CAPÍTULO 2

3890 Words
Um mês depois MORENA BOA QUE ME FAZ PENAR Não sei por que justo hoje eu me lembrei de Thierry... Que nome bonito, perfeito para ele, há quase um mês eu conheci o francês “delícia” e ele nunca mais voltou a nenhum ensaio aberto da Mangueira. Acordei cedo e fui até o quarto ao lado e nada de Max. Um frio tomou o meu estômago, onde será que ele dormiu? Que tipo de merda o meu irmão está fazendo desta vez? Não posso me desesperar agora, preciso concentrar-me e arranjar um jeito de sustentar a minha casa. Estou procurando emprego há um bom tempo e até agora não consegui nada na minha área. Formei-me em Psicologia no ano passado com muito custo, às vezes olho pra trás e não acredito que eu sou a primeira na família a obter um diploma universitário. Venho de uma família muito pobre, tudo na minha vida foi conquistado sempre com muita luta, muito suor. Estudei desde a infância em escolas públicas, depois de fazer um cursinho aqui na comunidade, passei no vestibular da UERJ e me formei com louvor. Iniciei a minha pós-graduação em Psicoterapia infantil e espero conseguir um emprego na área de minha especialização, eu adoro trabalhar com crianças. Não estou podendo dedicar-me ao projeto social de reforço escolar para crianças da comunidade, porque eu preciso muito conseguir um emprego, infelizmente tive que escolher gastar sola de sapato todos os dias, atrás de um emprego para sustentar as despesas e me manter com dignidade. Todo dia é a mesma via crúcis, eu acordo bem cedinho, saio de casa às vezes sem tomar café e levo currículos para várias empresas e hospitais. Tanto trabalho por nada, eu nunca sou chamada pra nenhuma entrevista. Após conversar ontem com Jorginho Kaká, um amigo da ala de compositores, eu soube que surgiu uma vaga de Psicoterapeuta no Consulado da França. Jorginho me disse que um figurão que trabalha lá está entrevistando psicólogas para uma vaga de psicoterapeuta, não entendi ao certo qual é o tipo de serviço, mas como estou desesperada pra conseguir um emprego, decidi ir lá pra saber do que se trata. Depois de umas cervejas ele contou-me que ouviu uma conversa do Presidente da escola que estava falando pra alguém e que esse outro alguém repassou pra ele. Enfim, um boato muito embolado que passou de boca em boca. Mas não tenho nenhum problema em fuçar qualquer coisa que me interessa. Então fui conversar com Dona Semira da ala das baianas, e ela intercedeu ao meu favor com o Presidente, que aceitou me indicar para essa vaga de emprego. Eu deixei meu currículo na segunda-feira no Consulado e fiquei muito feliz em saber que fui aprovada na avaliação curricular inicial e participaria da próxima etapa. A entrevista foi marcada para hoje, quarta-feira, às treze horas. Eu fui orientada a apresentar-me no gabinete do secretário do Cônsul geral, o Sr. Lemond. Vesti a minha roupa mais apresentável, uma saia lápis preta, cinto largo preto e camisa social branca. Tudo obviamente comprado em liquidação, mas a pasta de couro e o scarpin preto deixaram-me com um ar mais profissional. Dei sinal e tive a “grata surpresa” que como sempre o ônibus está lotado, por isso tenho que tomar o maior cuidado pra ninguém amassar a minha roupa. O Consulado fica no centro da cidade, graças a Deus eu cheguei antes do horário marcado e fui recebida educadamente por uma recepcionista de sotaque belíssimo. Ela prontamente me indicou a sala onde eu serei recebida pelo Sr. Lemond. Segui a recepcionista que me levou até uma sala onde encontrei com um homem sentado entretido em suas atividades, é um senhor de aparência distinta, branco, de meia idade e muito bem vestido. Ele apertou a minha mão de forma polida e eu sentei-me a sua frente. — Senhorita