CAPÍTULO 1 — Onde o Medo Ainda Respira

776 Words
Natália sabia reconhecer o som da violência antes mesmo que ela começasse. Era o silêncio. Aquele silêncio pesado que tomava conta da casa segundos antes de tudo desabar. Ela estava sentada na ponta da cama estreita, ainda usando o uniforme simples do restaurante, contando as notas amassadas do turno daquela noite. Não era muito. Nunca era. Mas era o suficiente para comprar comida por mais alguns dias. Talvez pagar parte da conta de luz atrasada. Talvez evitar mais uma discussão. O estalo vindo da sala fez seu corpo inteiro enrijecer. Depois veio o barulho de algo quebrando. Respiração pesada. Passos arrastados. Natália fechou os olhos lentamente. — Não… — sussurrou para si mesma. Mas já era tarde. — Cadê o dinheiro, desgraçada?! A voz do padrasto atravessou as paredes finas como uma lâmina. O cheiro de álcool e droga parecia invadir o quarto mesmo com a porta fechada. Seu coração acelerou automaticamente, reagindo antes da mente. Anos vivendo ali ensinaram seu corpo a sobreviver. Ela levantou devagar, tentando controlar o tremor nas mãos. No corredor, encontrou a mãe encolhida perto da mesa caída, chorando baixo enquanto o homem revirava gavetas como um animal faminto. Natália sentiu algo apertar dentro do peito. Raiva. Cansaço. Impotência. — Não tem mais dinheiro — disse, firme, mesmo com o medo queimando na garganta. Os olhos dele se voltaram para ela. Vermelhos. Perdidos. Perigosos. Por um instante horrível, Natália voltou no tempo. Voltou para aquela noite. O peso dele bloqueando a saída. As mãos puxando sua roupa. O desespero rasgando sua garganta enquanto ninguém ouvia. Ela ainda lembrava da sensação de correr descalça pela rua, chorando, acreditando que morrer seria mais fácil do que continuar ali. Mas ela sobreviveu. E sobreviver mudou tudo. O homem deu um passo em sua direção. Instinto puro tomou conta dela. — Não chega perto — avisou, erguendo o queixo. A voz saiu mais forte do que esperava. Ele riu, um som sujo. — Tá se achando corajosa agora? O coração dela batia tão forte que doía. Mas Natália não recuou. Não mais. — Encosta em mim e eu chamo a polícia. Silêncio. A ameaça pairou no ar. Ele hesitou. E aquele pequeno recuo foi suficiente. Vitória mínima. Mas ainda assim… vitória. Natália virou as costas antes que a coragem desaparecesse. Pegou a mochila já preparada — roupas, documentos e o pouco dinheiro escondido — e saiu de casa sem olhar para trás. O ar da rua noturna atingiu seu rosto como liberdade temporária. Ela caminhou rápido, abraçando o próprio corpo enquanto lágrimas silenciosas escapavam. Não queria chorar. Odiava chorar. Chorar fazia parecer fraca. E ela precisou ser forte cedo demais. Seu celular vibrou. Naiara. "Vem pra cá. Minha mãe fez jantar." Um sorriso pequeno surgiu apesar de tudo. Naiara era família. A única que conhecia cada cicatriz invisível que Natália carregava. Enquanto caminhava, pensamentos antigos voltaram. Ela não queria aquela vida. Não queria envelhecer naquele bairro, ouvindo gritos todas as noites. Queria estudar. Queria um apartamento pequeno só seu. Queria dormir sem medo de passos no corredor. Sonhos simples. Distantes. Na manhã seguinte, o restaurante Bellagio Prime parecia outro planeta. Lustres brilhavam. Perfumes caros dominavam o ambiente. Clientes falavam de viagens internacionais como se fossem idas ao mercado. Natália ajustou o cabelo cacheado preso em um coque improvisado e respirou fundo antes de entrar no salão. Ali dentro, ela não era a garota da casa quebrada. Era profissional. Forte. Invisible. Equilibrava bandejas entre mesas quando percebeu a mudança no ambiente. Conversas diminuíram. Funcionários ficaram tensos. O gerente praticamente correu até a entrada. Curiosa, Natália ergueu os olhos. E o mundo pareceu desacelerar. Ele acabava de entrar. Alto demais para passar despercebido. Terno escuro moldando um corpo largo e definido. A pele morena contrastava com a camisa branca aberta no primeiro botão, revelando tatuagens que subiam pelo pescoço e desapareciam sob o tecido caro. Mas foram os olhos que a prenderam. Escuros. Intensos. Observadores. Perigosos. Ele analisava tudo ao redor como alguém acostumado a controlar ambientes inteiros. Até que o olhar dele encontrou o dela. Direto. Sem pressa. Sem vergonha. O impacto fez Natália perder o ritmo por um segundo. Ela desviou imediatamente, irritada consigo mesma. Homens ricos nunca significavam coisa boa. Principalmente para mulheres como ela. Continuou trabalhando, fingindo indiferença… mas podia sentir o olhar queimando suas costas. Como se tivesse sido escolhida. E Natália odiava a sensação de ser alvo de alguém poderoso demais. O que ela não sabia… Era que aquele homem não costumava olhar duas vezes para ninguém. E naquele instante, enquanto aceitava o cardápio sem realmente lê-lo, uma única certeza passou pela mente de Alessandro Moretti: Aquela garçonete mudaria tudo. 🔥
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