04- PRIMEIRO DIA

2918 Words
Safira Eu sempre soube das condições financeiras de meu irmão. Sempre que marcávamos algo, ele sempre escolhia os melhores lugares, consequentemente os mais caros, para nos encontramos. E ele sempre pagava a conta, independente de onde estávamos. Dito isso, eu já esperava um apartamento a altura, mas não tanto. O prédio onde eles moravam ficava na parte influente da cidade. Apenas prédios e casas de arquiteturas majestosas que pareciam contar uma linda história sobre o local. Só a entrada do prédio deles já dizia muita coisa. Era tudo tão sofisticado que me senti horrível por estar ali. O elevador era de vidro e pude acompanhar a linda vista que teríamos lá em cima, na cobertura onde eles moravam. O corredor do apartamento deles era decorado com madeira escura nas paredes e um carpete cinza escuro, algo bem masculino. A pesada porta de entrada era simples e abria-se para revelar um hall elegante, com as paredes brancas, o chão de madeira escura, coberto com um carpete tão branco que dava dó em pisar nele. No canto direito, um grande sofá palha repousava no meio da parede. De um lado do sofá havia um aparador que servia de bar, com algumas garrafas acomodadas na parte de baixo e alguns copos na parte de cima, do outro, uma grande escultura geométrica em metal. De frente ao sofá, duas poltronas da mesma cor entre uma mesinha de canto feita com a madeira da mesma cor da que revestia o chão. Esse espaço aconchegante era separado por uma porta de vidro. Atrás daquela porta, uma sala enorme com uma fachada inteira de vidro era dividida em três espaços. No canto esquerdo, ficava uma ala mais masculina, com um bar ornando a parede e um balcão de madeira com tampo de granito preto separando-o da grande mesa de sinuca. Para separar aquele espaço do ambiente destinado à sala de estar, uma televisão gigantesca ficava suspensa em uma armação de acrílico presa ao teto, o que a fazia parecer flutuante. Um jogo de sofá em camurça preta ficava: um de frente para o aparelho – o maior – e o outro de frente para a parede de vidro. Uma mesa de centro escondia alguns dos equipamentos e aparatos. No canto direito, uma mesa enorme de madeira rustica e cadeiras combinado, junto com mais um aparador, este de vidro, compunham a sala de jantar que se abria para uma cozinha gigantesca e bem equipada. Ainda na parte de baixo do apartamento, havia um pequeno quarto que se fazia de dispensa, um banheiro social e a área destinada à lavanderia. A escada, em L e toda de ferro, dividia a área do bar e a que se abria para a lavanderia, além de levar para o segundo andar, onde ficavam os quartos, a área de lazer com uma piscina cinematográfica, um pequeno jardim, e uma área para churrasco além da área em que estava montada uma academia completa. Meu quarto era o do meio. Lado esquerdo Matteo e direito Pietro. Ele era grande, mas simples. A parede do fundo era preta, ladeada por uma parede de um branco acinzentado um pouco mais fechado e por uma parede de vidro com cortinas do mesmo tom da parede oposta do teto ao chão. Nesta mesma parede, no centro, estava uma cama de casal gigantesca para o meu gosto, ladeada com dois criados-mudos brancos e delicados, combinando com a cabeceira estofada e dando destaque para o pesado edredom rosa claro que cobria a cama e enfeitava as almofadas sobre ela. Um pequeno canto de leitura fora montado em um dos cantos opostos ao da cama, com uma mesa delicada e na mesma cor dos criados ladeada por uma confortável poltrona com estampa oriental de flor de cerejeira e um banquinho branco. Próximo a esse canto ficava a porta que dava acesso ao enorme closet com todas as minhas roupas novas. Dei uma boa olhada para ver se encontrava algo que eu não usaria, mas as pessoas que escolheram cada uma das peças e acessórios que ali estavam me conheciam melhor do que eu mesma. Até as lingeries cuidadosamente arrumadas eu usaria. O último segmento de meu quarto era o banheiro. Um verdadeiro sonho com um box de vidro e um chuveiro