a sua atenção em tom de aviso. Muaido era o nome do anão então. E a dela Ikiiki. A cabeça dela era careca com turbante feito de faixa grossa, comprido, amarelo e feito de algodão enrolado e caído à frente de seus dois ombros. Percebi, por ela ter levantado esse pano que saiu como uma coroa da cabeça para que coçasse. A sua cabeça tinha o formato de uma bola redonda, só que o rosto era achatado para dentro na frente, com olhos grandes de cor castanho-avermelhados; um nariz chato; de lábios carnudos e pequenos; com ambas as bochechas inchadas, como são de costume, parecendo dois músculos bem definidos em sentido diagonal nos cantos dos rostos apontado para o canto dos lábios e para as orelhas normalmente bem comportadas deles. Vendo que não queriam falar sobre o que a anua era, procurei não insistir no assunto, já que não tinha interesse mesmo. — Você está se sentindo bem? — o anão perguntou. — Estou sentindo tudo, menos bem. — A minha voz soou rouca. — Mas não sinto mais tanto frio e tanta dor. — Vai sentir se você se mexer — Ikiiki comunicou e olhei para ela. — Pelo menos eu vinguei o céu-escuro passado — comentei, desviando os olhos daquele dela. — Não vingou só um céu-escuro não, vingou três. Graças a Ikiiki — Muaido afirmou. Passei outro olhar para ela, agora um pouco mais envergonhado pelos demais até então. — Estamos no décimo segundo dia de Edini, princesa — Ikiiki respondeu. — Três dias após o ataque aos principados de Estarim. Ponderei sobre a divulgação. — É assim que estão chamando o ataque em Nestta? — perguntei bem baixinho. Ela fez que sim com a cabeça. Mamãe. Um nó se fez na minha garganta e meu nariz queimou no mesmo instante, subindo até os olhos. — E onde estamos? — Estamos há alguns do sul do reino de Ispunmrri, vossa alteza — Muaido respondeu, mantendo o seu olhar para frente, passando sobre uma estrada estreita por entre árvores gigantescas, encontradas mais em florestas menádias. — Antes de cruzarmos a fronteira, passaremos perto da Casa de Cobre. Fiquei olhando à volta, analisando cada coisa. Me negava a mover, já que a anua alegou que eu sentiria dor se o fizesse. Naquele instante a única dor mesmo que eu sentia era no meu estômago, assim como a minha boca espumava de sede. — Posso beber um gole d’água? — perguntei ao Muaido, e mais do que rápido o anão fez o seu cavalo parar, ficou em pé e me trouxe um cantil que era feita com uma tripa de urso bem comprida com a parte inferior amarrada e na parte superior com um mamilo de ursa bem costurado. A tripa era de quase um metro de comprimento com alguns centímetros de largura e com couro de pelo marrom cinzento de urso colado e costurado entorno da tripa, a modo de não poder vê-la. Sei disso por ouvi Urnelo discursar repetidas vezes sobre como fazer cantil de água com tripa de urso: — O melhor — ele dizia ao me mostrar seus cantis prontos. — Não é à toa que os anões só façam assim. O cantil estava quase vazio, por isso estava murcho e dobradiço. Conforme o anão pisava na carroça, fazia-a gemer com o seu peso e toda ela entortar para o seu lado esquerdo. Por fim ele se abaixou, se ajoelhou e colocou na minha boca o mamilo da ursa costurado na boca do cantil. Bebi um pouco da água e o resto escorreu para os lados. Tossi, levando a minha mão esquerda até a boca e com o dedo indicador e o médio eu melei os meus lábios rachados com aquela água com gosto de barro, assim como o de casa era. — Obrigada — agradeci e imediatamente ele se levantou. Apontei de leve com um dedo apenas para o cervo deitado ao meu lado, ainda me olhando com seus olhos pretos. — Por favor, dê um pouco a ele também. O anão parou, me analisou um pouco, hesitou, mas se abaixou e derramou a água na boca do cervo. O animal mexeu com a língua, tão paralisado quanto eu, bebendo a água e a tossindo ao mesmo tempo. Muaido foi generoso e derramou uma boa quantia para m***r a sede daquele animal. — Vai chover — Ikiiki apregoou, enquanto Muaido voltava para seu banco e se sentava na frente da carroça para comandar o seu cavalo anão. — Então vamos nos apressar — ele disse, olhando para