Beatriz Fontes, correto? — Sim, sou eu mesmo. — Prazer em conhecê-la, Phillipe Lemond. — O prazer é todo meu, Sr. Lemond. Sr. Lemond observou-me por quase uma eternidade através dos óculos que caiam em seu nariz. Após toda essa observação visual, ele começou a me perguntar sobre as minhas pretensões salariais, experiências com crianças, disponibilidade de horário e explicou-me um pouco sobre a função da vaga de psicóloga. — Caso a senhorita seja contratada para o emprego, a vaga é de terapeuta infantil. O local de trabalho é a casa de Monsieur Perrot, você pode me entregar a sua carta de apresentação que eu analisarei e entro em contato. Estou tão nervosa procurando a maldita carta de apresentação que acabei me atrapalhando toda pegando a pasta com os meus documentos. Que merda, por que eu tenho que ser desastrada desse jeito? Abaixei-me, ajoelhando no tapete caro do escritório, pra pegar a pasta e alguns objetos da minha bolsa que caíram no chão. Estava entretida em ajeitar minhas coisas e só ouvi a porta abrir e o Sr. Lemond agitar-se. Merda, mil vezes merda, ele agora vai atender outra pessoa e a minha chance de conseguir essa vaga foi pras picas. Foi quando olhei em direção à porta e aquela figura enigmática e distraída ressurgiu à minha frente. O choque inicial é tão grande que eu quase caio de b***a no chão. — Monsieur Perrot, deseja alguma coisa? — Eu preciso dos relatórios sobre os vistos negados, queria verificar a descrição das recusas. Ele levanta devagar a cabeça e arregala os olhos quando finalmente me reconhece. Vem em minha direção e eu não sei como agir. Eu levanto-me com certa dificuldade e começo a alisar a saia para disfarçar o tremor nas mãos. Thierry estende a mão para mim e eu retribuo, ele aperta a minha mão, ignorando a presença do Sr. Lemond. — Beatriz, como vai você? — Bem, obrigada senhor. Ele continua parado no meio da sala me olhando surpreso, como se eu fosse uma aberração de circo. — Que bom ver você, o que te trouxe aqui ao Consulado? O Sr. Lemond adianta-se rapidamente e responde em meu lugar, pelo visto estou de frente ao baba ovos do Consulado francês. — A senhorita Beatriz Fontes veio até aqui para a entrevista da vaga de psicoterapeuta que o senhor quer contratar. Eu já estava terminando com a entrevista dela, entrego o relatório na sala do senhor em cinco minutos. Neste pequeno instante, a sensação é de que não há mais ninguém nesta sala, só eu e ele. Thierry responde ao Sr. Lemond sem sequer olhar em sua direção, os olhos cravados no meu. —Lemond, eu mesmo entrevistarei a senhorita Fontes, não quero ser interrompido. Os seus olhos percorrem meu rosto e pousam em minha boca. Sr. Lemond tenta em vão adquirir novamente a sua atenção. — O senhor tem uma reunião às quatorze horas. — Cancele. Seu olhar inquisitivo desce até os meus pés, ele para e observa os meus sapatos altos, entreabre os lábios, sorrindo sutilmente e curva-se depois, em minha direção, invadindo o meu espaço pessoal, sussurrando em meu ouvido. — Nada m*l, mas eu prefiro você descalça. Sr. Lemond começa a gaguejar, quando enfim consegue dizer: — Mas, depois tem a teleconferência com os empresários... Thierry levanta a mão em direção ao Sr. Lemond, porém sem mirá-lo, impedindo-o de concluir o seu argumento, o pobre homem estanca o que está dizendo. — Cancele. Senhorita Fontes, por favor, me acompanhe. Fico insegura se eu fujo dessa situação esquisita ou o acompanho, apesar de trêmula e em meio ao olhar fuzilador do Sr. Lemond, sigo Thierry até uma sala enorme. A decoração é conservadora e elegante, nas paredes há alguns quadros e um acervo de fotos antigas de imagens da França e de algumas pessoas que parecem ser autoridades do país. Ele