metido a b***a que tentavam roubar a cena da linda banheira de mármore branco no lado oposto. Não aproveitei meu quarto novo da forma que gostaria, fui direto para o canto de leitura, peguei o dossiê e meu caderno de anotações e comecei a trabalhar. Virei à noite lendo e relendo aquela montoeira de papel contendo, praticamente, toda a vida de Matteo Salvatore e sua família. Não raramente, parava para fazer alguma anotação de algo que me chamou a atenção. Quando a parte chata finalmente acabou, reli minhas anotações e comecei a pensar em estratégias de ações para manter a discrição e garantir a excelência em meu trabalho e para encontrar possíveis assassinos de meu cliente. Essa foi a parte mais demorada. Gostava de pensar em todas as possibilidades possíveis de ataque e em, pelo menos, três maneiras de solucioná-las. Perdi a hora mais uma vez, me alimentando com os pãezinhos da padaria ao lado do apartamento de Berenice, que ela sabia serem meus preferidos e colocara em minha mochila. Nem vi os moradores do apartamento novo em vinte e quatro horas. Ao me dar por satisfeita, tomei um banho rápido, no chuveiro magnífico, vesti uma calcinha confortável de renda rosa e uma camiseta de alças finas e justa em meu corpo e me deitei naquela cama espetacular. Apaguei em segundos e dormir um sono tranquilo. Acordei cedo naquela manhã de domingo. Com fome, fui direto para a cozinha, sem me ligar que estava em um apartamento diferente. Fucei em toda a cozinha, separando tudo o que me atraia e seria necessário para fazer um bom café da manhã para três – pelo menos eu lembrava que eram três pessoas agora, e não duas. Comecei pela água do café, colocando o suficiente em um bule e esperando que atingisse o ponto ideal. Enquanto esperava, lavei algumas frutas e coloquei algumas fatias de pão com manteiga e ervas no forno para torrarem. Assim que passei o café, piquei algumas frutas, misturando uma porção delas para fazer uma quantidade boa de salada de frutas. Eu estava na pia, lavando os utensílios que havia sujado quando ouvi passos. Não olhei para trás. _ Opa! – Ouvi Pietro se espantar atrás de mim. _ Bom dia! – Disse sem olhar para ele. _ Vista isso! – Ele jogou sua camisa em mim. Ela caiu no chão e por lá ficou. Achei que ele estava brincando comigo. _ Como pode ter coragem de aparecer assim? – Ele estava envergonhado e divertido ao mesmo tempo. – Esse é o modo devassa? _ Devassa? – Matteo perguntou curioso. Nos viramos ao mesmo tempo para ele e só então eu me dei conta de como estava vestida e onde estava. Puta merda! Estou seminua na casa do meu protegido! Parabéns mocinha! – Me reprendi mentalmente. Dei de ombros para os dois antes de respondê-los: _ É assim que eu durmo. – Estava mais tranquila do que esperava. _ Agora sabemos. Mas da próxima vez, se vista antes de sair do quarto – Pietro riu. _ Pode deixar, irmãozinho. – Disse um pouco provocativa. _ Que cheiro é esse? – Matteo perguntou. _ Fiz torradas. – Disse antes de me virar para o formo. Peguei as luvas que estavam no puxador, coloquei-as, abaixei enquanto abria a porta. A camisa de Pietro acertou minhas costas, me desequilibrando por conta do susto. _ Ei! – Repreendi-o. _ Eu não mereço vê-la dessa forma. _ Você já me viu de formas piores, ou já esqueceu Pietro? _ Naquela época você era um ser amorfo, como qualquer criança. Hoje você é uma mulher feita e é nojento te ver assim. _ Pietro, todo verão você me via de biquíni e é pior do que isso. _ É diferente. _ Não é não! A leve risada de Matteo interrompeu nossa leve discussão. Olhei para ele, todo confortável no balcão da ilha, sentado em um dos bancos e se divertindo com a situação. Ainda rindo, ele levantou os braços em sinal de “não tenho nada a ver com isso” e balançou a cabeça. _ Qual é a graça? – Pietro estava um pouco irritado com o amigo. _ Nenhuma, mas isso me faz lembrar minha irmã e eu. _ Ela também se veste assim? – Pietro perguntou, mas agora desarmado. _ Pode até ser, ela está casada agora e prestes a ter seu segundo