Capítulo 1

1391 Words
PARTE 1 Anastácia 13 anos & Christian 16 anos de idade O sol dourado da tarde brilhava sobre o jardim imenso da casa dos Escobar, onde nossas famílias costumavam se reunir quase todos os finais de semana. Era uma tradição: churrasco, conversas intermináveis entre os adultos e as crianças correndo sem rumo até a exaustão. E, como sempre, lá estava Christian, enfiado embaixo de uma árvore, completamente alheio à diversão ao redor. Cruzei os braços, observando-o. Ele segurava um livro enorme no colo, os olhos castanhos fixos nas páginas, a expressão tão concentrada que parecia nem notar o barulho das conversas e das risadas ao redor. Aquilo era um ultraje. Ele não podia simplesmente passar a tarde inteira lendo enquanto eu estava ali, esperando que ele fizesse algo mais interessante. Um sorriso travesso surgiu nos meus lábios. Eu sabia exatamente como resolver isso. Caminhei na ponta dos pés até ele e, num movimento rápido, arranquei o livro das suas mãos. - Ei! - Ele ergueu o rosto, os olhos se arregalando. - Você passa muito tempo lendo, Christian. Vai acabar ficando um velho rabugento antes dos quinze - provoquei, segurando o livro contra o peito. Ele suspirou, já conhecendo o meu jogo. - Nana, me devolve. Eu ri ao ouvir o apelido que ele me dava desde que éramos bem pequenos. - Só se você pegar! - E saí correndo pelo jardim. Ouvi seu resmungo atrás de mim, mas continuei correndo o mais rápido que pude, desviando das cadeiras espalhadas pelo gramado. - Você corre feito uma tartaruga! - gritei, sem olhar para trás. - E você age como um mosquito irritante! Aquilo só me fez rir ainda mais, mas meu momento de vitória não durou muito. Senti seus braços me envolverem pela cintura, e antes que pudesse reagir, já estava girando no ar. - Me solta, Christian! - protestei, tentando não gargalhar. - Só se você me devolver o livro. - Tá bom, tá bom! - estendi o livro para ele, sem fôlego de tanto rir. - Você venceu... dessa vez. Ele me soltou, pegou o livro e sacudiu a cabeça, como se estivesse acostumado com minhas maluquices. - Você nunca desiste, né? - Claro que não. Onde estaria a graça nisso? Ele riu, e eu ri junto. A verdade era que eu adorava implicar com Christian. Ele ficava tão sério às vezes que eu me sentia no dever de trazê-lo de volta para a vida real. Depois do jantar, enquanto eu pegava um pedaço generoso de bolo, senti um puxão discreto no meu vestido. - Vem - Christian sussurrou, olhando ao redor como se estivesse tramando algo. Arqueei uma sobrancelha. Normalmente, era eu quem o arrastava para alguma aventura. Curiosa, segui-o até o lado da casa, onde ele apontou para um galho baixo de uma das árvores do jardim. - Quero te mostrar uma coisa. - Você quer que eu suba na árvore? - Cruzei os braços. - Achei que você gostasse de desafios. Bufei, mas aceitei o desafio. Com um pouco de esforço, subi no galho e sentei-me ao lado dele, ainda desconfiada. - Ok, o que foi? Ele apontou para o céu. - Olha como as estrelas estão bonitas hoje. Ergui os olhos e pisquei algumas vezes. O céu estava realmente lindo, salpicado de estrelas brilhantes. Ficamos em silêncio por um tempo. Então, não resisti: - Sabe o que eu acho? - O quê? - Ele me olhou com curiosidade. Sorri de lado. - Que eu sou uma estrela cadente e você é um planetinha quieto que precisa de um empurrão para sair do lugar. Ele riu baixinho. - Já eu acho outra coisa. - O que? - pergunto curiosa - Eu acho que você é uma tempestade que não para de me arrastar junto. Ficamos nos encarando, até que, inevitavelmente, caímos na gargalhada. O vento balançava os galhos da árvore onde estávamos sentados, e por um momento, tudo parecia quieto. Eu olhava as estrelas, e Christian olhava... bem, eu não sabia para onde ele olhava. Talvez para mim, talvez para o nada. Mas não demorou muito para minha inquietação me vencer. - Você nunca quis saber como é tocar