o céu que começava a perder o seu azul para as nuvens cinzentas que insistiam em tornar aquele dia pior do que já estava. *** *** *** Abri meus olhos e o dia parecia mais nublado. Notei Ikiiki ajudando Muaido a terminar de criar uma tenta. Os anões normalmente eram bons em construção, menos Muaido, pelo o que eu vi. No entanto, para o principal objetivo ele serviu e, pelo o que via dali de cima da carroça, a estrutura estava firme. Mexi minhas pernas e então as paralisei, morrendo de medo de sentir dor. Respirei algumas vezes, parada e analisando meu corpo e as sensações. Eu não havia sentido nada, então mexi os braços e senti quase nada de dor. De todo modo, no primeiro sinal de dor eu parei de me mexer e olhei em volta. Fiquei quieta por algum tempo e então me projetei a me sentar. A barriga respondeu com uma dor suportável. Paralisei novamente e respirei fundo. Ikiiki e Muaido me viram sentada sobre a carroça, mas não fizeram muito caso e continuaram arrumando a tenda. Passei a língua no meu lábio superior, tentando umidificá-lo um pouco. O ardor diminuiu pouca coisa, já que a língua estava quase tão seca quanto os lábios. Encolhi as pernas, segurei na amurada da carroça e forcei para me levantar. A pontada aumentou e senti uma pressão na cabeça que me tonteou. Fechei os olhos e apertei mais os dedos na borda madeira. Cerrei o maxilar e abri os olhos. As silhuetas das coisas voltavam aos seus lugares e as cores misturadas voltavam às suas origens. Suspirei fundo e fiquei de pé. A tontura aumentou e me curvei de joelhos sobre a carroça, batendo eles na madeira e fazendo barulho. As cores e as silhuetas saíram do lugar novamente e se misturou num borrão à frente dos meus olhos. Fechei os olhos novamente. Teria mais equilíbrio assim. As mãos apertavam a madeira da amurada que estalava com a força que eu fazia. A carroça balançou forte e duas mãos me seguraram e me ajudaram a ficar em pé novamente. Soltei da amurada e me segurei nas vestes da pessoa. Parecia Muaido. Outra pontada aguda na barriga me fez cerrar o maxilar, mas não voltei a me abaixar. Perdi todo o equilíbrio do corpo, como se o mundo virasse para o meu lado esquerdo e eu começasse a cair para o meu lado direito. As mãos de Muaido me apertaram mais nesse instante em que cedi e abri os olhos. As luzes e as cores misturavam como se o mundo estivesse sendo pintado pelos Deuses bem na frente dos meus olhos. Ele me desceu da carroça e me colocou abaixo da tenda que estavam terminando de fazer. Foi ali que a visão foi voltando ao normal e, parada, voltei a ver as coisas nos seus respectivos lugares. Eles terminaram a tenta e, quando começou a chover, ficamos aparados ali, no meio da floresta. Ikiiki fez um chão de pedras, assim a água escorria abaixo e entre elas, mas não em nós. Teve espaço até para uma fogueira, que viva estalava e crepitava pequenos fragmentos seus para os lados. Foi ali, parada, que me lembrei do cervo e de não o ter visto novamente agora. — Ele está lá tomando chuva? — perguntei olhando para Muaido. — Ele quem? — O cervo. — Ele morreu e nos alimentamos dele ontem e hoje — Ikiiki respondeu em seu lugar. Abaixei a cabeça. Ontem e hoje. Então estou em outro dia. Apaguei novamente. Estávamos sentados, entre duas raízes expostas, e com as costas apoiadas numa árvore menádia. Duas lebres assavam num galho atravessado em duas forquilhas. A morte do cervo me fez lembrar da morte de mamãe. Não consegui parar de pensar nela depois. Suas palavras finais, escritas na poeira me embrulhavam o estômago. Tudo aquilo aconteceu porque eu era uma bastarda do rei Tirários. Embora, se eu não existisse, o genocídio aconteceria do mesmo jeito, já que eu não era a única bastarda. Mas não foi só por isso que ela morreu; ela morreu por eu ser uma griza. Olhei para o lado e vi Ikiiki me olhando com um semblante sereno. Sendo ou não uma anua ela era um ser vivente com pensamentos, assim como uma griza que recebe olhares tortos por onde passamos, sendo um símbolo vivo de desgraça, infortúnio e até morte; como titia vivia me dizendo. Gaguejei as primeiras