filho. _ Mas já? Deixei que a conversa se desenrolasse entre os dois enquanto eu terminava de preparar o nosso café da manhã, organizando tudo sobre a ilha que fizemos de mesa. Continuei no meu canto, comendo sossegada, sem dar atenção aos dois. Claro que, sorrateiramente, admirava aquele deus em minha frente, sentado com sua calça de moletom cinza e confortável e sua camisa puída branca de mangas curtas que mostravam seus braços perfeitamente esculpidos e nada “monstro”, mas forte e bem trabalhado. Matteo! – Meu eu interior suspirou de desejo. _ Bela tatuagem. – Ele disse, olhando meu ombro direito. Aquele doce arrepio de desejo percorreu meu corpo, acordando-me. A v***a em mim pulou de alegria. Eu sorri pelo pervertido pensamento que dominou minha mente. _ São sakuras, não são? – Ele continuou. _ Sim, uma pequena homenagem ao meu irmão além do significado pessoal também. _ Você tem outras? Minha tatuagem começava nas costas, em sua base, com o tronco da árvore que cresce e se abre em flores, seguindo o contorno de minhas costas para a direita, onde termina em meu ombro e peito com algumas flores e pétalas caindo. Era o meu lado feminino, sempre cuidadosamente escondido, retratado em mim. _ Essa é bem grande, então, fiz só ela. _ É sério? – Pietro se interessou pela conversa. _ Ocupa um bom pedaço de minhas costas. – Respondi a ele. _ Posso ver? Antes de qualquer ação minha, ele já estava em minhas costas, puxando a parte de cima de minha blusa um pouco para trás. _ UAU! – Ele estava espantado, mas ainda sim, divertido. – É grande mesmo, quer ver? – Ele perguntou para o amigo. Ele olhou para mim, sério, por um breve segundo antes de fazer que não. Segurei para não agarrá-lo ali mesmo. _ Tem certeza? – Pietro continuou. _ Pietro! – Repreendi-o, batendo com minha colher em sua testa. Em resposta, ele fez cocegas em mim. Eu segurei meu riso, como sempre fazia para não incentivá-lo a mais. Quando ele parou, ele continuou atrás de mim, abraçando-me de um jeito carinhoso, com seus braços sobre meus ombros protetoramente. _ Terei outra oportunidade. – Matteo respondeu a Pietro, mas olhando em meus olhos. Havia uma pequena nota de sensualidade na voz divertida de Matteo. Claro que meu corpo reagiu a isso descontroladamente, sentindo o doce arrepio desfazê-lo em uma poça de carne humana. _ Já terminou? – Pietro perguntou, ignorando minha reação. _ Já terminei. _ Então vá se trocar. Pode deixar que a gente cuida do resto aqui. – Ele me empurrou do banco em que estava sentada. _ Bom, assim posso voltar para o meu trabalho. Quero deixar tudo pronto para amanhã. Meu irmão me deu um beijo no rosto antes de me empurrar para fora. Eu fui, mas assim que estava na porta, lembrei de um detalhe: _ Me avisem se forem sair para algum lugar hoje. A partir de agora, sou a sombra mais chata de vocês. – Brinquei um pouco, apesar de séria. _ Pode deixar. – Eles disseram, um de cada vez. Não os vi mais aquele dia, me tranquei novamente em meu quarto e voltei para meus papeis. Analisei-os mais uma vez, reescrevendo algumas partes e espalhando-os pelo chão do quarto de forma a criar um desenho coerente daquilo que eu queria. Levou mais algumas horas para me dar por satisfeita e só então ligar para meu pai. Pelo telefone, nós dois discutimos as minhas ideias e elaboramos estratégias para que tudo corresse bem em meu trabalho. Meu pai me surpreendeu, quando, antes de encerrar a ligação, perguntou por mim. Eu respondi a ele que eu estava bem, ainda me adaptando à nova vida com dois marmanjos em minhas costas. Ele riu e me contou que estava tudo bem em casa, que mamãe, apesar de sentir muito a minha falta, também estava bem e que logo ele daria um jeito de reunir a família toda. Ele se despediu de mim e encerrei a chamada. Minha próxima tarefa foi ligar para Berenice. Ela atendeu depois de alguns toques. _ Berenice? _ Amiga! Que saudade! Conta tudo. Quem é esse deus que apareceu em sua vida? Eu ri do desespero de minha amiga. _ Eu também já sinto sua falta. Ele não é para