uma estrela? - perguntei, mexendo os pés no ar. Ele franziu a testa. - Elas estão a milhões de quilômetros daqui, Nana. É impossível tocá-las. Revirei os olhos. - Você sempre tem que ser tão literal? - Você sempre tem que ser tão impossível? Sorri de lado. - Claro. E é por isso que você gosta de mim. Ele abriu a boca para protestar, mas parou. Depois, bufou, como se admitir isso fosse o maior sacrifício do mundo. - Talvez. Aquele "talvez" já era o suficiente para mim. Ficamos ali mais um tempo, sentados na árvore, conversando sobre coisas que só faziam sentido para nós. Mas logo minha mãe chamou meu nome da varanda. - Anastácia! Já está tarde! Suspirei, olhando para Christian com uma careta. - Acho que nossa missão estelar foi interrompida. Ele riu, mas desceu da árvore antes de mim, estendendo a mão para me ajudar. - Vem, antes que você se arrebente e eu tenha que ouvir sua mãe me culpar por isso. - Eu não sou tão desastrada assim! - protestei, mas aceitei sua ajuda de qualquer jeito. Descemos e voltamos para onde nossos pais conversavam animadamente, os pratos da sobremesa ainda pela metade. Meu pai riu ao me ver. - Você sempre volta dessas suas aventuras com Christian parecendo que acabou de sair de uma batalha. Olhei para minha roupa um pouco suja de grama e dei de ombros. - Isso porque eu sempre venço. Christian, ao meu lado, revirou os olhos, mas não disse nada. Nossas mães começaram a despedida, e logo já estávamos indo embora. Antes de entrar no carro, virei para trás e vi Christian ainda parado na varanda, as mãos no bolso, me observando. Acenei para ele. Ele hesitou por um segundo, mas então acenou de volta. O caminho de volta para casa foi silencioso, exceto pelo ronco baixo do motor do carro. Meus pais conversavam entre si, mas minha mente estava longe dali. Eu ainda podia sentir a brisa morna da noite e ouvir a risada baixa de Christian enquanto discutíamos sobre estrelas e impossibilidades. Ele sempre dizia que eu vivia no mundo da lua. E talvez vivesse mesmo. Suspirei, recostando a cabeça no vidro da janela, observando a paisagem passar. Quando chegamos, tomei um banho rápido e vesti meu pijama, mas o sono não veio logo. Fiquei rolando na cama por um tempo, relembrando cada detalhe da noite. Até que um barulho suave na minha janela chamou minha atenção. Me virei rapidamente, o coração acelerando. Outro barulho. Joguei as cobertas de lado e corri até a janela, abrindo-a de uma vez. - Christian?! Lá estava ele, parado no jardim, jogando pedrinhas na minha janela com a maior cara de quem não estava fazendo nada de errado. - O que você tá fazendo aqui? - sussurrei, espiando para ver se meus pais não tinham ouvido. - Você deixou isso cair - ele ergueu a mão, e vi minha pulseira brilhando sob a luz do poste. Meus olhos se arregalaram. - Minha pulseira! Desci as escadas na ponta dos pés e saí pela porta dos fundos, indo ao encontro dele. - Como você achou? - Eu sempre acho as coisas que você perde, Nana - ele deu de ombros, segurando minha mão para prender a pulseira de volta no meu pulso. Fiquei em silêncio, observando-o fazer isso. Seus dedos eram quentes e ágeis, e por algum motivo, meu coração bateu um pouco mais rápido. - Você não precisava ter vindo tão tarde - murmurei. Ele me olhou, e por um instante, um pequeno sorriso apareceu no canto de seus lábios. - Eu sei. Mas quis vir mesmo assim. Segurei um sorriso bobo e desviei o olhar. - Bom... obrigada. - De nada - ele deu um passo para trás, enfiando as mãos nos bolsos. - Agora sobe antes que sua mãe me pegue aqui e me coloque de castigo no seu lugar. Ri baixo. - Tá bom. Boa noite, Chris. - Boa noite, Nana. Fiquei ali parada até vê-lo desaparecer pela rua. E só então voltei para o meu quarto, segurando minha pulseira com força, sentindo que aquela noite tinha sido mais especial do que qualquer outra.
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