Capítulo 6 – O Que Se Revela no Silêncio

547 Words
O quarto de Vittorio era grande demais para parecer acolhedor. Tudo ali tinha ordem, linhas retas, cores sóbrias. Nada fora do lugar, como ele. — Você pode escolher onde dormir — disse, após fechar a porta. — A cama… ou o sofá. Siena o encarou, surpresa. Não esperava escolha alguma. — O sofá está bom. Ele assentiu, sem insistir. Pegou um cobertor e deixou sobre o encosto, mantendo distância. — Vou tomar um banho — disse ela, buscando fugir da tensão que se acumulava no ar. No banheiro, Siena apoiou as mãos na pia e respirou fundo. O reflexo no espelho parecia de outra pessoa: cansada, assustada, presa a uma vida que não escolheu. A água quente escorrendo pelo corpo trouxe um breve alívio, mas não levou embora o peso no peito. Vestiu uma camiseta do futuro marido e voltou para o quarto. Vittorio já estava deitado, de costas, respeitando o espaço que ela havia escolhido. Siena se acomodou no sofá, abraçando o cobertor. Tentou dormir. Mas o sono não veio em paz. O pesadelo chegou rápido. Gritos, sangue, mãos que a puxavam para um lugar escuro demais. Ela tentou correr, mas as pernas não respondiam. Quando abriu a boca para pedir ajuda, nenhum som saiu. — Siena! Ela acordou sobressaltada, o corpo tremendo, o coração disparado. Vittorio estava ajoelhado à sua frente, segurando seus ombros com firmeza — não força, firmeza. — Foi só um pesadelo — disse ele, mais baixo. — Você estava chorando. Ela respirava com dificuldade, os olhos marejados. — Eu não consigo… — a voz falhou. — Não consigo dormir sozinha. Ele hesitou por um instante. Depois se levantou. — Venha. Ele pegou ela no colo e a colocou na cama. Deitou-se na extremidade, mantendo distância. Vittorio ficou de lado, sem tocá-la. — Fica — ela pediu, quase num sussurro. Ele ficou. O silêncio entre eles era diferente agora. Mais humano. — Do que você tem mais medo? — ele perguntou, após alguns minutos. Siena engoliu em seco. — De perder quem eu sou. De virar apenas… a sua esposa. O seu nome. A sua sombra. Vittorio demorou a responder. — Eu tenho medo de perder o controle — confessou. — Porque quando eu perco, tudo ao redor se quebra. Ela virou o rosto para ele. — Então nós dois temos medo de desaparecer. Os olhares se encontraram. Não havia raiva. Nem imposição. Apenas reconhecimento. Vittorio levou a mão até o rosto dela, parando antes de tocar. — Posso? Siena assentiu. O toque foi cuidadoso. O beijo na testa veio devagar, contido, como se ambos estivessem testando um território novo. Quando se afastaram, nenhum dos dois falou por alguns segundos. — Isso não muda o acordo — disse ele, por fim. — Que acordo? — ela perguntou, ainda sentindo o coração acelerar. — Dois encontros por semana. — Um leve sorriso surgiu. — E o primeiro foi um desastre. Siena sorriu de leve pela primeira vez. — Então você está me convidando de novo? — Estou. — Ele a encarou. — Para fazer direito desta vez. Ela respirou fundo. — Tudo bem. Mas sem ordens. — Sem ordens — ele concordou. Siena se ajeitou no peito dele, ainda acordada, mas menos sozinha. E, pela primeira vez, a noite não pareceu tão ameaçadora.
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