mim. _ Que seja, mas é um deus! Já teve a oportunidade de vê-lo sem roupa. _ Berenice, não! _ Deixa de pudor que essa não é a mulher que eu conheço. – Ela me repreendeu. _ Tudo bem, admito: ele é mesmo um deus. E não, eu ainda não o vi como veio ao mundo, muito menos vou ver. Ele é meu trabalho agora, não posso prejudicá-lo. _ Que seja! Conta mais. _ Ele me viu no modo “devassa”. – Admiti, envergonhada. _ Sério? – Tive que afastar o aparelho do meu ouvido para não ficar surda. _ Super sério. Hoje de manhã eu ainda não tinha me ligado que não estava em sua casa, então eu desci para a cozinha de calcinha e camiseta, como faço sempre. Eu só prendi meu cabelo em um coque meio bagunçado pra não atrapalhar, foi a única coisa de diferente. _ Mas e ai, o que aconteceu? _ Primeiro meu irmão apareceu. _ Não! Seu irmão te viu assim? _ Sim. _ Que horror! _ Pois é. _ E depois? _ Bem, meu irmão até tentou me proteger, jogando sua camisa para eu me vestir, mas já era tarde, ele já tinha me visto. _ Não acredito! _ Mas aconteceu. Eu m*l cheguei e já faço merda. Eu não sei o que teria acontecido comigo se meu irmão não estivesse junto. _ Eu sei, você teria se jogado nesse deus, que se chama? _ Matteo. Matteo Salvatore. – Disse tentando imitar o sotaque que ele usou. _ Que nome! Sexy como ele. _ Berenice, não me lembre disso. – Repreendi-a. Uma batida em minha porta me fez mudar o foco. _ Só um minuto Berenice, estão batendo em minha porta. _ Tudo bem. Me ligue amanhã. Sua irmã chegou e nós duas vamos sair, já estou até pronta. _ Tudo bem. Divirta-se e juízo. Te ligo amanhã à noite para saber como foi. _ Te espero. Beijos, amiga e boa noite. _ Boa noite para você também. – Desliguei a chamada. Procurei um robe e fui atender ao desesperado que insistia em bater na minha porta. Era Pietro. _ Não está vestida. – Ele reparou. Ainda estava da mesma maneira que de manhã. _ Estou no meu quarto. – Repreendi-o de volta. _ Tudo bem, se arrume. Estamos saindo para jantar e depois para algum outro lugar antes de a noite terminar. _ Aonde vai? _ Eu vou jantar com Vanessa e já que está aqui, você poderia acompanhar Mat nesse jantar. _ Ele não é uma possibilidade para mim, que fique bem claro. _ Que seja. Só que não pode dar na vista que está vigiando ele, ou vão saber. _ Está certo, o que devo vestir? Sempre me sinto molambenta quando saio com você. _ Algo leve, mas nada de mais. Quer que eu escolha pra você? – Ele entrou no meu quarto. Atrás dele, fechei a porta enquanto ele dava uma boa olhada na bagunça em meu chão. _ O que é tudo isso? – Ele apontou para os papeis. _ Meu trabalho. – Ele olhou para mim sem entender nada. – Estratégias de defesa. – Expliquei. _ Não acha isso um pouco exagerado? _ São poucas. Precisa ver o tanto que acumulei ao proteger Berenice. Ainda não estou satisfeita com essas, mas liguei para o papai e ele me orientou bastante. Por hora, ficarei com essas e, no decorrer dos anos eu vou acrescentando mais algumas. _ Parece bom. _ Bem, eu vou tomar banho. Fique a vontade no closet. Você deve entender dele melhor do que eu. – Provoquei. Ele fez careta antes de ir para lá. Eu fui para o banheiro. Lá, tomei um banho rápido, lavei meu cabelo e usei o difusor para secar os cachos. Assim que saí dali, já levemente maquiada, vi que meu quarto estava arrumado, com as folhas colocadas cuidadosamente na mesinha ao lado da poltrona e com tudo o que eu deveria usar àquela noite cuidadosamente colocado na cama. Bem, quase tudo. Fui para o closet só para pegar uma lingerie que não marcasse no tecido do vestido e terminei de me arrumar. Um tempo depois já estava pronta. Cabelo cuidadosamente bagunçado, sem desfazer os cachos, mas dando o volume que eu tanto gostava, maquiagem delicada, vestido alinhado e sapatos de salto delicados. Antes de sair, peguei uma pequena adaga e uma delicada perneira e as prendi em minha coxa, mantendo-as escondidas pelo tecido do vestido. Só precaução para o que estava por vir.
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