Capítulo 12 — Londres

1229 Words
Na manhã seguinte, Vittorio acordou antes de Siena. Ela ainda dormia profundamente, cansada da noite intensa que tinham vivido. O rosto relaxado, a respiração tranquila. Ele ficou alguns segundos apenas observando. Cada dia mais apaixonado… e, pela primeira vez, se permitindo demonstrar. Ainda não sabia fazer muitas coisas simples. Mas se esforçou. Preparou o café. Normalmente era Siena quem cuidava disso. Pequenos gestos domésticos que ele jamais tinha valorizado antes… até ela existir. Subiu com a bandeja com cuidado. Siena dormia como um anjo, e o peito dele apertou num sentimento que era novo demais para um homem como ele. Sorte. Ele tinha sorte de tê-la. Colocou a bandeja na mesinha da varanda e voltou para a cama. Sentou ao lado dela e começou a acordá-la com beijos suaves no rosto, no ombro, no pescoço. Siena despertou devagar, sorrindo ainda sonolenta. — Bom dia… — murmurou. — Bom dia, piccina. Ela abriu os olhos, surpresa com a bandeja. — Você fez isso? — Não se acostuma — ele riu baixo. — Foi exceção. Tomaram café conversando sobre coisas simples. Risos leves. Normalidade rara e preciosa. Mas ele precisava contar. — Piccina… hoje vamos precisar viajar. Ela ergueu o olhar. — Viajar? — Preciso resolver as consequências do que aconteceu com Eduardo. Vai ter uma cúpula. Em Londres. Sua irmã e Luca vão também. Você não vai ficar sozinha. Siena tentou esconder a empolgação… e falhou. — Londres? — sorriu largo. — Eu nunca imaginei que conheceria Londres. — Vamos ficar em uma de nossas casa de lá, não em hotel. É mais seguro pra vocês. Luca jamais ficaria em paz sabendo que sua irmã está exposta. Ela levantou animada. — Eu preciso tomar banho e ligar pra Bea! Ela vai surtar! — Eu vou tomar banho com você — ele disse, levantando também. Siena virou com um sorriso travesso. — Vittorio… hoje é só banho. Ele riu. — Só banho. ⸻ O céu de Londres era cinza quando o avião pousou. Não o cinza triste. O cinza pesado. Siena sentiu aquilo no peito antes mesmo de sair do aeroporto. Vittorio já estava diferente. O telefone não saía da mão. Homens esperando. Carros pretos. Olhares atentos demais. Ele segurava a mão dela o tempo todo, mas a presença… não estava inteira ali. E Siena percebeu. Não reclamou. Só guardou. Beatrice caminhava ao lado de Luca como se aquele mundo fosse natural. Postura ereta. Silêncio elegante. Nenhuma hesitação. Siena observava a irmã. Queria aprender a respirar daquele jeito. A casa era luxuosa. Muros altos. Segurança em cada canto. Câmeras, homens armados como ela nunca tinha visto antes, portas pesadas. Tudo parecia proteger. A vista da cidade era bonita… distante… inalcançável. Assim que entraram na suíte, Vittorio soltou o primeiro suspiro do dia. — Tenho reuniões — disse, tirando o paletó. — Não sei que horas volto. Siena assentiu e se aproximou para o beijo de despedida. Ela estava aprendendo a não atravessar portas que não eram dela. Ele segurou o rosto dela com carinho. — Fica com a Beatrice. Prefiro que não saiam… mas se forem, não vai sozinha. Leva pelo menos três homens com vocês. — Eu sei. Disso com um riso baixo. O beijo foi rápido e distante. E aquilo ecoou dentro dela quando a porta fechou. ⸻ — Você se acostuma — disse Beatrice, olhando a cidade pela janela. Siena virou. — Com o quê? — Com essa versão deles. Beatrice não parecia triste. Parecia lúcida. E estranhamente feliz. — Eles não pertencem a lugar nenhum. A gente aprende que, mesmo com isso… nós somos o único lugar ao qual