A Grécia amanheceu dourada.
Siena acordou antes dele, envolvida pelo braço pesado de Vittorio sobre sua cintura. O quarto estava iluminado por uma luz suave que atravessava as cortinas brancas, e o som distante do mar entrava como um sussurro constante.
Por alguns segundos ela esqueceu tudo.
Esqueceu casamento.
Medo.
Pressão.
Só sentiu o calor do corpo dele contra o seu.
Vittorio dormia profundamente, o rosto relaxado, completamente diferente do homem temido que comandava territórios. Ali ele parecia… humano. Vulnerável.
O coração dela apertou.
Ela tentou sair devagar para não acordá-lo, mas o braço dele se firmou instintivamente.
— Fica — murmurou, a voz rouca de sono.
O arrepio subiu pela espinha dela.
— Eu… ia só levantar — sussurrou.
Ele abriu os olhos lentamente.
O olhar demorou meio segundo para focar nela, e então escureceu.
Desejo.
Cru.
Imediato.
Incontrolável.
Siena sentiu.
O corpo dele reagiu antes que ele dissesse qualquer coisa, e a proximidade ficou perigosa. Vittorio fechou os olhos e cheirou seus cabelos, como se estivesse lutando contra si mesmo.
— Bom dia, minha piccina — disse por fim, afastando-se com esforço. — Vamos levantar antes que eu mude de ideia.
Ela corou até a raiz do cabelo.
O primeiro dia foi estranho.
Bonito demais para combinar com a tensão entre eles.
A ilha parecia um sonho, ruas brancas, céu absurdamente azul, o mar brilhando como vidro líquido. Vittorio caminhava segurando as mãos dela, sempre atento, sempre perto, mas sem tocá-la além do necessário. Era como se ele tivesse traçado um limite invisível.
E estivesse se torturando para respeitar.
Durante o almoço, o joelho dele roçou no dela por baixo da mesa.
Acidental.
Mas nenhum dos dois afastou.
O ar ficou pesado.
Siena sentiu o calor subir pelo corpo, o coração batendo mais rápido. Vittorio ergueu os olhos devagar, encarando-a com intensidade silenciosa.
Não havia sorriso.
Não havia brincadeira.
Só desejo contido.
Ele afastou o joelho primeiro.
E tomou um gole de vinho como se precisasse se recompor.
Naquela noite dormiram abraçados de novo.
O corpo dele era quente.
Firme.
Seguro.
E perigoso.
Cada vez que Siena se movia durante o sono, sentia a respiração dele mudar. Mais pesada. Mais consciente. Ele não dormia de verdade, ele vigiava a si mesmo, para não perder a cabeça com ela tão perto.
Os dias seguintes foram uma mistura de descoberta e aproximação.
Eles riram.
Conversaram.
Dividiram histórias que nunca haviam contado a ninguém.
Siena descobriu o homem por trás da lenda.
Vittorio descobriu a mulher por trás do medo.
Pequenos toques começaram a surgir.
A mão dele nas costas dela para guiá-la.
Os dedos dela segurando o braço dele ao atravessar a rua.
O rosto dele muito perto do dela ao mostrar algo.
Nada acontecia.
Mas tudo acontecia.
O desejo deixou de ser só dele.
E passou a morar nela também.
Na última noite, o clima era diferente.
O jantar foi silencioso.
Carregado.
Quase elétrico.
Siena sentia o corpo quente desde o instante em que os olhos cruzaram com os dele. Era consciência. Era saber que ele estava ali, a poucos centímetros, se controlando por ela.
Por respeito.
Por escolha.
Quando voltaram ao quarto, o silêncio ficou denso.
Siena parou perto da porta.
— Eu vou tomar banho — disse, a voz baixa demais. Quase fuga.
Vittorio a encarou.
— Hoje não, Piccina… hoje você não vai fugir de mim.
Havia ameaça no tom. Havia exaustão. Desejo contido por dias.
Ele tirou o paletó devagar, sem desviar os olhos. Siena ficou parada perto da cama, observando. O coração batia rápido, medo misturado com uma curiosidade perigosa.
Os olhos dele estavam escuros.
O arrepio subiu pela espinha dela.
Erro. Grave erro.
A distância entre eles sumiu em dois passos.
Vittorio segurou o rosto dela com firmeza, não brusco, mas definitivo. A respiração dele batia quente contra a boca dela.
— Eu não consigo mais esperar, Siena… — murmurou. — Você está me deixando louco. Seu cheiro… o seu toque… tudo em você me deixa louco. Eu só preciso de um beijo, me deixa provar você… ou eu vou enlouquecer.
O corpo dela respondeu antes da mente.
Ela não recuou.
E aquilo foi permissão.
O beijo veio como uma ruptura.
Quente.
Profundo.
Contido por segundos… e depois perdido.
Ele beijava como quem mata a sede depois de dias no deserto. A mão na cintura dela a segurava firme, denunciando o desejo acumulado. Siena agarrou a camisa dele, um som baixo escapando da garganta.