indica-me um sofá para eu acomodar-me e em vez de se acomodar em sua cadeira, senta-se ao meu lado. A proximidade de seu corpo deixa-me alerta e incomodada. Eu posso sentir o seu cheiro cada vez mais perto, mais intenso e marcante. A combinação de perfume caro e cheiro de macho, parece ao meu olfato, naturalmente perfeita. Meus olhos percorrem as formas do corpo de Thierry disfarçadamente, as mãos grandes repousadas calmamente nos joelhos, as longas pernas cruzadas. Como eu posso me concentrar em uma entrevista de emprego com esses olhos azuis tão próximos, me observando? — Você sabe de que tipo de emprego se trata a entrevista, Srta. Fontes? — Não, Thierry, desculpe-me, Sr. Perrot. Ele curva os lábios como se fosse sorrir, eu preciso lembrar-me de continuar chamando-o de Sr. Perrot. Isso não se trata de uma paquera em uma tarde alegre de samba e sim uma proposta de emprego sério. Percebendo que eu tenho dúvidas quanto ao emprego, ele adianta-se e me esclarece de forma muito profissional sobre o perfil do profissional que ele quer contratar. — Eu preciso de uma terapeuta para tratar do meu filho. Tem que ser alguém que tenha experiência com criança e que acima de tudo, goste e seja paciente ao lidar com crianças com necessidades especiais. Presto bastante atenção a tudo que ele explica. Então resumidamente a proposta de trabalho trata-se de acompanhar o filho dele, que tem algum tipo de necessidade especial e precisa de terapia. Apesar de ser meu primeiro emprego, acho que posso exercer a função. — Entendo. Poderia passar-me algumas informações sobre seu filho, quantos anos ele tem, o tipo de necessidade especial ou outro detalhe? — Caso a senhorita tenha interesse, explico-lhe todos os detalhes, estou indo almoçar, seria uma boa oportunidade para conversarmos e eu passar tudo isso para você. — Eu tenho interesse na vaga, mas não vim preparada financeiramente pra isso, infelizmente não vou poder ir. Eu posso retornar outro dia que o senhor queira marcar. A expressão dele momentaneamente se torna carregada, afinal o que eu disse de errado? — Assim eu fico ofendido, eu a convidei. É óbvio que o almoço é por minha conta, que tipo de homem pensa que eu sou? Eu fico envergonhada, não sei que tipo de homem ele é, mas eu penso: em que tipo de planeta esse cara vive? Hoje em dia é mais do que natural cada qual pagar a sua conta, até porque isso não é um encontro amoroso e sim uma reunião sobre trabalho. — Eu não quis ofendê-lo, só acho natural cada um pagar a sua conta se tratando de uma reunião sobre trabalho e hoje estou desprevenida financeiramente. — Podemos ir andando ou você quer continuar a discutir sobre dividir contas aqui mesmo? As rugas em sua testa demonstram que ficou irritado, eu aceito acompanhá-lo. — Podemos ir. Chegamos a um bistrô elegante no Leblon, quando olho para a mesa, são tantos talheres que eu nem sei por onde começar. O garçom aproxima-se com o cardápio e uma carta de vinhos. — Me acompanha em um vinho? — Só um pouco, não tenho costume de beber. — Eu também não, mas só uma taça de vinho é sempre uma exceção. Tomar um vinho será bom, eu estou uma pilha de nervos, além da proximidade dele que me deixa à flor da pele, eu quero muito conseguir esse emprego, Jorginho Kaká disse que o salário é bom e eu estou em uma pindaíba de fazer pena. Eu olho o cardápio de um lado para o outro e esses nomes de pratos são palavrões pra mim, por que as pessoas gostam tanto de dificultar a vida, será que aqui não rola um bife com fritas? — Você já escolheu senhorita Fontes? — Não e o senhor? — O Coq au vin daqui é delicioso, quer provar? — Se eu soubesse do que se trata, quem sabe eu até provaria. Sua expressão suaviza-se, eu quase vejo um sorriso, eu