eles pertencem. Amar homens como eles é escolher a tempestade… e aprender a respirar dentro dela. O silêncio que veio depois foi entendimento. — Bea… — Siena murmurou. — Eu ainda não consegui chegar lá com ele. Tenho medo de me machucar. De não ser suficiente. Beatrice riu baixo. — Eu sei exatamente como é. Minha primeira vez também não foi logo após o casamento. Luca precisou ser paciente. E eu precisei confiar. Se Vittorio te ama como diz… ele vai esperar. E se você o ama, e sei que ama, você vai confiar. Isso é natural. Acontece no tempo certo. Siena arregalou os olhos. — Está tão na cara assim? — Está, Sia. O olhar nunca mente. O jeito que você olha pra ele, o jeito que ele te olha. Vocês se olham como eu e Luca nos olhamos. E Siena sentiu o coração aquecer, porque ela já o amava, mas não sabia colocar em palavras. ⸻ Os dias em Londres criaram uma rotina estranha. Manhãs femininas. Tardes vazias. Noites incertas. Ela e Beatrice passavam horas escolhendo móveis para a casa nova em Portugal que Vittorio havia comprado para ela. Tecidos, louças, detalhes minúsculos que davam a ilusão de controle. Decidir cores era mais fácil do que decidir sentimentos. Mas toda noite, depois das dez… Siena olhava o celular. Onze. Meia-noite. Uma da manhã. Cada minuto criava imagens que ela não queria ver. Londres era famosa por muitas coisas. E ela conhecia uma delas, a prostituição era algo tão comum ali, que ela ficava cada dia mais insegura. O medo não era racional. Era c***l. Talvez ele não fosse tão paciente. Talvez estivesse buscando alívio em outro lugar. E quando voltava… parecia mais distante. Quando Vittorio chegava, o cheiro da rua vinha com ele. Frio. Fumaça. Noite. Ele a abraçava. Sempre. Mas Siena demorava alguns segundos a mais para relaxar. Como se precisasse confirmar que ele ainda era dela. ⸻ Na quarta noite, ela não conseguiu dormir. Sentou na cama e ficou observando ele dormir pesado ao lado. Mesmo em repouso, o rosto carregava guerras invisíveis. E ainda assim… O medo de se entregar completamente morava nela. Siena deslizou os dedos pelo braço dele. Ele a puxou para perto por instinto. Mas ela travou. e negou o abraço, estava brava demais para continuar fingindo que nada estava acontecendo. Vittorio acordou na hora. — O que foi? — Nada… — murmurou. Ele sentou. — Siena. Eu te conheço, muito antes de você virar minha esposa. Silêncio seu nunca é nada. E ela chorou. A raiva veio junto com o medo. — Você mente pra mim! — disse, a voz quebrando. — Diz que está apaixonado, mas não olha mais pra mim como antes. Não me beija como antes. Eu sei que não sou como as mulheres que você queria… mas eu não consigo ser outra pessoa, eu não consigo me entregar ainda! O peito dele apertou. — Siena, olha pra mim. Ela olhou. — Eu jamais estaria com outra mulher. Você é tudo o que eu preciso. Tudo. Se fosse necessário, eu assinava isso em sangue. Eu amo você. Mesmo antes de te ter… eu já te amava. Aprendi a te amar de longe. A te observar. A esperar. Você não sabe o que foi te querer sem poder chegar perto. A voz dele falhou. — Eu estou fazendo tudo isso pra te proteger. Pra te deixar segura. Eu posso não ter sido sua escolha… mas você sempre foi a minha. Siena chorou de alívio. De amor. — Eu te amo, Vittorio… eu não saberia viver sem você. Ele a beijou com cuidado. Sem pressa. Sem fome. Só amor. E naquela noite, abraçados no silêncio, o sono veio leve. O primeiro sono em paz desde que Londres começou.
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