O quarto de Vittorio era grande demais para parecer acolhedor. Tudo ali tinha ordem, linhas retas, cores sóbrias. Nada fora do lugar, como ele.
— Você pode escolher onde dormir — disse, após fechar a porta. — A cama… ou o sofá.
Siena o encarou, surpresa. Não esperava escolha alguma.
— O sofá está bom.
Ele assentiu, sem insistir. Pegou um cobertor e deixou sobre o encosto, mantendo distância.
— Vou tomar um banho — disse ela, buscando fugir da tensão que se acumulava no ar.
No banheiro, Siena apoiou as mãos na pia e respirou fundo. O reflexo no espelho parecia de outra pessoa: cansada, assustada, presa a uma vida que não escolheu. A água quente escorrendo pelo corpo trouxe um breve alívio, mas não levou embora o peso no peito.
Vestiu uma camiseta do futuro marido e voltou para o quarto. Vittorio já estava deitado, de costas, respeitando o espaço que ela havia escolhido.
Siena se acomodou no sofá, abraçando o cobertor. Tentou dormir.
Mas o sono não veio em paz.
O pesadelo chegou rápido. Gritos, sangue, mãos que a puxavam para um lugar escuro demais. Ela tentou correr, mas as pernas não respondiam. Quando abriu a boca para pedir ajuda, nenhum som saiu.
— Siena!
Ela acordou sobressaltada, o corpo tremendo, o coração disparado.
Vittorio estava ajoelhado à sua frente, segurando seus ombros com firmeza — não força, firmeza.
— Foi só um pesadelo — disse ele, mais baixo. — Você estava chorando.
Ela respirava com dificuldade, os olhos marejados.
— Eu não consigo… — a voz falhou. — Não consigo dormir sozinha.
Ele hesitou por um instante. Depois se levantou.
— Venha. Ele pegou ela no colo e a colocou na cama. Deitou-se na extremidade, mantendo distância. Vittorio ficou de lado, sem tocá-la.
— Fica — ela pediu, quase num sussurro.
Ele ficou.
O silêncio entre eles era diferente agora. Mais humano.
— Do que você tem mais medo? — ele perguntou, após alguns minutos.
Siena engoliu em seco.
— De perder quem eu sou. De virar apenas… a sua esposa. O seu nome. A sua sombra.
Vittorio demorou a responder.
— Eu tenho medo de perder o controle — confessou. — Porque quando eu perco, tudo ao redor se quebra.
Ela virou o rosto para ele.
— Então nós dois temos medo de desaparecer.
Os olhares se encontraram. Não havia raiva. Nem imposição. Apenas reconhecimento.
Vittorio levou a mão até o rosto dela, parando antes de tocar.
— Posso?
Siena assentiu.
O toque foi cuidadoso. O beijo na testa veio devagar, contido, como se ambos estivessem testando um território novo. Quando se afastaram, nenhum dos dois falou por alguns segundos.
— Isso não muda o acordo — disse ele, por fim.
— Que acordo? — ela perguntou, ainda sentindo o coração acelerar.
— Dois encontros por semana. — Um leve sorriso surgiu. — E o primeiro foi um desastre.
Siena sorriu de leve pela primeira vez.
— Então você está me convidando de novo?
— Estou. — Ele a encarou. — Para fazer direito desta vez.
Ela respirou fundo.
— Tudo bem. Mas sem ordens.
— Sem ordens — ele concordou.
Siena se ajeitou no peito dele, ainda acordada, mas menos sozinha.
E, pela primeira vez, a noite não pareceu tão ameaçadora.