também sorrio. Sei lá que merda é essa, eu só quero almoçar, conseguir a vaga de emprego e fugir um pouco da presença intensa desse homem. — É só um frango gostoso com um nome cheio de frescuras, nada além, senhorita Fontes. Precisam dar um nome esdrúxulo desses pra um frango? Esses franceses não sei não, adoram complicar a vida. — Então acho que vou aceitar, eu gosto de frango. Thierry faz o pedido e almoçamos conversando amenidades, nenhum assunto profissional. Ele é um homem muito gentil, mas de poucas palavras, a expressão séria às vezes suaviza-se com breves sorrisos. Não sei dizer por que eu tenho essa impressão, mas percebo que esses olhos escondem uma dor, uma ferida aberta em sua alma que ainda não cicatrizou. Eu estou distraída imaginando o que fez esse homem ter vergonha de sorrir abertamente, o que esconde essa fachada de frieza e polidez? Thierry bebe o vinho calmamente, os dedos longos brincando com a borda da taça enquanto me encara, o seu olhar um misto estranhamente harmônico de escuridão e calor intenso. As suas feições pra mim são um mistério, não consigo decifrar o que realmente se passa pela cabeça desse homem enquanto me encara tão fixamente, ele absorve os meus movimentos com o olhar, é inquietante. — Eu pago um milhão pelos seus pensamentos, senhorita Fontes. Eu prefiro não me expor e principalmente, queria muito não sentir a atração arrebatadora que me assalta toda vez que ele me olha. Queria não estar tão perto e ser tomada pelo jeito quente como ele me encara, como se desnudasse a minha pele, só através do olhar. Infelizmente essas sensações não podem ser ditas. Se ele sabe esconder o que pensa, eu também sei. A sua voz rouca me chamando de senhorita Fontes é a última coisa que eu preciso, atormentando os meus ouvidos. Pensar nele sussurrando meu sobrenome em meu ouvido, além de desnecessário, é perda de tempo. As diferenças que nos separam, são difíceis de unir por pontes. Tenho que manter o decoro profissional, aquele momento pra lá de estranho no samba ficou no passado. Agora preciso esquecer o t***o que ele me causa, se eu realmente quero conseguir esse trabalho. — Não estou pensando nada demais, eu prefiro que o senhor me chame de Beatriz. — Como você preferir, Beatriz. — Me fale mais sobre o seu filho. Thierry abaixa a cabeça e olha para o colo com o cenho franzido, os lábios apertados, os seus olhos profundos perderam o viço, falar sobre as limitações do filho é algo que nitidamente o incomoda. — Christopher tem seis anos e parou de falar a dois anos. O psiquiatra diagnosticou mutismo seletivo, ele é um menino sensível e muito introspectivo. Ele estuda em uma escola maravilhosa para alunos com necessidades especiais e eu preciso de uma terapeuta para acompanhá-lo e tratá-lo junto com o psiquiatra que já cuida dele todos esses anos. Acho que o ideal é que você o conheça e depois você decide se aceita acompanhá-lo ou não. — Ok, será ótimo. Quando eu posso conhecê-lo? — Se você não tiver nenhum compromisso, posso levá-la até a minha casa agora, eu só preciso fazer uma ligação. Eu vou até o banheiro e quando volto, ele está compenetrado terminando a ligação. —Dubois, diga a Lemond para cancelar os meus compromissos de hoje, qualquer coisa me mantenha informado. Não! Isso vai ter que ficar pra amanhã, eles podem esperar, qual a parte do cancelar ele não entendeu? Eu tenho que desligar. — Algum problema, Sr. Perrot? Ele dá de ombros e levanta-se deixando três notas de cem reais na mesa. — Não, só alguns compromissos que vão esperar até amanhã, podemos ir? Eu não quis ser enxerida, mas ouvi o telefonema irritado de Thierry e não gostaria de atrapalhar os seus compromissos firmados anteriormente. — Se o senhor