Siena tentou se levantar e se afastar dele, mas ainda sem forças, acabou caindo. Vittorio a segurou no mesmo instante, porém ela tentou empurrá-lo. O clima ficou tenso — ela dominada pelo medo, ele irritado pela rejeição.
— O que há com você, Siena? — perguntou, completamente irritado. — Por que está se afastando de mim?
— Você… você matou aquele homem sem nem pensar duas vezes — disse ela, apavorada. — Imagine o que pode fazer comigo se eu não te agradar.
— Siena! — ele elevou a voz, aproximando-se mais. — Eu já te disse que não te machucaria. Você fala e age como se eu fosse um monstro. Se continuar me tratando assim, vou acabar agindo como um. Estou tentando ser paciente com você. Desde que fugiu, você deixou de ser uma menina. Eu já te dei tempo suficiente. Só cumpra com as suas obrigações sem dificultar ainda mais.
— Me desculpa… — ela disse, chorando de soluçar. — São muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo, e você sempre parece estar bravo comigo. Eu estou tentando, eu juro. Eu só queria uma vida normal… eu não pedi nada disso.
— Nós não pedimos nada — respondeu ele, mais contido. — Mas temos deveres a cumprir. Vá descansar. A noite foi longa, e você ainda tem muita coisa para resolver. Me desculpa se te assustei… eu só estava protegendo o que é meu.
Vittorio saiu do quarto, deixando Siena sozinha com os próprios pensamentos.
Ela se encolheu na cama. A preocupação com o futuro, com o casamento e com o homem que se tornaria seu marido tomou conta dela. O medo era visível em seu rosto. Chorou até o cansaço vencê-la.
Na manhã seguinte, acordou sentindo dedos suaves acariciarem seus cabelos. Tentou fingir que ainda dormia, mas a voz dele a alcançou.
— Bom dia, minha Piccina. Eu sei que você está acordada. Precisa se levantar, sua visita chega em breve — disse, com a voz surpreendentemente doce.
— Quando você entrou aqui? — perguntou ela, calma, ainda de olhos fechados.
— Eu quis dormir com você desde o primeiro dia, mas você evita meu toque, não olha para mim… — ele suspirou. — Ontem eu não quis piorar as coisas. Só queria te acalmar. Quero que entenda que não vou te machucar. O que aconteceu foi instinto de p******o.
Siena respirou fundo.
— Eu nunca tinha visto nada daquilo de perto, mesmo tendo sido criada nesse mundo. Eu entendo o que você faz… mas não quero presenciar isso nunca mais. Você consegue me prometer?
— Consigo, minha Piccina. Eu não quero te fazer m*l — respondeu, encarando-a com sinceridade.
Mesmo tentando manter distância, Siena percebeu o desejo evidente nele. Aquilo a deixou constrangida, e ela se apressou em se afastar.
— Eu… vou tomar um banho e esperar as meninas. Tudo bem se eu ficar sozinha?
— Não precisa ter vergonha de mim — ele sorriu de canto. — Eu vou ser seu marido, e vou te ver pelada todos os dias.
— Eu sei… mas não vai ser hoje.
Vittorio riu, uma risada baixa e rouca, e a deixou sozinha.
Ela tomou um banho rápido, ansiosa para rever a irmã e a amiga. Escolheu um vestido amarelo que se ajustava perfeitamente ao seu corpo. Ao descer as escadas, encontrou Vittorio em uma ligação. Ele ficou sem palavras ao vê-la.
— Vittorio — ela quebrou o silêncio —, as meninas chegam em vinte minutos. Vou precisar sair para comprar algumas coisas. Tudo bem?
— Dois homens vão te acompanhar — disse ele. — Mas você não vai sair assim.
Siena franziu a testa.
— Assim como?
O olhar de Vittorio desceu lentamente por ela, sem pudor.
— Como alguém que parece disponível demais para o mundo — respondeu, sério. — Você vai andar pela cidade, olhar outros homens nos olhos… e eles vão olhar para você.
O rosto dela queimou.
— Você está insinuando que eu te trairia? — a voz saiu firme, mas ferida. — Porque se for isso, é uma ofensa. Eu jamais faria algo assim. Eu tenho caráter, Vittorio. Não sou qualquer uma.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos, como se pesasse as próprias palavras.
— Eu sei que você não trairia — disse por fim, em tom mais baixo. — E é exatamente isso que me assusta.
Ela piscou, confusa.
— Você não percebe, Piccina — continuou. — Você é inocente demais. Não provoca, não percebe olhares… e mesmo assim chama atenção. Homens olham porque você existe. E eu não quero ninguém olhando para o que é meu.
Siena cruzou os braços, contrariada.
— Então o problema não sou eu.
Ele se aproximou um passo.
— O problema é que o mundo não é gentil com mulheres como você.
Ela respirou fundo, vencida mais pelo cansaço do que pela razão.
— Tudo bem — disse, por fim. — Eu vou me trocar. Coloco uma calça.
Involuntariamente, Vittorio a puxou para um abraço breve e beijou seus cabelos.
— O problema é que você fica linda com qualquer coisa — murmurou. — Por mim, você nem sairia de casa.
Ele se afastou e seguiu para o escritório.
Pouco depois, Siena ouviu vozes animadas no hall. O coração acelerou. Desceu as escadas correndo.
— Meninas! — exclamou, abraçando a irmã e Isabela ao mesmo tempo. — Que saudade!
— Olha pra você! — Isabela riu. — Sumiu do mundo e reaparece assim… linda e misteriosa.
— E cercada de seguranças — completou a irmã, num tom sarcástico.
— Depois eu explico tudo — disse Siena, sorrindo. — Agora não vou deixar nem vocês entrarem direito. Preparei um dia inteiro no shopping. Vamos almoçar fora.
**
No shopping, entre vestidos, provas e ajustes, Siena tentou esquecer onde estava. Riu, opinou, se permitiu ser apenas uma mulher comum por algumas horas.
— Você parece diferente — observou a irmã, enquanto tomavam café. — Mais forte.
— Estou aprendendo a sobreviver — respondeu Siena, com um meio sorriso.
No fim da tarde, voltaram para casa exaustas.
Assim que atravessaram a porta, o clima mudou.
A camareira as aguardava no hall, séria demais.
— Dona Siena… tivemos um imprevisto.
O estômago dela afundou.
— Que tipo de imprevisto?
— Um dos quartos de hóspedes precisou ser isolado. Ordem de segurança.
— Então onde minha irmã vai ficar? — perguntou, apreensiva.
Antes que ele respondesse, Vittorio apareceu no topo da escada.
— Ela ficará no seu quarto — disse, firme. — Você vem comigo.
Siena sentiu o coração disparar, e pediu para conversar em particular com Vittorio.
— Como assim… comigo?
— Você dorme no meu quarto esta noite — declarou. — Eu não permito que divida quarto com ninguém que não seja eu.
— Vittorio… — a voz dela falhou.
— É só dormir, Piccina — disse em tom baixo. — Nada além disso. Mas aqui, você está sob a minha p******o.
Sem forças para discutir, Siena apenas assentiu.