palavras, engoli o orgulho, abaixei a visão, suspirei e disse: — Muito obrigada por ter me ajudado. Eu estava morrendo. Ergui a visão e a vi assentir com a cabeça. — Foi um prazer te ajudar a sobreviver, vossa alteza. Você é forte, só precisava de um apoio para continuar conosco. — Não me chame assim — pedi. A voz soou errado da pretensão. Soou ameaçadora e não clemente. — Você é uma princesa, Alleumena! — Muaido me corrigiu com tom firme. — É o único modo certo de lidar com você. Queira aceitar ou não. Uma princesa bastarda, mas uma princesa. Ele inclinou a mão para frente, arrancou uma cocha da lebre, atravessou um graveto grosso nela e a estendeu para mim como incentivo a ficar quieta, talvez. Peguei com as duas mãos a vara e mordisquei a carne, primeiro verificando sua temperatura. — Obrigada — disse, mastigando. Assoprei a coxa e a mordi novamente. Muaido distribuiu um pedaço para Ikiiki e se serviu de outro. Eu terminei a minha coxa rápido e o anão me ofereceu mais uma coxa e aceitei. Quando acabou, eu quase já não tinha mais fome. Fiquei sentada um pouco mais e depois me deitei. Dormimos abaixo dos sacos de trigo, comigo na ponta direita, Muaido na ponta esquerda e Ikiiki no meio. E já adormecida, vi todo um cenário sendo montado a partir de fumaças coloridas que se ajeitavam e iam montando o Canto Escuro bem como eu o conhecia. De repente senti a minha mão sendo pega por outra e, meio atordoada, como se fumasse outra vez do cachimbo do vovô, como quando tinha onze anos, vi tudo como um borrão. Tudo se mexia e muitas pessoas corriam, assim como eu e a pessoa que me puxava. — Urnelo? — Olhei em direção de quem me puxava, mas eu não via o seu rosto. Eu só conseguia avistar do pescoço para baixo. — Urnelo? — resolvi perguntar outra vez, com a voz longe e ecoando por todo canto à minha volta. — Alle, lute! Não deixe ele te vencer — ouvi a voz de Nelo longe, atrás de mim. Mesmo sendo puxava, olhei para trás e o vi correndo até a mim, com muitos soldados correndo em sua direção, com uma saraivada de flechas voando na direção dele. — Se abaixe! — gritei, mas a minha voz não passou de um sussurro que mesmo com os meus ouvidos tão pertos da boca, m*l foram capazes de ouvir. No total ele deu mais dois longos passos na sua desenfreada corrida, até que uma flecha aterrou nas suas costas e a ponta varou no peito. Nelo caiu no chão na mesma hora, feito uma fruta pesada caindo do topo de uma árvore alta. — Não! — gritei histérica e desesperada. — Urnelo! — eu gritava tão alto, mas eu quase não ouvia a minha voz. Parecia que o ar me sufocava e me tirava o poder de gritar pela morte do segundo ser que eu mais amei na minha vida. E por não poder ser ouvida, comecei a soluçar. — Não. Não. Não. Por favor, não. Mas ele estava imóvel. Do jeito que caiu, ficou. Desmotivada de continuar com a vida, soltei o meu corpo. Não obedeceria mais quem quer que fosse a me puxar, e nisso caí no chão, mas ainda assim me mantiveram puxando. E eu não sabia nem se era homem ou mulher. — Urnelo! — berrava, sentindo o meu corpo sendo cortado pelas pontas afiadas das pedras dos blocos de concreto e pedras. — Nelo! Não. — Ninguém pode te salvar agora — uma voz masculina falou comigo, então olhei em sua direção e finalmente vi o rosto de quem me puxava. — Prínc... rei Biermoni! — eu disse. Eu vi seu rosto uma vez na vida, durante um passeio real dos membros reais do castelo de Areia. Ele estava mais ao canto, isolado, sério. Olhava seu irmão recebendo todo o carinho, amor e veneração na passagem principal de Nestta, enquanto ele não ganhava nada. Para mim, ele se destacou naquele dia. Ninguém sabia que atrás daqueles olhos ele guardava um ódio por toda aquela gente e nem que os mataria alguns anos depois. Neste instante ele parou de correr e soltou do meu punho. Estava desfigurado em ódio. Nunca havia visto um ser tão carregado em desprezo e fúria da forma que ele estava. — Eu vou te m***r, Alleumena Manke. Vou te m***r, bastarda! Você nunca será uma Qatel. Nunca será a princesa Alleumena Qatel, filha de um rei; e sim Alleumena Manke, filha de uma