preferir, nós podemos marcar outro dia para eu conhecer Christopher. Ele pega a minha mão surpreendendo-me com o seu toque súbito. — De jeito nenhum, tudo pode ficar pra depois, vamos Beatriz. Eu o acompanho até um Chrysler 300s preto imponente e seguimos até a sua casa que fica no alto Jardim Botânico em uma área bucólica e reservada. A construção de muros altíssimos esconde uma casa duplex requintada, com uma piscina em meio a um gramado bem cuidado, construída em madeira, a sala com as paredes todas em vidros, repleta de plantas e flores. Elegante e rústica, a casa de Thierry reflete o seu bom gosto, uma casa acolhedora e de detalhes harmônicos. Ele joga uma pasta e o terno no sofá, sentando-se ao meu lado. — Quer beber alguma coisa? — Não, depois talvez, onde está Christopher? — Deve estar no quarto dele, eu já vou te levar pra conhecê-lo, me acompanhe até a cozinha, eu quero que conheça a governanta daqui de casa. Ele me leva até a cozinha e apresenta-me a uma senhora de aproximadamente uns sessenta anos, mulata, magra e delicada. — Beatriz, esta é Joana, a responsável por manter a rotina da minha casa em dia, é o meu braço direito. Joana, Beatriz é terapeuta e provavelmente vai trabalhar aqui em casa, com Christopher. Trocamos apertos de mão e a pequena senhora abre-me logo um sorriso. Se eu trabalhar aqui, acho que vamos nos dar bem, ela é daquele tipo de pessoa que você simpatiza logo de cara. Despeço-me de Joana e Thierry conduz-me até o quarto de Christopher, no andar de cima da casa. O quarto é imenso para uma criança sozinha. Muito bem decorado, móveis com design moderno, alguns brinquedos educativos pelo chão e videogame. Sentado no meio quarto, Christopher brinca com um cachorro. Thierry aproxima-se com passos lentos, abaixa-se e afaga a cabeça do filho. — Christopher, esta é Beatriz, ela vai cuidar de você, igual ao Tomás, você quer conhecê-la? O menino continua distraído brincando com o cachorro, olha rapidamente pra mim e retorna a atenção ao que estava fazendo antes de Thierry interrompê-lo. É uma criança linda, os olhos azuis parecem com os do pai, porém, a tristeza que emana do olhar é mais palpável, mais tangível. Christopher é muito branquinho, pálido, as bochechas avermelhadas e o corpinho bem magrinho, frágil. Os cabelos quase loiros provavelmente parecem com os da mãe. Eu sento no chão e começo a alisar a barriguinha do cachorro, ele olha-me e a expressão do seu rosto suaviza-se. Ficamos nessa linguagem de reconhecimento só nossa, até que o menino pega a minha mão e leva em direção as orelhas do cachorro. — Ele gosta de carinho aqui, Christopher? Afago as orelhinhas do cachorro e quase posso ver um sorriso em seu rosto, quando olho pra Thierry, ele está visivelmente satisfeito, é provável que Christopher não permita que outras pessoas façam contato com ele tão rápido, eu também fico satisfeita com a empatia que senti rapidamente por essa criança tão linda e tão triste. Sutilmente eu pego as suas mãozinhas e coloco embaixo das minhas. Nós afagamos o corpinho do animal, que está adorando esse carinho. Ficamos assim por um bom tempo, Thierry interrompe-nos me chamando pra conversar lá na sala. — Beatriz, nós podemos conversar agora? — Claro. Christopher, até logo. Ele vira-se em minha direção prestando atenção em mim por alguns segundos e logo depois volta a brincar com o seu cachorro. Vamos para a sala e Thierry oferece-me uma taça de vinho, ele parece cansado, preocupado, após eu beber a metade da taça, ele a pega da minha mão e repousa na mesa de centro, quando quebra o silêncio um pouco tenso. — Beatriz, agora que você conheceu Christopher, vai aceitar trabalhar com ele? — Vou, eu te confesso que é o meu primeiro emprego como