Passei metade da noite e claro, tentando entender como fui tão ingênua. A Itália inteira respeitava máfia, e acreditar que eu poderia sair de lá sem que Vittorio soubesse era quase infantil.
O choro era tanto, que acabei adormecendo.
O sono trouxe pesadelos.
Em todos eles, Vittorio chegava.
Eu o tinha desafiado, fugido do casamento, e ele tinha poder suficiente para fazer o que quisesse comigo, até tirar minha vida, se desejasse.
Acordei assustada, com o corpo tenso, lembrando do único encontro que tivemos anos atrás. O rosto fechado, poucas palavras, nenhum traço de gentileza. Apenas um acordo selado entra homens.
Decidi que não passaria aquele dia trancada.
Seria meu último dia de liberdade.
O sol brilhava forte, típico verão português. Tomei um banho demorado, lavei os cabelos, cuidei da pele como se aquele ritual pudesse me dar algum controle sobre o que ainda era meu. Vesti um maiô, uma regata larga e um short simples. Nunca gostei de chamar atenção masculina.
Na cozinha, peguei uma maçã. Já saía quando Santino me chamou.
- Bom dia, dona Siena. Aonde a senhora vai?
- Não é mais da sua conta - respondi fria. - se quisesse saber da minha vida, deveria ter mantido meu segredo.
Ele suspirou cansado.
- Não posso deixá-la sair sozinha. São ordens. Minha vida é da minha família, dependem disso.
- Então peça a Vittorio que venha pessoalmente me impedir. Enquanto isso, eu ainda sou livre!
Saí sem esperar resposta. Mesmo assim Santino entrou no carro e me levou até uma praia próxima. Hoje eu entendia, ele nunca me acompanhou por cuidado, mas por vigilância.
Estendi a toalha, passei protetor e abri um livro. Um romance intenso, desses que prometem escolhas, amor e finais felizes. Por um instante, me permiti imaginar que aquela poderia ter sido a minha história.
Mas a realidade me puxava de volta, um casamento forçado, com um homem que me obrigaria a satisfazê-lo contra a minha vontade.
Fiquei ali até o sol se pôr.
O céu tingido de laranja parecia uma despedida silenciosa da vida que eu não teria mais.
À noite, arrumei o mínimo. Ou melhor, quase nada. Quanto menos eu organizasse, mais tempo parecia ganhar.
Tomei um banho rápido, vesti um pijama curto, o calor estava intenso, o cansaço da noite anterior m*l dormida, me venceu, e adormeci rápido.
Acordei com estranha sensação de estar sendo observada. E quando eu olhei, ele estava ali.
Vittorio.
Com a postura rígida, um olhar escuro e assustador, era alta, um corpo másculo, de pele parda, não era f**o, mas havia algo nele que gelava a alma. Percebi tarde demais para onde ele estava olhando, e não estava totalmente coberta, constrangida, puxei o lençol.
- Preciso de um tempo para me organizar - falei com a voz baixa.
- Alem de sair sem a minha permissão, você dorme assim, sob o teto que outro homem? - disse ele com a voz dura e fria.
- Eu estava tentando ser livre - retruquei, reunindo coragem. - Eu ainda não sou sua esposa, você não manda em mim!
Ele se aproximou rápido demais.
A diferença entre nós parecia ainda maior que me lembrava.
- Você acha que esse casamento de fachada te protege ? - Disse, num tom perigosamente controlado. - Tudo isso só aconteceu porque eu permiti.
Fui prensada contra a parede e mão dele apertou meu sei.o com força, num gesto agressivo e possessivo, como um aviso claro do que ele acreditava ter direito.
Meu corpo travou. O medo falou mais alto que qualquer resposta.
- Por favor… - pedi, com a voz falhando - Por favor, não faça isso. Eu nunca estive com ninguém, nunca.
Por um segundo, algo mudou no olhar dele.
Vittorio se afastou.
- Não vai se repetir - disse, mais contido, e se afastando. - Arrume o que precisar. Se não não quiser levar nada, compraremos tudo novo.
Esteja pronta às quinze horas.
Ele saiu, deixando o quarto em silêncio.
E eu soube.
Meu tempo havia acabado.