O mundo desapareceu.
Só boca.
Respiração.
Calor.
Quando ele a puxou mais contra o corpo, ela sentiu a rigidez dele, e o medo voltou como um choque frio. O corpo inteiro travou.
O beijo dele desceu pelo pescoço, urgente demais. Rápido demais.
O ar sumiu dos pulmões dela.
— Vittorio… — a voz saiu fraca. — Espera…
Ele não parou.
Não porque não quis ouvir.
Mas porque não ouviu.
Estava perdido.
A mão dele subiu pelo corpo dela, parando em sei s3io e o pânico travou Siena inteira. O desejo evaporou, substituído por um tremor involuntário. O corpo dela endureceu nos braços dele.
Ele estava perdido demais para perceber qualquer coisa, o beijo e o toque ficaram ainda mais intensos.
E Siena já estava desesperada, não era assim que ela queria que aquilo acontecesse.
Vittorio Guerra - Disse com voz desesperada e tremula.
E foi isso que o fez parar. Ele ergueu a cabeça, e viu.
Os olhos dela estavam abertos.
Vidrosos.
Assustados.
Não era timidez.
Não era nervosismo.
Era medo dele.
E Vittorio conhecia aquele olhar.
Já tinha visto em homens ajoelhados. Em inimigos encurralados, em gente que sabia que estava nas mãos dele.
Como se tivesse levado um golpe. As mãos se afastaram dela imediatamente, como se ela queimasse.
— M3rda… — ele respirou, a voz quebrando. — Siena…
Ela ainda tremia.
O silêncio entre os dois ficou insuportável. Vittorio passou a mão no próprio rosto, recuando um passo. A culpa caiu sobre ele de uma vez só, pesada, sufocante
- Eu achei que você iria me machucar. - disse ela ainda com a voz fraca - Eu te chamei e você não parou.
— Eu… — ele engoliu em seco. — Eu estava tanto tempo esperando por esse beijo, que não soube me controlar, a ultima coisa que eu quero é que sinta medo de mim.
Siena respirava rápido, mas quando ele se afastou, o corpo dela reagiu diferente, não fugiu. Ela deu um passo à frente e se agarrou à camisa dele, como se precisasse confirmar que ele ainda era seguro.
Ele a abraçou com cuidado. Agora sim, gentil. As mãos firmes, mas protetoras.
— Me desculpa… — murmurou contra o cabelo dela. — Eu esqueci quem eu sou com você.
Ela encostou o rosto no peito dele, ainda tremendo.
— Você me assustou…
Ele podia enfrentar homens armados.
Podia comandar um império.
Podia tomar o que quisesse do mundo.
Mas não suportava a ideia de ser o medo da mulher que ele já amava a tanto tempo.
Ele segurou Siena como se estivesse segurando algo sagrado. E ficou ali.
Pela primeira vez naquela noite, o desejo cedeu espaço para algo mais forte:
A decisão de nunca mais deixar aquela linha desaparecer de novo.
No dia seguinte, eles não falaram mais sobre aquilo.
Apesar do medo e do susto, Siena não conseguia apagar da memória o gosto do beijo. E, contra a própria vontade, admitia em silêncio, tinha gostado.
Passou o resto do dia presa a um pensamento ingênuo, quase infantil, se estivesse fora do quarto, ele não poderia ir até o fim. Em lugares abertos, com luz, com o mundo ao redor… nada sairia do controle.
Era uma lógica frágil. Mas era a segurança que ela precisava.
O avião cortava o céu de volta para casa. Siena observava Vittorio em silêncio. O perfil sério, os olhos fechados, a expressão pesada de quem carregava o mundo inteiro nas costas.
E talvez carregasse.
Ela pensou em tudo o que tinha acontecido. No homem perigoso que o mundo conhecia. No nome que causava medo. Na reputação que atravessava fronteiras. E no homem que, com ela, segurava sua mão com cuidado. Que a tocava como se fosse feita de vidro.
Siena deslizou os dedos devagar até entrelaçar os dele.
Vittorio não abriu os olhos.
Só apertou a mão dela de volta.
Firme.
Presente.
Ali.
Quando o avião pousou, a realidade voltou junto.
Casa.
Responsabilidades.
O mundo dele.
O mundo deles agora.
Mas havia algo diferente.
Uma linha tinha sido cruzada.
Um limite tinha sido visto.
E, mesmo assim, eles continuavam ali. Juntos.
Mesmo com medo e recente, Siena começou a aceitar o que sentia crescer dentro do peito. Não tinha nome sugestionado ainda, mas era só por ele.
E, em silêncio, fez um acordo consigo mesma, Os beijos podiam continuar.
Quentes.
Longos.
Perigosos.
Mas fora do quarto.
Onde o mundo ainda existia.
Onde ela acreditava que estava segura.
Onde nenhuma mão ultrapassaria o limite que ainda não estava pronta para cruzar.