cortesã. — Eu me afastei dele, deslizando pelo chão com o auxílio das pernas e braços, sem tirar os meus olhos desesperados dos dele ardendo em ódio. — Eu vou esquartejar e m***r todos os seus outros meios-irmãos e por último vou te m***r. Todos vão culpar a você por toda essa tragédia. Vão dizer que se não fosse griza, nada disso aconteceria. E de fato não! Você é um amuleto de má sorte — me olhou de cima a baixo —, espécie imunda. — Então ele gargalhou de mim, enquanto se aproximava lentamente e eu me deslizava para trás, descendo a ladeira da rua. — Onde já se viu uma rainha griza. Você nunca será uma rainha! Mesmo se não fosse griza, você nunca seria respeitada por ser uma bastarda. Uma ninguém do Canto Escuro que descobriu ter meio sangue real. Mas nem esse meio sangue no seu corpo limpa a imundice do seu outro meio sangue. Você era a filha de uma cortesã. O que pensariam de uma princesa que foi criada por uma mulher como a sua mãe? Já pensou nisso? Se perguntarão se você também serviu homens com o seu corpo para ajudar com as despesas de casa. — Eu nunca fiz isso! — protestei. — Mamãe nunca deixaria que eu fizesse, mesmo que para ajudar em casa. — Então quis? Me calei. A ideia me vagou pela cabeça algumas vezes quando ouvi meus irmãos chorarem de fome e só tinha dinheiro o suficiente para os impostos. — Eu... — balbuciei. — De qualquer modo, todos pensarão isso de você. Além de sem modos, sem etiqueta, burra, patética, sem esforço, criada por uma p**a e f**a, é ainda uma griza. Ninguém nunca vai te aceitar. Faça um favor e deixe eu te m***r para acabar com todo esse tormento. Ele desembainhou a sua espada e a apontou para mim, enquanto ainda deitada, eu fugia dele deslizando pelo chão. Por mais que a ideia de me levantar e sair correndo dali me passasse pela cabeça, eu não conseguia fazer. Estava travada. Não conseguia nem ficar em pé, só deslizar para trás. — Não me mate! — pedi. — Eu preciso m***r todos vocês para ser o verdadeiro rei de Estarim. — Por favor... — implorei, com o queixo tremendo e com lágrimas deslizando pelos olhos. — Eu não quero morrer. Eu tenho medo da morte. Ele, por sua vez, não demonstrou qualquer clemência e ergueu mais a espada a modo de enterrá-la com mais força em meu peito quando o fizesse. — Por favor — insisti. — Morra! — urrou guturalmente ao descer com a espada e enterrá-la em meu peito. Levantei o tronco imediatamente, com os olhos esbugalhados, com todo o corpo pregado em suor, com a pele ainda mais pálida e com batidas violentas no peito. — Socorro! — gritei desesperada. Olhei em volta. — Socorro. — Vossa alteza! — Ikiiki se levantou ao lado, gritando meu nome e pousando sua mão no meu ombro. Eu estava ofegante. Olhei para ela, para Muaido atrás dela e então tampei meu rosto, envergonhada por tê-los acordado e pelo meu grito. — Desculpa — pedi. A voz soando chorada. — Não se preocupe. Está tudo bem com você? — ela perguntou. Voltei a me deitar e então assenti com a cabeça. — Estou bem. Foi só um pesadelo. Fiquei pensando por algum tempo naquilo. Aves cantaram e murmuravam todo o anticlaro e, a cada folha que caía no chão, eu acordava espantada. Quando não eram as folhas, eram insetos, eram animais de pequeno porte esquivando por aqui e ali ou a minha família que não saía da minha cabeça. Ficava pensando se havia mesmo um céu para receberem eles e se me enxergavam naquele momento. Será que me culpavam pela morte deles? Será que pedia p******o aos Três Deuses antigos por mim? Eu esperava que sim, pois, por mais que estivesse recebendo ajuda, eu não entendia o motivo e me sentia sozinha. Talvez eu me sinta assim por toda a minha vida. Talvez eu nunca mais sinta aquilo que sentia em casa. Aquela segurança, sabendo que não importasse o que acontecia, que todos nós, os sete filhos de Maliena, mesmo brigando direto, nos ajudaríamos no que fosse preciso. A chuva cessou no meio do anticlaro e quando o sol trouxe o claro do azul, ainda quando o céu estava mais do que a metade escuro, nos levantamos e voltamos a nossa viagem.
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