psicoterapeuta, mas acho que posso fazer um bom trabalho com ele. Apesar de sua postura suavizar-se um pouco, ele ainda está tenso, os dedos tamborilam nervosamente nas coxas, há algo que ele quer me dizer e eu fico aguardando ele conseguir se abrir. — Beatriz, a minha proposta de trabalho exigirá muito de seu tempo, os termos terão que ser de acordo com o que eu planejei, senão nada feito. Quero você aqui todos os dias, sua suíte será ao lado do quarto de Christopher. Você terá folga aos domingos ou outro dia que podemos negociar. Vou ao escritório pegar o contrato, quero que leia as cláusulas e o salário que será pago, se você concordar, poderá começar amanhã mesmo. Penso em protestar, não acho que seja necessário praticamente mudar-me pra casa dele, não posso ausentar-me de casa assim. O meu irmão precisa de mim, mas também não posso negar de cara sem saber o salário. Eu preciso sustentar-me, além de precisar de dinheiro para resolver os problemas que Max sempre arranja. Thierry volta com o contrato e quando eu leio o valor do salário estipulado, quase tenho um colapso. Eu nunca receberia um salário de dez mil reais como uma psicóloga recém-formada, além de gostar de trabalhar com crianças, essa experiência será maravilhosa para o meu currículo profissional. Leio o contrato de trabalho e peço-lhe uma caneta, ele suspira profundamente, seu rosto suaviza-se ao ver que eu assinei o contrato e que concordei com o que foi proposto. — Caso você queira modificar qualquer coisa em sua suíte, fique à vontade, quero que você sinta-se à vontade aqui, a partir de amanhã, esta também é sua casa, Beatriz. — Eu preciso que me dê uns dias para me substituírem no projeto de reforço escolar, não posso começar amanhã, mas depois só vou trazer meus objetos pessoais, para mim está tudo ótimo, eu sou muito simples, Sr. Perrot. Ele pega a minha mão e afaga os meus dedos, deixando-me tensa e excitada. — Thierry, me chame de Thierry, você fala meu nome de um jeito... Desculpe-me, não posso falar essas coisas. — Não acho muito ético ficarmos de mãos dadas. Ele solta a minha mão de repente com o rosto corado, visivelmente envergonhado, ele não é imune a mim, assim como eu enlouqueço só de ficar perto dele. Thierry leva-me até em casa, ficando acertado que eu começarei a trabalhar dentro de três dias, quando vou ao quarto de Max ele não está dormindo, em cima da cama há uma carta, minhas pernas enfraquecem, sento-me na cama e meu coração aperta sabendo que ele fugiu, preciso tomar coragem pra ler e confirmar a minha suspeita. Em garranchos m*l escritos, posso ler. Bia, tô saindo fora, mas fica numa boa, eu estou legal, fique bem. Max. Ah, tá! Como eu não vou me preocupar sabendo que o meu irmão caçula está nas ruas fazendo todo tipo de merda, dormindo ao relento, enquanto eu começarei a minha vida profissional morando numa casa saída de capa de revista? Choro, eu deixo que as lágrimas venham, eu sou uma mulher de 25 anos que vivi a minha vida inteira toda tomando conta das outras pessoas e estou cansada dessa merda em que eu me atolei. Antes de mamãe morrer de cirrose hepática, os papéis em minha família eram invertidos, eu que tomava conta dela, recolhendo os seus cacos quando voltava pra casa, depois de noites e mais noites de bebedeira. E agora, depois que mamãe morreu, Max terminou de me dar o golpe final, entrando de cabeça no vício das drogas, dormindo em casa só quando estava limpo, entre uma crise e outra de abstinência, escondendo-se dos traficantes. Isso não é vida decente, eu tenho o direito de ter mais, de sonhar um pouco mais, quem sabe esse trabalho não será o começo da mudança de rumo em minha vida?
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