Um mês.
Trinta dias de beijos interrompidos no limite.
Trinta noites dormindo abraçados.
Trinta manhãs acordando com o corpo em guerra contra a própria vontade.
No começo, Vittorio acreditou que seria simples.
Esperar fazia parte do controle. E controle era o que sustentava o mundo dele. Negócios, territórios, alianças — tudo se mantinha porque ele sabia esperar o momento certo.
Mas esperar Siena era diferente. Porque ela não era estratégia.
Era fome.
A rotina deles se construiu em silêncio e tensão.
De manhã, ele saía antes do sol nascer. Ligações em voz rouca e autoritária, homens entrando e saindo do escritório da casa, decisões que carregavam consequências que Siena preferia não perguntar.
Ela fingia normalidade.
Siena estava sempre buscando coisas para a casa, sempre cuidando do quarto deles, o único cômodo em que os funcionários não entravam, e sempre cuidando de si. Apesar de ter um marido controlador e possessivo, ele gostava de vê-la bem, unhas diferentes, cabelo cuidado, aparência impecável.
À noite, eles se encontravam de verdade.
Jantares tranquilos.
Conversas longas.
Risos que vinham com mais facilidade a cada dia.
E os beijos.
Sempre os beijos. Era a unica coisa que Siena permitia acontecer.
Quentes.
Profundos.
Perigosamente longos.
Siena já não recuava no primeiro toque.
O corpo dela aprendia o caminho até ele.
As mãos seguravam a camisa com vontade.
A respiração falhava antes mesmo de se afastarem.
Ela o queria.
E Vittorio sentia isso.
Sentia… e esperava.
Toda vez.
O autocontrole dele virou tortura.
Naquela noite, ele chegou mais tarde que o normal. O terno cheirava a rua, à pólvora distante, à tensão. Siena estava na sala, enrolada no sofá, esperando por ele.
— Você demorou… — murmurou sonolenta.
— Trabalho.
— Eu não gosto quando demora tanto… me deixa insegura — disse ela, com uma pitada de ciúmes.
Ele percebeu e riu baixo. Ajoelhou na frente dela, passando o polegar pelo rosto cansado
— Minha piccina, eu só tenho olhos e desejo por você. Não precisa se preocupar com outra mulher.
— Não estou preocupada — respondeu, tentando disfarçar. — Eu só quero tê-lo ao meu lado.
Ele a beijou.
O beijo começou ali.
Lento.
Cansado.
Cheio de saudade.
Siena deslizou para o colo dele sem perceber. As pernas encaixaram no quadril dele por instinto, e o corpo de Vittorio respondeu na hora.
A mão dele apertou a cintura dela com força demais.
O beijo aprofundou.
A respiração perdeu o ritmo.
Quando ele a levantou no colo, já estava decidido a não parar.
Só que, no meio do caminho até o quarto, Siena congelou.
O corpo travou.
Ele sentiu.
Sentiu a rigidez.
Sentiu o medo voltando como um fio invisível puxando ela para longe.
E aquilo o irritou. A mesma situação de sempre.
Ele a colocou no chão com cuidado demais para um homem que estava à beira de perder o controle.
— Um mês, Siena… — a voz saiu rouca. — Um mês.
Ela abraçou os próprios braços.
— Eu estou tentando…
— Eu sei que está tentando — ele cortou. — Mas você não confia em mim.
A palavra caiu pesada.
— Eu confio! — ela respondeu rápido demais.
— Então por que toda vez que eu te toco… você me olha como se eu fosse virar outra pessoa?
Silêncio.
Os olhos dela encheram. E ele soube que tinha acertado.
A ferida não era o toque. Era a memória.
— Foi ele… — ela sussurrou. — O Eduardo, o homem do casamento.
Siena se aproximou sem perceber. As pernas encaixaram no quadril dele por instinto, e o corpo de Vittorio reagiu na hora.
— Que… — a garganta fechou — que queria me ver… que daria qualquer coisa pra… — ela não conseguiu repetir a palavra.
Não precisava. Vittorio já sabia.
A mandíbula travou.
Os olhos escureceram de um jeito que Siena nunca tinha visto.
Raiva pura.
Não dela.
Dele, de não ter percebido antes.
— Ele disse que você não acreditaria em mim — continuou, chorando. — Que a lealdade dele valia mais do que eu. E desde então… quando você me toca… eu só consigo pensar que viro aquilo que ele descreveu.
— Você não é o que ele disse. — A voz dele era baixa, firme, absoluta. — Você é minha porque eu não suporto imaginar outra pessoa perto de você. Mas você não é objeto. Não é brinquedo. E eu falhei em não arrancar a língua dele quando tive chance.
Ela deu um passo à frente.
— Eu achei que… se eu dissesse… você ficaria bravo comigo, e me machucaria.
— Eu vou m***r ele — respondeu, simples. - Mas você minha piccina, precisa começar a acreditar que eu não vou te machucar, eu não estou bravo com você, eu quero cuidar de você.
Não era ameaça.
Era certeza.
O choque fez Siena prender a respiração com o que ele iria fazer com aquele homem, e ao mesmo tempo, seu coração foi nutrido por um sentimento que vinha crescendo e ela não sabia descrever.
— Por você. Ninguém fala assim com a minha mulher e sai sem consequências.
Ele a beijou mais uma vez.
E saiu para resolver o que precisava.
Não havia motivo para esperar.